Ailton Villanova

16 de junho de 2018

O revolucionário Pierri

Oito horas da manhã, comecinho de expediente em conceituada gráfica-editora de Maceió, eis que ingressa no pedaço o chefão Miguel Pierri, com aquele seu passo de elefantinho. Ele para na recepção, encara as assessoras Socorro e Nadiene, exibe um ar superior e manda ver:

– Meninas, eu hoje estou virado no cão!

– Afe! – gemeu Nadiene.

Miguel prosseguiu em tom de quem não deixa a menor dúvida:

– Atenção! Começarei, agora, a proceder uma modificação institucional neste ambiente.

Socorro gelou:

– “Modificação institucional”, Miguel?! O que vem a ser isso, pelo amor de Deus?

E ele, adotando ar professoral:

– Significa dizer que eu vou fazer uma arrumação em regra neste ambiente!

Dito isto, iniciou a tarefa revolucionária de empurrar birôs, arrastar cadeiras e a puxar estantes, modificando todo o panorama da sala de recepção. Em seguida, respirou fundo e proclamou:

– Meninas! Agora, atacarei os computadores. Abram alas!

Socorro foi ao desespero, antevendo o pior:

 

– Não fala isso, Miguel! Você pode tirar o sistema do ar!

 

– Deixa comigo, que eu sei o que estou fazendo. Fique na sua. – replicou cheio de moral.

 

E haja Miguel Miguel Pierri a virar e mexer nos computadores, envolvido num monte de cabos, fios e tomadas.

 

A estas alturas a gráfica em peso havia parado para ver o grande líder operar. A cara dos funcionários era de extrema preocupação. Uma hora e meia depois, os computadores estavam enfileirados em posições diferentes, funcionando em velocidade de fórmula-1. Suando por todos os poros, Pierri deu por encerrada a tarefa. Aí, bradou:

 

– Atenção turma! Vou religar o sistema!

 

A galera ficou apreensiva. Teve funcionário com vontade de sair disparado porta afora.

 

Religados os computadores, aconteceu o imponderável: todos estavam operando numa linguagem estranha, intraduzível.

 

Três dias depois descobriram, através da Internet, que o idioma era de um tal de planeta Jacto, não integrante de nossa galáxia.

 

 

Cigarro sem fogo

 

Como sempre acontece, dia sim, dia não, faltou energia elétrica em Maceió. Não ficou uma luz acesa, pra remédio. Em seu lar, Manuel Barromeu acordou agoniado, morrendo de calor. Abriu a janela e ficou de cara pra rua, reclamando da tal de Eletrobras. De repente, bateu-lhe uma vontade danada de fumar. Botou o cigarro no bico, pegou a caixa de fósforos e percebeu que esta estava igual a Eletrobrás. Isto é, não funcionava, porque os palitos haviam acabado.

 

Barromeu correu para a cozinha, procurou, procurou e nada de achar novos fósforos. Foi para a sala, revirou a estante, a mesinha de centro, as gavetas do armário… Nada!

 

Manuel Barromeu começou a ficar nervoso. Botou a casa inteira pelo avesso e voltou à janela para ver se passava algum fumante pela rua. Necas. Ninguém.

 

Reparando no desespero do marido, dona Iolanda resolveu chamá-lo:

– Ô Manuel, deixe disso, meu velho. Tu já viste que não temos mais fósforos! Apague essa vela e venha dormir!

 

Salomão do Futebol

 

Arapiraca dos anos 40. O principal de time de futebol da cidade, o mesmo de sempre, estava jogando em Palmeira dos Índios, contra o seu principal adversário em todo o Agreste, o Palmeirense. A bola, velha, meio torta e meio oval, não atrapalhava em nada a qualidade do bate bola. Combinava com a forma de jogar das duas agremiações.

 

Aos quarenta minutos de jogo, a bola sobrou pingando para o centro avante Caveirinha do Arapiraquense, que encheu o pé na direção do gol mas o goleiro Barbosão estava bem colocado e agarrou a redonda  no peito.

 

Acontece que a bola  não resistiu. A bater na caixa dos peitos do Barbosão, estourou, e ele ficou só com o capotão (a cobertura de couro), enquanto a câmara de ar saltou para o gol. Aí, começou a discussão.

 

Os jogadores do Arapiraquense começaram a comemorar, gritando que valia, era a câmara de ar, enquanto a turma do Palmeirense afirmava que o capotão era que valia e este o goleiro pegara. Os 22 jogadores e mais os reservas falavam sem ninguém escutar:

 

– O que vale é a câmara…

 

– Não foi gol não, o capotão não entrou…

 

Quando já estavam partindo para a briga eis que o juiz resolveu fazer valer a sua autoridade:

 

– Prrrriiii, prrriiii… – apitava feito um alucinado para chamar a atenção dos jogadores que, finalmente, resolveram ouvi-lo.

 

– Quem entende de regra aqui sou eu! Eu é que sei o que vale e o que não vale, entenderam?

 

– Então como é que é? É gol ou não é? – indagou o capitão do time de Arapiraca.

 

– Tá na regra: quando a câmara de ar e o capotão não entram, vale meio gol!

 

Esse foi o único jogo no mundo que terminou meio a zero.