Ailton Villanova

29 de março de 2018

O carma da Fatinha

Competente na administração da palavra escrita, a jornalista Fátima Vasconcellos é proprietária de um texto admirável. Ela escreve e descreve fatos, dramas e situações com maestria incomum. Fatinha (é assim que ela é tratada carinhosamente pelos mais chegados), só tem um problema na vida – problema, aliás, que é classificado pelas pessoas com as quais convive, como “carma”.

Pois o “carma” de Fatinha é um ser humano intitulado “empregada doméstica”. Jamais uma delas deu certo em sua casa. Outro dia, meio que no desespero, ela desabafou: “Eu não tenho sorte com criadas. Acho que vou viver a vida toda procurando por um desses exemplares que seja capaz de me realizar como patroa…”

A pequena Fatinha já reuniu matéria suficiente para a edição de um livro de mil páginas, versando sobre empregadas do lar. A realidade é que essas simpáticas criaturas podem dar certo em qualquer residência, menos na casa da minha colega.

Fátima Vasconcellos tem dado tudo de si para ser uma  patroa sem defeito. Aliás, ela nem precisa se esforçar tanto, porque é bem dizer uma  santa. Nos seus assentamentos específicos, ela conseguiu contabilizar que mais de mil empregadas domésticas já passaram pelo seu domicílio, desde o dia em que resolveu proferir o seu grito de independência. O apartamento dessa baixinha é a coisa mais  linda do mundo. Moderninho, arrumadinho, cheirosinho, iluminadozinho… Mas falta a figura da guardiã doméstica.

Não faz muito tempo, eis que Vasconcellos tentou sua última cartada: pôs no jornal um anúncio oferecendo emprego a uma dessas secretárias do lar, mediante “invejável salário”. Apareceu uma lourinha, que Fátima contratou na hora.

No primeiro dia de trabalho da lourinha, a jornalista Fátima Vasconcellos chegou do trabalho mais cedo e flagrou a moça puxando o maior ronco, espichada no sofá da sala. Aí, deu a bronca:

– Epa! Que folga é essa minha filha?!

A empregada deu um pinote do sofá e encarou a patroa:

– Ué, por que o susto, doutora?

– Como “por que o susto”? Pego você dormindo no meu sofá novinho, em pleno horário de trabalho, e não quer que eu reclame?

E a criada:

– Doutora, eu estou aqui na casa da senhora porque eu li o anúncio no jornal e até agora estou fazendo tudo direitinho!

– Tudo direitinho?! – exclamou Fatina cheia de ironia. – É muita petulância!

– Tá reclamando do quê, doutora? Foi a senhora mesma quem botou no anúncio “Procuro empregada doméstica para dormir no serviço”. Foi ou não foi?

 

Coisinha do pai

O pentelhinho Cacá tinha entre 5 e 6 anos de idade quando viu a mãe nua pela primeira vez. Ficou abismado:

– Mãe, o que é isso que você tem aí no meio das pernas?

– Ah, meu amor, é uma coisinha que seu pai adora! – respondeu ela, cheia de mistério.

Mais tarde, depois que chegou da escola, com muita fome, o Cacá perguntou:

– Mãe, o que é que a gente vai comer no jantar?

– Uma coisinha que o seu pai adora!

– Com cabelo e tudo?!

 

Na dúvida, só no inferno!

      Chato, teimoso, polêmico e, para completar, ateu. Esse é o Agnósio Augusto. Quando era pequeno, nos tempos da escola primária, ele criava os maiores problemas nas aulas de catecismo, para desespero da professora Escolástica Barbosa. Agnósio estava sempre do contra e tinha na ponta da língua uma palavra de protesto. Cresceu, virou rapaz, casou-se. Apenas no civil. Bem que padre Elpídio tentou fazer-lhe a cabeça. Só um milagre o faria mudar de opinião, mas como os milagres estão em carência nos tempos de hoje, Agnósio continuou defendendo sua opinião contrária à Igreja.

Um dia, viajando de ônibus com destino a Recife, ele não teve outra alternativa senão a de ocupar a poltrona vazia ao lado de um religioso, que não era outro senão o padre Obdúlio, pároco de uma das igrejas mais frequentadas da capital pernambucana, a de São José. Em dado momento da viagem, o canalha cismou de provocar o reverendo:

– Padre, por gentileza… o senhor acredita nas baboseiras que estão escritas na Bíblia?

O religioso acusou o golpe com esportividade:

– Claro, meu filho!

– E naquela história do camarada que foi engolido pela baleia…acredita?

– Oh, sim… o Jonas. Sim, eu acredito. Se está na Bíblia, é verdadeiro!

Agnósio continuou provocando:

– Qualé, padre? O cara saiu numa boa da barriga da baleia! Conta outra, padre. Isso é a maior cascata que eu já vi na minha v ida. Como é que alguém pode sobreviver a isso?

– Bom, isso eu não sei. Um dia, quando eu chegar ao céu perguntarei ao próprio Jonas.

– E se ele não estiver no céu?

– Nesse caso caberá a você questioná-lo, se por ventura ele estiver no inferno!

 

Com Diego Villanova