Ailton Villanova

18 de abril de 2018

O Salvador da “Pátria”

Jesualdo Ribeiro e Umberto Guerrera, imortais do rádio alagoano, sempre se deram às mil maravilhas. Iniciaram (Jesualdo primeiro) como locutores na Rádio Difussora de Alagoas, quando esta funcionava na rua Pedro Monteiro, centro de Maceió. Esses dois ilustres companheiros sempre figuraram, entre os maiores cartazes da terra, chegando, inclusive, a mandar na audiência da emissora pioneira do estado, durante mais de duas décadas.

Santo dia, não se sabe por que cargas d’água, Jesualdo e Umberto se desentenderam e quase chegaram às vias do fato. A turma do “deixa disso” interferiu em tempo. Só não conseguiu evitar as mútuas ameaças verbais. Temiam, colegas mais chegados aos dois, que o próximo bate-boca poderia resultar em consequências drásticas. Então a turma ficou naquela expectativa, principalmente por saber que Jesualdo nunca deixou de carregar à cinta um “pau-de-fogo” do calibre 38. E também porque o Guerrera passara a andar armado com uma faca-peixeira de 12 polegadas.

Semanas se seguiram, e os dois mantendo distância um do outro. Mas, a vigilância, entretanto, redobrou em torno deles.

Aí veio o dia em que o colega Roland Benamor, que fazia parceria com Jesualdo Ribeiro na apresentação do Grande Jornal Difusora, nas suas três audições diárias, entrou de férias. Guerrera era o único disponível para substituí-lo. Problemão para o Wagner Novaes, que acumulava as funções de diretor artístico e locutor-chefe.

Não havia outra saída: os dois tinham mesmo que se encontrar, lado a lado, no mesmo estúdio.

Quando a nova escala de locutores foi afixada na portaria do andar térreo, teve neguinho tremendo nas bases.

– Pronto! Vai começar a terceira guerra mundial! – exagerou o contínuo Estelito Coutinho, assim que, de ordem da DA, acabou de afixar a bendita escala no local referenciado.

O cantor Ernande Silva, amigo da dupla, foi quem mais se preocupou com a medida. Correu pro gabinete do Novaes e apelou:

– Meu irmão, pelo amor de Deus, evite uma desgraça entre dois pais de família! Esses homens vão se acabar lá dentro!

E o Wagner, tranquilíssimo, como sempre:

– Não se preocupe, Ernande. Antes da apresentação do noticiário conversarei com os dois.

E cumpriu a promessa. Chamou a dupla às falas e se deu por satisfeito. Os desafetos não emitiram um “ai”, sequer. Saíram da sala do diretor mudos e cabisbaixos.

Faltavam cinco minutos para a abertura da primeira audição do Grande Jornal Difusora, que ía ao ar às 7 horas e o sontécnico Adelmir Pereira que apreciava emitir uns bocejos antes da irradiação do noticioso, aquelas alturas estava ligadíssimo. Cada butuco de olho!…

Em meio àquela tensão, entra Jesualdo Ribeiro no estúdio, com o “scritpt” do jornal na mão. Umberto Guerrera já se encontrava lá, porque assumira o microfone meia hora antes, dado o fato de que era o apresentador de um programa de músicas napolitanas.

Sem dizer palavra alguma, Jesualdo puxou a cadeira que se achava ao lado do Guerrera e a colocou de frente a ele. Antes de sentar-se, puxou da cintura o revólver e depositou em cima da mesa de locução.

Guerrera agiu em represália, repetindo o mesmo gesto do colega: levantou-se, arrastou a faca do cós da calça e jogou na mesa.

Da chamada “cabine de som”, localizada no outro extremo, e separada pelo palco do auditório, o sonotécnico  Adelmir Pereira apavorou-se. Deixou um long-play girando no prato da “consolete”, abandonou a cabine e disparou escada abaixo, aos gritos:

– Pessoal! Acuda aqui! Eles vão se matar!

Providência Divina! Nesse momento vai entrando na emissora o também sonotécnico Sebastião Machado, o Bastinhos – quase 2 metros de altura e mais de 100 quilos de peso – que também era guarda civil estadual. E muito valente!

– Quem é que vai se matar, Adelmir? – perguntou, já empunhando uma das armas que costumava transportar – um “canela seca” do calibre 38.

– O Jesualdo e o Umberto… Os dois estão armados! Vai lá, Bastinho! – apelou o Adelmir.

– Deixa eles comigo!

Bastinho, que além de sonotécnico e guarda-civil, era pai-de-santo, sacou mais uma arma do seu vasto repertório (uma pistola 380) e, empunhando as respectivas, entrou no estúdio pisando firme. Imóveis, um encarando o outro, Jesualdo e Umberto estavam a ponto de repetir a clásica cena do duelo no far-west. Bastinho, então, falou brabo:

– O que é que está acontecendo por aqui, rapazes? Tá tudo bem? Pela cara dos dois, tô vendo que não tá!. Por isso, vou dizer uma coisa pra vocês: se comportem, apresentem o seu jornalzinho bem direitinho, que eu vou ficar aqui observando. O primeiro que se mexer em direção as armas, em passo fogo! Vamos, comecem!

Nessa manhã, o Grande Jornal Difusora saiu no capricho…

Tempos depois, os dois voltaram a ser os bons amigos de antes.

 

 

Este sim, é o rádio!

 

Seu Jovelino Fragoso (seu Jovem) era um velhote meio mouco que residia no bairro da Pitanguinha, parte alta de Maceió. Todo dia, bem cedo, depois que acordava, colava o ouvido no rádio devido a sua surdez para escutar o tradicionalíssimo programa “Manhãs Brasileiras”, apresentado pelo saudoso Edécio Lopes. E tinha mais: o som era topado. Altura dos seiscentos mil diabos. Quarteirões inteiros escutavam o rádio do velho Jovelino.

Certo dia, um ratinho catita entrou no receptor do velhusco, levou um choque violento, morreu “eletrocutado” e ficou lá, de canelinhas esticadas. Dois dias depois estava fedendo pra burro.

De repente, baixou na residência de seu Jovem um antigo amigão dele, seu Olibaldo França. Foi aquela festa, já que os dois não se viam há um bom tempo.

– Quem é vivo aparece, né Olibaldo? – manifestou seu Jovem – Entra pra cá, amigo velho.

E o visitante, na base do berro:

– Tá escutando uma musiquinha né?

O mouquinho respondeu:

– Tô escutando o finado Luiz Gonzaga, aqui no programa do Edélso…

– Programa bom tá aí, né?

– Ora se é. É bom pra mais da conta. Se achegue mais pra escutar melhor, amigo velho.

O visitante aproximou-se do rádio e sentiu a catinga do rato podre. Então, abriu a boca para reclamar:

– Esse seu rádio…

Seu Jovelino nem deixou o amigo terminar de falar. Entrou de sola:

– O rádio é bom. Pega tudo!

– É, tô vendo! Pega até o bafo do cantor!

 

Com Diego Villanova