Ailton Villanova

26 de maio de 2018

Ceguinho competente

Deficiente visual de nascença, José Ciríaco de Deus era um andejo. Poeta popular, repentista dos mais aplaudidos, percorria as bibocas sertanejas pra cima e pra baixo, com sua viola à tiracolo. Um dia, baixou em Paulo Afonso, na Bahia, e fez o seu primeiro show na feira livre da cidade. Acabou, procurou um restaurante decente, ocupou uma das mesas, chamou o garçom e pediu:

– Me veja aí o cardápio, meu caboco… Mas que seja em braile, porque eu sou cego.

E o garçom:

– Cardápio em braile vamos ficar lhe devendo, amigo…

– Tem problema não. Me traga uma colher suja da cozinha para eu provar a comida, pode ser?

O garçom achou estranho o pedido, mas atendeu a vontade do freguês. Pegou uma colher usada com a cozinheira e deu pro ceguinho. Este lambeu a dita cuja e comentou:

– Hmmmmmmm… Ótimo tempero! Camarão com arroz à grega. Pode trazer esse prato mesmo.

Dia seguinte, depois de novo show na feira pública, o ceguinho Ciríaco voltou ao mesmo restaurante. Pegou a colher, cheirou, lambeu e definiu:

– Hmmmmmm… Estrogonofe de frango, batata frita, purê de    batata com leite… Maravilhoso! Traga esse prato!

Ceguinho Ciríaco continuou fazendo o maior sucesso na feira com os seus repentes, as suas loas, e, mais ainda, no restaurante. Todo mundo parava para vê-lo identificar os pratos servidos na casa. Durante uma semana ele manteve a performance. Pedia a colher, lambia e advinhava o prato.

No sábado seguinte, restaurante entupido de gente, o garçom resolveu tirar uma onda com o ceguinho. Quando ele pediu a colher, o canalha chegou para a cozinheira, que era sua esposa, e falou:

– Sebastiana, tô afim de desmoralizar um ceguinho que vem almoçar aqui todos os dias. Faça o seguinte… passe essa colher na sua perereca, e deixa o resto comigo!

A cozinheira fez o que o marido pediu, e ele levou a colher para o ceguinho, com um sorriso triunfal:

– Olhaí, pode cheirar e lamber à vontade. Depois me diga o resultado.

Ciríaco colocou a colher diante do nariz, cheirou e vibrou:

– Eu bem que desconfiei! A Sebastiana está trabalhando aqui?!

 

 

Pior a emenda que o engano

 

Em determinada comarca interiorana, o escrivão do Registro Civil tinha acabado de registrar no livro respectivo o óbito de um certo Januário Virgulino. Mal repousou a caneta no tampo do birô, eis que embocou na sala o médico da cidade, apavorado e praticamente sem fôlego, de tanto correr:

– Aragão, o homem não está morto! Ressucitou agorinha! É um caso de catalepsia!

E o escrivão:

– E agora, doutor? Já registrei o óbito. Não dá para rasurar o livro.

– Putaquipariu! Lascou tudo! A gente tem que arrumar um jeito de consertar esse erro. Vá pensando aí!

O escrivão botou a cachola pra funcionar. Depois de algum tempo, ele pegou a caneta de volta e assentou no livro, abaixo do registro do óbito do Januário: “PS – MORTO POR ENGANO”

 

 

Safra antiga

 

Fanático por vinhos, uísques e afins, o médico Valclípedes Monteiro possuia incrível coleção das referidas bebidas. Virou celebridade pelo fato de identificar, de longe, qualquer tipo de bebida, só pelo cheiro. De lambuja, ainda dizia o ano da safra, o lugar de orígem e qual a destilaria onde foi produzida.

Certo dia, ele entrou no consultório meio bebaço e trocando as pernas, de tanto experimentar uísque. O primeiro paciente da fila de espera era o velhusco Aflaudízio Damião, que aguardava, ansioso, um pronunciamento do esculápio a respeito dos exames de laboratório a que fora submetido.

O doutor sentou-se diante do paciente, pegou uns papeis que se achavam sobre a mesa, encarou-o e disse:

– Primeiramente, devo esclarecer pro senhor que o seu grupo sanguíneo é da safra de 1910…

 

 

Marido sacana

 

O sujeito ligou para um médico amigo e pediu:

– Doutor Altemísio, por favor, me indique um bom remédio pra dormir.

O facultativo indicou-lhe um sonorífero eficientíssimo. O cara agradeceu e desligou o telefone.

Dois dias depois, passeando de carro, alta madrugada, pela orla marítima, o doutor avistou o tal sujeito na maior farra com uns amigos e algumas louras. Aí, não contou conversa: parou o automóvel, desceu, e foi até o farrista, cheio de bronca:

– Que sacanagem, hein, Ribeiro! Anteontem, você me pediu um remédio pra dormir e agora está aí nessa farra toda!

E o Ribeiro:

– Ah, doutor, o remédio não era pra mim, não. Era pra minha mulher!

 

 

Há peito que aguente?

 

No Bar do Duda, o Anaclizio Pinto encontrou o colega Belinaldo Caroba, o Cuca, cuja cara estava cheia de hematomas.

– Ih, cara! Quê que aconteceu com você? Por acaso andou lutando boxe, ou foi atropelado?

– Nem uma coisa e nem outra. É que ontem eu apertei o peito da minha mulher e ele me deu o maior pau!

– O quê?! Não é possível! Sua mulher ficou louca? Pois a minha, quando eu aperto o peito dela, ela fica exicitada e me cobre de beijos e carinhos…

– É, mas você já tentou apertar o peito dela com a porta do carro?

 

Com Diego Villanova