Ailton Villanova

29 de maio de 2018

PROTESTO E RETIRADA

No ano de 1984, salvo engano, o estado de Alagoas mandou uma delegação de peso ao Congresso Nacional de Jornalistas, que se realizou em Curitiba. Entre os nossos representantes lá estavam os ilustres colegas Alberto Jambo e Cavalcanti Barros, o Cavinha, duas excepcionais inteligências e gozadores ao extremo. Mas também grandes boêmios.

O primeiro dia do conclave foi uma chatice: entrega de credenciais e sessão solene de instalação, com quilométricos discursos. O segundo dia constituiu-se de mesas redondas, palestras e plenárias. Terceiro dia, ídem.

Para o Alberto Jambo, que sempre foi pragmático, era papo demais.

Quarto dia, Jambo conferiu a programação, franziu a testa, olhou para o Cavalcanti Barros ao seu lado e comentou:

– Cavinha, este congresso está uma merda! Pra aguentar essa lenga-lenga toda, só vai mesmo tomando uma. Que é que você acha?

E o Cavinha, com um sorriso de orelha a orelha:

– Eu acho que é uma excelente idéia. A gente vai naquele barzinho da esquina, toma uma cervejinhna, e volta para pegar a sessão da tarde, que promete ser boa. Tem um debate sobre a Lei de Imprensa…

E lá se foi a dupla pro tal barzinho. Os dois ocuparam uma mesa na calçada, para melhor apreciar o mulherio e, rapidinho, consumiram meia dúzia de cerveja com um tiragosto que valeu pelo almoço. Ficaram tão entusiasmados com a farra que quase esqueceram do mundo. De repente, Cavalcanti bateu com a mão espalmada na testa e disse:

– Alberto, meu irmão, você está inscrito para o debate desta tarde!

E ele, cheio de má vontade e a cabeça girando igual a estrevolim, em razão dos incontáveis goles de cerveja ingeridos durante a manhã toda:

– Deixa pra lá!

– “Deixa pra lá” o quê, rapaz! Pega mal! Já pensou parte da delegação de Alagoas ausente de um debate tão importante?

A muito custo Alberto Jambo aquiesceu, e voltaram os dois ao Centro de Convenções, local onde se desenrolava o conclave. No que adentraram ao ambiente, avistaram o também alagoano de Anadia, Audálio Dantas, à época presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, bastante inflamado, concluindo o seu discurso, na tribuna:

– … e para terminar, senhor presidente, eu lavro, daqui, o meu protesto!

Alberto Jambo não contou conversa: parou no meio do plenário e, mesmo não sabendo a que Audálio se referia, levantou o braço e disparou:

– Eu também protesto, senhor presidente! Protesto, e em solidariedade ao companheiro Audálio Dantas, vou mais além: eu me retiro do recinto!

Dito isto, girou nos calcanhares, pegou o Cavinha pelo braço e com ele retornou ao barzinho, onde continuaram a farra até a chegada da madrugada.

 

 

O “Vampiro” exagerado

 

Sabino Romariz, inteligência privilegiada, poeta, radiator, diretor de rádio e teatro, apresentador de Tv, locutor esportivo e fenômeno político, foi um exímio contador de anedotas e também produtor de programas de humor. Corajoso, brigão e solidário, sempre teve o povo em alta conta. Tanto que mereceu dele uma histórica, inédita e esmagadora votação para deputado estadual. Seu ponto de apoio foi o programa “A Vez do Povo na TV”, veiculado pela TV Alagoas (hoje Tv Ponta Verde), canal 5, sempre carregado de apelos, denúncias e ajudas de toda ordem aos mais carentes e necessitados.

Na época em que Sabino foi diretor artístico da Rádio Difusora e eu diretor de jornalismo da mesma emissora, ele chegou pra mim e propôs:

– Villa, topa reeditar o “Túmulo dos Vivos”?

Túmulo dos Vivos, programa de terror criado pelo escritor, radialista e produtor alagoano Emanuel Rodrigues (ex-redator de humor das TVs Globo, Record, SBT e Bandeirantes), tinha sido um sucesso na década de 60, na RDA. Sabino achava que somente eu reunia condições de recriar, com o mesmo sucesso, o Túmulo dos Vivos. Topei o desafio.

Túmulo dos Vivos, que ia ar à meia-noite, sempre as sextas-feiras, foi precedido de grande publicidade. Pegou rápido, mercê da boa produção, da excelente contra-regra e sonoplastia do Chico Magalhães e dos excepcionais  atores que integravam o seu exclusivo cast, tendo como ator principal o próprio Sabino Romariz.

A cidade parava durante os 45 minutos em que o programa estava sendo irradiado. Não foi fácil escrevê-lo, produzi-lo, durante oito meses, vez que me exigia muito esforço e bastante criatividade. Nesse particular contei com a ajuda inestimável do professor Carlos Méro, procurador de estado, naquele tempo redator do jornalismo da Difusora.

Num dos tétricos episódios do seriado, introduzi a figura do vampiro intitulado Vanildo Beltrão, escrito a quatro mãos com o Carlos Méro.

Um detalhe a esclarecer: o programa ia ao ar ao vivo, com todo o complicado aparato de contra-regra e sonoplastia. Na interpretação da ação mais cruel do vampiro Vanildo, vivido Romariz, havia a cena em que a horripilante criatura tinha que soltar um uivo aterrador, ao tentar subjugar a mocinha da trama, que era a atriz Marlene Santos, dona de uma das mais belas vozes do rádio nordestino. E foi aí, que aconteceu o inesperado: fazendo jús à sua fama de talentoso ator, Sabino Romariz achou de dar uma incrementada no uivo do vampiro, bem no ouvido da Marlene, já que os dois se utilizavam do mesmo microfone:

– Grrruuuaaaaarrrruuurrrrgruuuunf…

Esquecendo que o programa estava no ar, ao vivo, Marlene reagiu entre apavorada e indignada, completamente fora do script:

– Aaaiii! Tá doido, fidapeste?! Quer me deixar mouca, Sabino?

O capítulo virou bagunça, porque todos os atores, inclusive o narrador, que era eu, o sontécnico Chico Magalhães e o próprio Romariz, caímos na mais incontrolável das gargalhadas.

Nunca mais Tumulo dos Vivos voltou ao ar.

 

    Com Diego Villanova