Ailton Villanova

27 de março de 2018

Falta de confiança

Ele começou a trabalhar em banco quando tinha 12 anos de idade, mal tinha acabado de receber o certificado de conclusão do curso primário, no Grupo Escolar Fernandes Lima, localizado na Rua do Sol, centro da cidade de Maceió. Coriolano José Bezerra residia, então, na Rua da Saudade, comecinho do bairro do Farol, primeira transversal da Ladeira dos Martírios.

Garoto inteligente, logo ele foi promovido a chefe de cadastro. Antes era contínuo, função hoje conhecida como “office-boy”, ou “garoto de escritório”. Coriolano sempre cumpriu suas tarefas em tempo recorde e com a maior perfeição. “Ele que era um perfeccionista”, lembra um dos seus contemporâneos e seu antigo gerente Claudélio Aldeman de Oliveira.

A clientela do banco gostava muito do Coriolano, dada a sua educação e finesa no trato com as pessoas. Hoje aposentado, relembra com saudade os temos de bancário e de jogador amador de volibol.

Anos mais tarde, quando gerenciava a agência de conceituado banco, no centro de Maceió, Coriolano tinha uma pessoa de sua inteira confiança, dona Alfreda, faxineira e que na maioria das vezes quebrava o galho como atendente, porque era mulher inteligente e tão simpática quanto o chefe.

Havia uns 10 anos que Alfreda trabalhava no banco quando, belo dia, ela se pôs de pé diante do gerente e falou com altivez:

– Seu Coriolano, estou me demitindo do emprego!

O gerente quase teve um colapso cardíaco:

– Mas por que, dona Alfreda?! O que está havendo? Por acaso a senhora não está satisfeita com o tratamento que estamos lhe dispensando?

– Tô não e não tô!

– Então, por favor, me explique onde é eu estamos errando com relação a sua pessoa.

Ela foi objetiva:

– O senhor não confia mais em mim!

– A senhora está sonhando, dona Alfreda! Trabalha aqui há mais de 10 anos, e é testemunha de que eu até deixo as chaves do cofre em cima da minha mesa…!

– Eu sei! – replicou a faxineira aos prantos. – Mas nenhuma delas funciooona!

 

A flecha assassina

O garoto filho do vizinho bateu na porta de dona Gerúndia, ela atendeu e o pentelho pediu:

– Eu posso entrar no quintal da senhora?

– Não! Deixa que eu vou pra você. O que foi que caiu lá desta vez?

– A minha fecha!

– Onde ela está?

– Espetada no seu gato!

 

Gente demais!

Don Pablo, espanhol metido a besta, procurou um hotelzinho barato assim que chegou a São Paulo, como turista. O hotel ficava na famosa Rua 25 de Março, e só tinha uma estrela. Hotel “xerife”, portanto. Ele se aproximou do recepcionista, que cochilava escorado no balcão e disse:

– Quiero hospedarme!

E o porteiro, meio dormindo, meio acordado:

– Seu nome, por favor!

E o espanhol, cheio de empáfia:

– Don Pablo Hernandez Rodriguez Ramón Iturriaga Villanueva Ortiz…

O porteiro interrompeu:

– Pode parar, meu! O hotel não tem lugar pra tanta gente!

 

Velhinhas esclerosadas

Três velhuscas finórias da alta sociedade encontravam-se reunidas em determinado clube de Maceió, tomando o chazinho de sempre e fofocando. Em dado momento, a primeira delas puxou o seguinte papo:

– Acho que estou esclerosada, minhas queridas! Ontem, me peguei com a vassoura na mão e não lembrava se já tinha varrido a casa ou não!

A segunda comentou:

– Ah, isso não é nada. Outro dia me vi de pé ao lado da cama, de camisola, e não sabia se tinha acabado de acordar ou estava me preparando para dormir!

Aí, falou a terceira:

– Cruz credo! Deus me livre ficar assim! – e deu três batidas na mesa (toc, toc, toc…)

Depois, olhou para as outras duas e emendou:

– Esperem um pouco que eu já volto. Tem gente batendo na porta!

 

Quando eles eram jovens

      Aquele casal de velhinhos – seu Anatógenes e dona Antígona – se achava deitado na cama. A mulher não estava nada satisfeita com a distância entre eles. Então, reclamou:

– Quando a gente era jovem, você costumava segurar minha mão, na cama.

O velho hesitou e, depois de um breve momento, esticou o braço e segurou a mão dela.

Dona Antígona não se deu por satisfeita:

– Quando a gente era jovem, você costumava ficar bem coladinho comigo…

Uma hesitação mais prolongada e, finalmente resmungando, seu Anatógenes virou o corpo com dificuldade e se aconchegou junto dela da melhor maneira possível.

E a velhota ainda insatisfeita:

– Quando a gente era jovem, você gostava muito de ficar dando mordidinhas gostosas na minha orelha…

Seu Anatógenes soltou um profundo suspiro, jogou a coberta de lado e saiu da cama. Dona Antígona se sentiu ofendida:

– Pra onde você vai, Toginho?

– Buscar a minha dentadura, porra!

 

Com Diego Villanova