Gerônimo Vicente

16 de junho de 2018

Minha empolgação em todas as copas

A estreia da seleção brasileira na Copa do Mundo de futebol contra a Suíça, neste domingo (17) foi antecedida por vários questionamentos sobre a empolgação do brasileiro com a  competição e, principalmente com o escrete canarinho. Pesquisa realizada pelo Datafolha constatou que 53% da população perdeu o ânimo como torcedora neste período. Vários são os motivos levantados e o principal foi a junção entre as manifestações de 2015 e 2016 e o  uso, inconsequente, da camisa verde e amarelo e, ainda mais, com o símbolo da CBF, desde aquela época um antro de corrupção e comandada por dirigentes envolvidos em escândalos no futebol internacional e se escondendo até mesmo da modalidade que eles gerenciam. O retrocesso na política social do país também nos polui com esse desânimo, motivado, mais ainda, pela desigualdade social e de renda que separa os nossos craques da maioria dos brasileiros carentes de educação, saúde, moradia, transportes, saneamento e segurança pública. O fato é que  a política de esgoto que se pratica, hoje, no Brasil roubou o que nós brasileiros tínhamos de mais precioso quando se fala a palavra lazer no país, o futebol.

Evidentemente que há  muitos  que separam o futebol da política e, portanto não se sentem atingidos pela avalanche depressiva que assolou boa parte dos torcedores. Contudo, aqueles que  fazem uma análise combinatória do elo Estado-mercado, onde o Erário se transformou em fonte de financiamento de privilégios para os poderosos de toda as espécies, inclusive no futebol, sabem  fazer a diferença entre a abreviatura da empresa CBF e o sentimento de patriotismo.

Acompanhei muitas copas do mundo na condição de torcedor e  trago neste texto, algumas lembranças sobre o clima de Copa. Lembro de  todas elas, desde quando me tornei um entendido em futebol.

Na Copa de 1970,  aos oito anos, despertei-me para o entusiasmo que o futebol  levava ao povo. Ainda hoje lembro, de cor, da seleção canarinha campeã no México, com Pelé, Clodoaldo, Tostão, Rivelino, Gérson, Félix, Everaldo, Paulo Sérgio, Dirceu Lopes, Zé Maria, Jairzinho, Marinho.Era a primeira competição transmitida ao vivo pela televisão e em cores, porém aparelho de tv era para poucos em Maceió e, principalmente em um Estado  que representava a miséria absoluta naquela época com analfabetismo alto, zero em saneamento e moradias de palafitas em quase toda as cidades e, principalmente na capital. A conquista do tricampeonato simbolizou uma vitória também dos militares no poder que se aproveitaram do momento e adotaram o sentimento ufanista com músicas, faixas, adesivos, todos favoráveis ao regime e que escondiam a realidade gritante de norte a sul do país.

Uma violenta eliminação em 1974

Em 1974, aos 12 anos, comecei a torcer de fato e o clamor nacional era  a presença de Pelé que atuava pelo Cosmos, dos Estados Unidos ao ser o precursor  da modalidade na terra do Tio Sam. Porém o rei de futebol não quis participar da Canarinho, devido a outros projetos como jogador em final de carreira A seleção do técnico Zagallo não resistiu ao carrossel holandês (esquema onde todos partiam para o ataque e defesa) em um jogo muito violento com troca de pontapés de  ambos os lados. João Havelange, presidente da CBF se candidatava à presidência da Fifa e acusou o árbitro o alemão-ocidental Kurt Tschenscher de prejudicar o futebol brasileiro na partida para que o país não  conquistasse essas duas vitórias, ou seja o campeonato mundial  e a Fifa. A eliminação  também provocou  um divórcio entre o regime militar e à seleção brasileira. O time já não tinha o ímpeto de 1970. Rivelino e Jairzinho eram resquícios da copa passada. Os demais eram suplentes  que assumiram a titularidade como o goleiro Leão, o lateral Zé Maria, o lateral Marinho Peres, o meia Paulo Sérgio e Dirceu.O time ficou em quarto lugar ao ser derrotado pela Polônia.O mundo era dividido pela Guerra Fria e a competição também marcada por articulações políticas tenebrosas, principalmente entre as duas Alemanhas, Oriental e Ocidental.

Assista lances de Brasil x Holanda

Eliminação com cheiro de sabotagem

Em 1978, a Copa foi na Argentina e aos 16 anos, não só era amante do futebol como praticava quase que diariamente nos campinhos do CSA junto com colegas que mais tarde, se tornaram profissionais, como o ponteiro Gabriel e o lateral Edmilson.

O técnico da seleção brasileira  era Cláudio Coutinho que meses depois do Mundial morreu afogado, durante pescaria submarina.O país portenho vivia  em uma ditadura como o Brasil e, por lá, os militares se aproveitaram do fato de ser sede para imitar a versão ufanista militar dos brasileiros em 1970. E a Argentina  tinha um grande elenco com, Passarella, Tarantini,Oviedo e Mário Kempes, o atacante-sensação da competição. Já o Brasil, tinha em Zico e Rivelino,  a esperança  dos torcedores da conquista da taça . Nesta competição, lembro do polêmico jogo entre Argentina e Peru, ocasião em que os portenhos precisavam vencer por quatro gols de diferença para se classificar para a semifinal. Venceram por 6 x 0, em jogo à noite, quando à tarde o Brasil havia  derrotado a Polônia por 3 x 1 e pensava ter garantido a vaga. Na Teoria da Conspiração contra  os brasileiros chegou-se a afirmar que o ditador argentino Rafael Videla teria visitado o vestiário peruano antes da partida e pedido solidariedade latina. Ao lado dele estava o secretário-geral norte-americano Henry Kissinger.Como detalhe o goleiro peruano, Ramón Quiroga era argentino de nascimento.O que lembro do episódio é que se falava que o técnico peruano Vicente Calderón havia pedido para que seus atletas facilitassem a partida em prol dos argentinos.

O Brasil ficou em terceiro lugar ao vencer a Itália  e o que me impressionou neste jogo foi um chute do lateral direito Nelinho que ainda não vi igual.O jogador do Cruzeiro avançou pela lateral direita e chtou cruzado. A  bola fez uma curva impressionante indo parar no lado contrário onde o goleiro polonês se posicionava. Aliás, nessa época era característica de alguns atletas no Brasil chutar forte de forma que a “esfera” fazia curva ao se aproximar da meta. Cito entre eles Nelinho e Marinho Peres (do Botafogo), laterais do Brasil e Rivelino. Os laterais Roberto Carlos e Branco foram seguidores O time tinha jogadores ainda da Copa de 1970 como,  Leão, Dirceu e Rivelino e novos como Zico, Oscar, Roberto Dinamite,  Jorge Mendonça, Edinho e o ponteiro Gil.

Gol de Nelinho contra a Itália (Vídeo)

A tragédia de Sarriá e a choradeira geral

Se existiu  um momento em que torci de fato pela seleção brasileira em uma Copa foi em 1982,realizada na Espanha. O time era repleto de craques de bola como, Sócrates, Zico, Junior, Casagrande, Valdir Peres, Marinho  (para mim o melhor zagueiro-central de todos os tempos), Toninho Cerezzo, Falcão, Batista e Éder, um ponteiro como nunca vi: além de ter um forte chute era especialista em fazer gols olímpicos (aqueles diretos do escanteio) e batia na bola com efeito de curva surpreendente. No meio desta competição estava  em viagem a Florianópolis para o Encontro Nacional dos Estudantes de Comunicação (Enecom).  Era segunda fase e o Brasil enfrentaria a Argentina. Na estrada foi difícil sintonizar o rádio. Soubemos do resultado no interior de Minas Gerais: 3 x 0, o que nos dava tranquilidade para vencer a Itália e chegar à final.

A partida, apelidada de “Tragédia do Sarriá“,   foi assistida por mim no campus da Universidade Federal de Santa Catarina e comigo estavam futuros jornalistas como Fátima Almeida, Nides Lins, Vera Schumann, Kátia  Lanuzia e Felipe Camelo, esses são os que me vem à lembrança. De fato foi numa tragédia. A choradeira era geral depois do jogo em que Paolo Rossi massacrou aquela que ainda é a melhor seleção brasileira de todos os tempos. No entanto, não paro de assistir a essa partida também a melhor de todas as copas na minha opinião.

A tragédia de Sarriá (Vídeo)

Onde está todo mundo?

Em 1986 a seleção brasileira foi reformulada  em quase sua totalidade. Carlos (goleiro), Josimar (lateral), Mauro Galvão, Branco, Muller, Careca e Silas eram os novos nomes que associados à experiência de Zico, Falcão, Sócrates e Leão (goleiro) fizeram campanha exemplar nas duas primeiras fases da Copa. Nas quartas-de-finais, o adversário foi a França, de Michel Platini, o nome do jogo. Essa partida em que o craque Zico perdeu um pênalti no tempo normal e fomos eliminados  nas penalidades, assisti em um bar na Pajuçara, local onde hoje funciona, hoje a Medicor. O convite foi feito pelo amigo e jornalista Mário Lima. No fim da partida, com a derrota do Brasil o clima de esconderijo pintou no bairro nobre. Poucas pessoas na rua, nenhum táxi e nenhum ônibus por perto para voltar para casa “calibrado” pela comemoração antecipada.

Brasil x França em 1986   (Vídeo)

Era Dunga: a da retranca

O Clima dessa Copa na Itália se assemelha muito ao momento atual. Primeiro pela seleção medíocre que tínhamos, formada pelo técnico Sebastião Lazzaroni, impopular pelo sistema de retranca que implantou no esquema tático brasileiro.

Pela primeira vez, a seleção brasileira disputava uma Copa com três volantes no meio campo. Dunga, Alemão e Valdo chegaram a compor o setor de armação,  fato que resultou vitórias do time por apenas 1 x 0 nos jogos iniciais. Porém a semelhança é no campo político. O país governado por Fernando Collor sofreu os efeitos  do bloqueio da poupança e a insatisfação de um governo que começou popular já eram visíveis, de fato que a copa foi colocada em segundo plano. A Era Dunga de Lazzaroni, ou seja a da  retranca, foi desmontada pela Argentina, por meio  do craque Maradona que driblou dois volantes e lançou para o atacante Caniggia tirar Taffarel da jogada e eliminar a Canarinha. Essa partida assisti no Bar da Biu, no Mutange e pelas fracas atuações anteriores, o resultado para mim era previsto. Afinal de contas apenas Careca era o homem isolado de ataque da equipe brasileira.

Brasil x Argentina em 1990 (Vídeo)

As demais  já pertencem à época da modernidade do futebol, tática buscada no talento europeu de transformar essa modalidade esportiva e um marketing em todos os sentidos a ponto de gerar milionários, inclusive infantis, como foi o caso de Lionel Messi que se revelou craque aos 12 anos.Talvez seja esse o fato de no Brasil, país da  gritante desigualdade social, os torcedores já não estarem com toda a empolgação de ser torcedor