Ailton Villanova

23 de maio de 2018

O SUBVERSIVO

O baixinho José Bernardo Escolástico é o tipo do cara que não pode beber. Quando bebe, nem que seja um golezinho de vinho de missa, ele muda de personalidade. Vira orador ortodoxo. Sábado desses, depois de dividir uma lata de cerveja com o primo Benedito Escolástico, o Biu do Leite, num barzinho da periferia de Maceió, cismou de promover um comício. Trepou numa cadeira e começou:

– Esta vida é uma merda, meus amigos!

– Cala a boca e sentaí, imbecil! – determinou o primo.

E ele, teimando:

– Deixa comigo! Eu sei o que estou fazendo!

– Sabe nada. Tu vai ser preso, veja o que eu tô te falando.

– Preso coisa nenhuma! – Zé Bernardo fez uma pausa, temperou a goela e continuou – O pobre tá se lascando. Quando fica doente, é futuro defunto. Mas, o rico, não: é convalescente.

– Senta, porra! – insistiu o primo.

Zé Bernardo nem aí:

– O rico, quando está doente, meus amigos, “está indisposto e precisa de repouso”. Pobre, não: pobre é vagabundo!

Nesse momento, a galera começou a se manifestar:

– Muito bem!

– Apoiado!

– É isso aí!

Zé Bernardo entusiasmou-se:

– Pobre nasceu pra se lascar de meio a meio!

Nesse momento, o orador foi interrompido por um sargento parrudo, chefe da guarnição da Rádio Patrulha, que adentrava ao local:

– Desde dessa cadeira, subversivo! Aqui não é lugar pra fazer comício, não!

Zé Bernardo arretou-se com a interferência do milico:

– Estão vendo, meus amigos? Olhem aqui a repressão armada! Eu não falei? Pobre quando fala é subversivo! Abaixo a ditadura!

Ah, pra quê? Tocou na palavra proibida e a coisa complicou para o orador. Bernardo foi derrubado do “palanque” improvisado, na base da porrada. Em seguida, foi arrastado pelos fundilhos até o camburão da PM, que se achava estacionado um pouco mais adiante.

Zé Bernardo foi levado preso, sob aplausos da galera, incluindo aí o primo Biu do Leite.

 

 Um degenerado na aula

 

No Bom Parto dos bons tempos, inauguraram um curso noturno de alfabetização para adultos na Escola São José, unidade de ensino primário que pertencia a paróquia e ficava ao lado da igreja da padroeira do bairro. O curso em referência era patrocinado pela fábrica de tecidos Alexandria. Uma das professoras do curso era dona Betinha, uma solteirona religiosíssima, conservadora ao extremo.

Entre os matriculados no tal curso, encontrava-se o Cícero Almerindo, vulgo Penico, que não era mais degenerado porque se resumia numa só pessoa. O cara nem esquentou canto: foi expulso logo no primeiro dia de aula. Motivo da expulsão: ele faltou com o devido respeito à dona Betinha ao responder a mais elementar e inocente das perguntas.

A mestra havia perguntado pra ele o seguinte:

– Quanto dá dois mais dois, Cícero?

A resposta do safado saiu em cima da bucha:

– Dá suruba, professora. Mas das fraquinhas. Suruba legal é daquelas que tem mais de seis pessoas, entendeu? A senhora precisa ver…

 

Nunca tão tarde!

 

Altamente biritado, o Hermenegildo Botelho, vulgo Mené, entrou no Bar do Bolero, localizado no Vergel, para tomar “mais uma”. No recinto, já tinha pelo menos uns quinze caras puxando o maior fogo. Mené parou no meio do salão, balançou para um lado, balançou para o outro, equilibrou-se, e mandou:

– Feliz Natal para todos!

Um dos presentes observou:

– Tu tá bêbo demais, parêia! A gente tamos no mês de maio, já pegando o São João. Natal já passou faz tempo!

E o Mené, espantado:

– Ôxi!  A genta tamos no mês de maio, é?!

– Claro, bicho! Estamos no mês de maio e justamente hoje é o Dia das Mães!

O bebão bateu na testa e exclamou:

– Putamerda! Minha mulher vai me matar, porque eu vou chegar  em casa tarde pra cacete!

E saiu disparado do bar.

 

 

O cachorro que era cachorro…

 

Avisaram no Bar do Osório, situado no Bom Parto,a que um dos seus frequentadores mais assíduos, o popular Bacurau, estava hospitalizado, praticamente às portas da morte. Seus colegas de copo correram para visitá-lo, antes que fosse tarde demais. Chegaram lá e constataram que o estado do infeliz era, realmente, lamentável.

Bacurau estava com as canelas enroladas de gaze. Na cabeça, ele tinha uma touca de esparadrapo, os dois olhos estavam mais roxos do que botão de bananeira e a bunda em frangalhos. Encontrava-se deitado de bruços porque não podia sentar e nem botar as costas no colchão.

Compadecido da situação do colega, o pinguço Lula Porronca adiantou-se e indagou:

– Como foi que aconteceu esse desastre, meu compadre? No mínimo você foi atropelado por uma locomotiva…

E Bacurau, mal podendo falar:

– Antes fosse, meu amigo. Foi coisa pior…

– E o que diabo aconteceu realmente com você?

– Foi um cachorro…

– Eita cachorrinho da mulesta!

– Pois é. Eu tinha bebido além da conta, num sabe? De repente, me vi no Farol, querendo entrar num casarão, pensando que era um bar. Meu caso era tomar o grogue final para poder chegar em casa um pouco legalizado. Nisso, reparei que os dois cachorrões que tinha lá, estavam avançando pra cima de mim. Saí correndo, e eles atrás. Acontece que eu estava vendo tudo em duplicata, você entende esse barato.

– Entendo até demais. Continue!

– Bom… naquela carreira pra me livrar dos cachorros, eu estava enxergando duas ruas e aí peguei uma delas e me mandei. Lá na frente, tinha duas árvores. Que foi que eu fiz?

– Subir nas duas árvores não era possível…

– Claro. E eu fui subir justamente na árvore que não era árvore e o cachorro que era cachorro me pegou de jeito!

 

Com Diego Villanova