A Palavra em palavras

27 de março de 2018

A SEXTA-FEIRA SANTA E OS ALGOZES DA COMILANÇA

Em muitos locais há um certo costume de beber bastante vinho e comer muito, em especial, peixes e frutos do mar, na semana santa. Muitos não se dão conta e não se preocupam em responder à pergunta: isso seria um costume cristão ou pagão?

Para os que costumam beber e comer bastante na Sexta-Feira Santa, essa pergunta pode parecer estranha. Porém, para quem acompanha as práticas piedosas pelas quais a Santa Igreja compreende bem a diferença. Na verdade, todos podem perceber que há uma diferença bem nítida sobre a prática cristã da Sexta-Feira da Paixão e a questão degustativa.

 

Qual o mandamento da Igreja acerca da Sexta-Feira Santa? Ora, a Igreja nos dá cinco mandamentos e no seu quarto mandamento preceitua: “Jejuar e abster-se de carne, conforme manda a Santa Mãe Igreja”. Pois bem, no Brasil, a Santa Mãe Igreja preceitua que a Quarta-Feira de Cinzas e a Sexta-Feira Santa são dias de jejum e abstinência.

 

Ora, se a Igreja preceitua abster-se de carne e jejuar, na Sexta-Feira; logo, não jejuar e comer carne são pecados contra o preceito da Igreja. Ora, sendo a Igreja o Corpo de Cristo, descumprir uma norma sua é descumprir uma norma de Cristo e, portanto, pecado. Logo, sabendo que comer carne e não jejuar são infrações à norma da Igreja, comer carne e não jejuar é descumprir uma norma de Crsito e, portanto, cometer pecado. Assim, na Sexta-Feira Santa, todo aquele que não jejua e todo aquele que come carne comete pecado.

Considerando que o inverso de jejum é a comilança e de não comer carne é comer carne, qualquer um que coma carne e qualquer um que enverede pela comilança, na Sexta-Feira Santa, faz o oposto do que a fé, genuinamente, cristã preceitua. Sendo a Igreja o Corpo de Cristo, a desobediência a ela é desobediência a Cristo. Logo, percebe-se que comilança em dia de Sexta-Feira Santa é, não apenas um ato de ignorar o que a Igreja preceitua, mas uma afronta. Sim, uma afronta, um desrespeito, um desdém ao significado da Sexta-Feira Santa. Que tal refletir um pouco mais sobre o que se passa na Sexta-Feira Santa?

A Sexta-Feira Santa é o dia em que Jesus Se dá na cruz por amor a nós. É o dia em que Jesus sofreu os precedimentos de flagelação, de carregamento da cruz, de crucificação e morte. Por isso, o Corpo de Cristo, que é a Igreja, faz penitência.

 

Nós, cristãos, herdamos dos judeus a prática de fazer memória num sentido diferente de outras denominações religiosas. A memória que fazemos é uma atualização do mistério, o que não desconsidera a perfeição do acontecimento salvífico, mas também não relembra como um mero filme do passado, revive-se sob uma nova óptica, inspirada sob a luz do Evangelho! Desse modo, cientes da vitória sobre a cruz, olhamos para a cruz como instrumento de salvação. Por meio da cruz, Jesus nos salvou. Por meio das penitências quaresmais, preparamo-nos para a Páscoa. A Semana Santa é o tempo forte, onde intensificamos os exercícios espirituais de superação e conversão para chegarmos mais adequadamente ao principal dia da fé cristã, que é a Páscoa.

Por conseguinte, a Sexta-Feira Santa é o dia em que fazemos memória da crucificação e morte de Jesus. Ora, Jesus comeu a Santa Ceia na Quinta-Feira Santa e ficou sem comer todo o tempo subsequente até sua morte na cruz. Até mesmo a água que Ele pedira para beber chegara a ser negada e lhe deram vinagre. Nós cristãos, não desdenhamos disso, com comilança e bebidas; ao contrário, fazemos memória com penitências e abstinência de carne, com orações e silêncio, com moderações, aguardando que chegue o grande dia: a Páscoa da Ressurreição.

 

Jesus morreu pelos nossos pecados. Não farreamos diante do sofrimento d’Ele. Ao contrário, penitenciamos para nos oferecermos menos pecadores, mais convertidos, cristificados, santificados. Com Ele nos penitenciamos para com Ele comemorarmos a vitória sobre a morte. Na sexta-feira, penitenciamo-nos; no Domingo, comemoraremos a ressurreição, a Páscoa do Senhor.

Que Deus nos ajude a vivermos uma boa Semana Santa, preparando-nos para uma vivência abençoada da Páscoa!

Que Nossa Senhora nos ajude como ajudou ao discípulo amado a permanecer junto da cruz! Só quem estava com Maria conseguiu permanecer fiel a Jesus, acompanhando-o até a morte. Dai-nos, Senhor, a graça de permanecermos com a Mãezinha e com Cristo por todo o sempre na Terra para convosco estarmos por toda a Vida Eterna! Amém.

A todos uma cristificante Semana Santa!

Maceió, 27 de março de 2018.

Alisson Francisco Rodrigues Barreto1

 

1Alisson Francisco Rodrigues Barreto é poeta, filósofo, bacharel em Direito, pós-graduado. Seminarista, cursando Teologia no Seminário Arquidiocesano de Maceió. Autor do livro Pensando com Poesia (disponível em clubedeautores.com.br e americanas.com), bem como do blog A Palavra em palavras (disponível em TribunaHoje.com, desde 2011).