Ailton Villanova

12 de maio de 2018

Mas que desconsideração!

Cabra velho quando se apaixona por menina nova ou cai no ridículo, ou em desgraça. Ou as duas coisas juntas.

Pois o sexagenário Aristarco Guilhobel, viúvo, funcionário público federal aposentado, achou de gamar pela garotona Turmalina Pereira, 21 anos, bastante vividos para a idade.

Aristarco Guilhobel andava abobalhado, de cara pra cima, sonhando acordado. Quando ele não estava com a pecinha entre os braços, ficava pendurado no telefone, expelindo juras e mais juras de amor no ouvido dela. E demorava nisso incontáveis voltas dos ponteiros do relógio.

Certo dia, Guilhobel acordou mais cedo e bem disposto. Banhou-se todo, raspou os escassos pelos da cara, escovou os dentes e abriu a vávula do fogão a gás para fazer o café do desjejum. Nesse momento, o telefone começou a tocar. Quem seria uma hora daquelas?

Guilhobel correu para o aparelho, tirou-o do gancho e disse:

– Alô!

Do outro lado da linha, a voz musicalmente melíflua e sibilina da garotona ecoou:

– Sssou eeeuuu, amooorrr…

E começou o chumbrego via linha telefônica. O café que se danasse. O gás do fogão, que Guilhobel esqueceu de fechar, começou a tomar conta do ambiente. Ele nem aí. Àquelas alturas importava apenas escutar a Turmalina, mulher de sua vida. Um canário belga que ele criava numa gaiola presenteada pela amada, caiu de canela esticada, asfixiado pelo gás, já espalhado pelos quatro cantos do apartamento.

E Aristarco Guilhobel, meio zonzo, aspirando mais gás:

– Amor, diz mais uma coisa bonita pra eu escutar. Olha, parece até que estou embriagado de tanta paixão.

Aí, o Guilhovel fez uma coisa que jamais deveria ter feito na vida: botou um cigarro no bico e acionou o isqueiro:

“Caaabbbrrruuuuuuuummmm”

Explosão de mil megatons. E lá se foi metade do apartamento do apaixonado Guilhobel, com ele dentro. Socorrido a tempo, o sexagenário escapou da morte.

Ainda hoje ele está querendo morrer por livre e expontânea vontade, pelo seguinte motivo: Turmalina rompeu o namoro, sob a alegação de que, naquele dia fatídico o Guilhobel havia sido deselegante e “muito mal educado”.

– Você pelo menos poderia ter me avisado que o apartamento ia explodir, mas não avisou. Bateu o telefone na minha cara e isso eu não perdôo! – desabafou Turmalina, cheia de indignação, no momento em que decidiu por um ponto final no romance.

 

 

– “Se pegar mais uma, morre!”

 

Antigo prefeito sertanejo José Florisval, o proverbial Zé Flor, tinha um aliado de fé, um sargento PM adiposo chamado Amaro Laudelino, mais conhecido como Farofa – subserviente e ignorante de pai e mãe.

Apreciador do batebola, Zé Flor inventou, certo dia, de organizar um campeonato futebolístico, envolvendo times da região. Chamou o Amaro Farofa e propôs:

– Eu quero qui vosmicê sêje o juiz de todos os jôgo, purque o time de nóis aqui num pode perdê de jeito ninhum! Nosso time tem de ganhá nem qui sêje na base da ispingarda!

– Possa dexá cumigo, prefeito! – animou-se o milico.

O campeonato teve início e, imagine o caro leitor, o time do prefeito, em que pese ter sido o pior da competição, chegou à disputa final. Convém esclarecer que isso só ocorreu porque o juiz Amaro Farofa além de ameaçar jogadores, roubou absurdamente.

Chegou o domingo do prélio final. Zé Flor chamou o sargento e reiterou:

– Óia, salgento, se alembre qui a gente num pudemos perdê!

– Possa contá cum a vitóra, ou num me chamo Amaro!

Nesse jogo final o Esporte Clube Riachense, time do prefeito, enfrentava o Cacimbinhas Futebol Clube, onde só tinha nego bom de bola. O plantel da terra de Wanderley Neto dava o maior show, mas não podia avançar além da linha intermediária, porque o juiz Farofa marcava impedimento. Marcou uns trezentos.

Terminou o primeiro tempo com o placar zerado. O time do prefeito Zé Flor, mal das pernas, mal se sustentava em campo. Aí, o juiz achou de marcar um pênalti pra lá de absurdo contra o Cacimbinhas. A torcida protestou, mas não houve jeito. A bola foi colocada na marca da cal e o centroavante do Riachense, um tal de Nequinho Perneta, marcou carreira e mandou o sapato na pelota – cataplaft! O goleiro do Cacimbinhas deu um pinote no canto e agarrou a pelota. O mundo quase veio abaixo.

– Num vogou! Tá nulo! – berrou o juiz.

– Num vogou pur quê, seu sargento? – quis saber o capitão do Cacimbinhas.

– Num vogou pur causo de quê o golêro se mexeu! Bate o quíque dinôvo!

Perneta marcou carreira do meio do campo e sapecou o pé na bola. O goleiro agarrou novamente.

Bateu novo pênalte. O goleiro, cráu, pegou a pelota. Outro pênalte, mais outro e ourtro mais. O juiz, então, perdeu a paciência e chegou junto do goleiro e ameaçou, segurando o cabo do revólver:

– Olhaquí, seu neguinho exibido, se você fedendê mais um quique, num sai vivo daqui, tá intendendo? Num se faça de besta, não.

Nequinho Perneta, àquelas alturas de pernas bambas, bateu o último penalte. Goleiro pra um canto, bola pra outro. O Riachense sagrou-se campeão do torneio, na marra, depois da cobrança repetida de 36 pênaltes, todos defendidos pelo goleiro cacimbinhense.

 

Com Diego Villanova