Ailton Villanova

16 de maio de 2018

Aluno de circunstância

Professor de História chato pra cacete, Pitecantropo Clarivaldo Pinto não dava colher de chá pra aluno nenhum. Era durão, insensível. Por conta disso, detestado pela rapaziada.

Certa manhã, ele entrou na sala de aula, que se achava abarrotada de alunos de duas turmas, e foi avisando, com certo ar nazista:

– Hoje temos arguição, valendo ponto para o mês, entendidos?

Dito isto, Pitecantropo apontou para um rapazinho distanciado um pouco dos demais:

– Ei, garoto! Quer parar de mexer nessa janela e prestar atenção à aula?

– Tá falando comigo? – perguntou o rapaz, sem deixar de futricar na prefalada janela.

– É com você mesmo que eu estou falando, seu folgado. E quer saber de uma coisa? Vou começar a arquição por você: me diga quem foi Getúlio Vargas.

– Quem?

– Getúlio Vargas. Quem foi ele?

– Conheci não.

– E Juscelino? Quem foi Juscelino Kubitscheck?

– Sei não. Acabei de chegar e…

O professor não deixou o rapaz continuar:

– Você estudou mesmo a lição que passei?

– Lição? Ôxi!

– O que foi que você andou fazendo ontem que não estudou a lição?

– Ah, eu tava por aí! Joguei sinuca, tomei umas cervejas com amigos… Por quê?

– Você quer passar de ano, rapaz?

– Quero não.

– Você não quer terminar o curso?

– Que curso que nada, meu!

O professor ficou indignado com tamanha desfaçatez:

– Então, o que você veio fazer aqui?

– Eu vim consertar esta janela, que tá quebrada. Sou o marceneiro que o diretor contratou!

 

 

Idéia fixa no pato

 

Dia de sábado, mercearia do velho Anfrísio abarrotada. Em dado momento, emboca o bêbado mais chato do bairro, um tal de Boca de Garapa:

– Bom dia, seu Anfrísio. Tem comida pra pato?

E seu Anfrísio:

– Comida pra pato não temos!

No outro dia, na mesma hora, olha o bêbado de novo:

– Tem comida pra pato?

– Não, não temos comida pra pato.

Chato pra burro, o Boca de Garapa voltou lá no terceiro dia:

– Tem comida pra pato?

Seu Anfrísio já estava puto com o cara:

– Pô, não já lhe falei que não temos comida pra pato? Olha, se você voltar aqui com essa história de comida pra pato, eu lhe prego na parede!

Apesar da ameaça o bêbado voltou à mercearia:

– Tem prego?

– Não! Não temos prego! – respondeu o merceeiro, menos puto.

E o bebão:

– Grazadeus! Tem comida pra pato, seu Anfrísio?

 

 

Loucura demais!

 

No bar de um hotel muito chique da orla, um hóspede pra lá de biritado, bebia um copo de Martini atrás do outro. Cada vez que ingeria a bebida ele  mastigava o copo, deixando apenas o pé, colocando-o, em seguida, no cinzeiro. O barman ia trocando os cinzeiros pacientemente. Lá pela vigésima vez, ele não resistiu e cutucou outro cliente, na mesa ao lado:

– Nunca vi loucura tão grande!

– Tem toda razão. Onde já se viu jogar fora o pé do copo que é a parte mais gostosa.

 

 

Tolerância zero

 

Além de gozador, o colega Álvaro Cleto é um sujeito implicante. Pra tudo ele tem uma resposta atravessada.

Uma noite, quando já estava agarrando no sono, sua cara consorte achou de lhe fazer o seguinte pedido:

– Será que você não podia fechar a janela? Tá fazendo um frio terrível lá fora!

E ele:

– Ah, mulher! Tenha santa paciência! Tu me acordaste pra isso? Dorme que o frio passa!

– Pelo aor de Deus, homem! Fecha essa janela, que tá mito frio lá fora!

Putão no pijama, Álvaro levantou-se, fechou a janela e voltou-se para a cara-metade:

– E agora? Por acaso ficou mais quente lá fora?

 

Plano infantil pro futuro

 

Madame Sodileuza Augusta observava a filhinha brincar de pintura na sala de casa, sujando a roupa, o chão e a parede. Mãe bastante cuidadosa, a madame, em dado momento, pegou a garota no colo e perguntou:

– Não é melhor você brincar com a boneca que sua avó lhe deu?

E a menina:

– Não, mainha. Eu guardei ela no armário pra um dia dar de presente às minhas filhas.

– E se você não tiver filhas?

– Nesse caso será para as minhas netas.

 

Com Diego Villanova