Ailton Villanova

21 de março de 2018

PREVISÃO COMPROMETIDA

   Com a proximidade do inverno, índios da tribo Oiaeuaqui, que habitam as profundezas amazônicas, procuraram o cacique Calcitran, cheios de preocupação.

– Dá licença, chefe? – disse um deles.

E o chefe, dando uma baforada no cachimbo fedorento que pendia da boca:

– Quê quié c’ocês qué?

– Nóis qué sabê se vamos de tê um inverno rigoroso…

O cacique jamais aprendera prever o tempo com seus ancestrais, mas não podia dar mancada. Tinha que mostrar segurança para os subalternos. Então, ele fez uma encenação: espiou para o céu, estendeu as mãos para sentir os ventos e, em tom firme mandou ver:

 

– Hmmmmm… O inverno vai sê munto forte! É bom vocêis culhê mais lenha…!

 

No outro dia, preocupado com o “chute”, cacique Calcitran pegou o celular, ligou para o Serviço Nacional de Meteorologia e ouviu a resposta:

 

– Sim, o inverno estre ano vai ser muito frio!

 

Sentindo-se mais seguro, o cacique voltou  a falar com seu povo:

 

– Ocêis pode recolhê mais lenha… o inverno vai sê rigoroso!

 

Dois dias depois, Calcitran ligou novamente para o SNM e ouviu a confirmação:

 

– Sim, o inverno este ano vai ser bastante frio!

 

Mais uma vez o cacique falou pro povo indígena:

 

– Pode isperá um frio terríve neste inverno. Arrecôiam todo pedaço de lenha qui incrontá. Pegue os graveto todo!

 

Uma semana depois, não satisfeito, ele ligou mais uma vez para a meteorologia:

 

– Ocêis tem certeza mêrmo qui o inverno vai sê munto gelado?

– Claro! Temos certeza absoluta!

– Mas cuma ocêis pode de tê tanta certeza assim?

– É que este ano os índios da tribo Oiaueaqui estão recolhendo a lenha todinha da floresta amazônica!

 

Acidente doméstico

      O Aderbal Jacintho chegou ao hospital com um braço quebrado. Depois de uma rápida examinada no membro do infeliz, o médico Pery Óstio quis saber:

– Como foi que aconteceu isso, rapaz?

– Ah, doutor! Eu e minha namorada estávamos indo devagar. Em dado momento, comecei a acelerar, acelerar, até que tive que parar bruscamente para evitar uma criança…

– Sei. Ao tentar evitar a criança, você bateu o carro, não foi?

– Não, doutor. Eu caí do sofá!

 

Anão safadinho

O sujeito cruzou com uma colega de trabalho, muito da boa, no corredor da repartição. Muito do safado, tirou uma onda: “Huuummm… que cabelinho cheiroooso!” Imediatamente, ela procurou o chefe da repartição, acusando o colega de assediador sexual.

E o chefe:

– Mas Maria Arquibalda, qual o problema um colega de trabalho lhe dizer que o seu cabelo cheira bem?

A moça respondeu:

– É que ele é anão, chefe!

 

Se couber…

Sujeito bom, trabalhador, eficiente mesmo, era o Botelho. Infelizmente, ele morreu de repente. Um infarto fulminante permitiu-lhe esticar as canelas, ligeirinho.

No velório, todos os colegas presentes. O chefão, doutor Obdúlio, também estava lá, juntinho do caixão. Em dado momento, chegou um funcionário, auxiliar mais imediato do pranteado, e falou para o chefão:

– Doutor Obdúlio, será que eu posso ocupar o lugar dele?

O diretor olhou para o ambicioso e respondeu:

– Acho que pode. Mas talvez você fique um pouco apartado ali dentro.

 

Ele não falou?

Indivíduo simplório, entretanto bastante sincero, às vezes complicado, Leovegildo Matos encontrava-se sendo entrevistado pelo diretor de RH de uma empresa de prestação de serviços. Era candidato ao emprego de vigilante.

– Profissão do seu pai…   – pediu o entrevistador.

– Meu pai morreu! – respondeu Leovegildo.

– Sim, mas o que ele fazia?

– Estava doente dos pulmões.

– Não estou perguntando que doença ele tinha. Estou perguntando como vivia.

– Vivia tossindo muito!

– Mas disso não se pode viver!.

– Pois é. Eu não disse que ele morreu?

 

Azar do Valdemar

Ao tentar atravessa a Via Expressa, o distinto Valdemar Lázaro foi atropelado por uma jamanta e teve de baixar no Pronto Socorro com múltiplas fraturas – as duas pernas tinham sido praticamente trituradas, as costelas estavam um bagaço, os braços idem. Em resumo, estava entre a vida e a morte.

Todavia, dada a competência dos cirurgiões do nosocômio, Valdemar conseguiu sobreviver. Dois anos depois de padecer em cima de um leito, com emendas, soldas e parafusos por todo o corpo, ele estava recebendo alta, quando, de repente, uma enfermeira azucrinada entrou no quarto, de olhos esbugalhados e aos berros:

– Socorro! O hospital está pegando fogo! Salve-se quem puder!

Incentivado pela enfermeira, Valdemar Lázaro pulou da janela do quarto andar. Ao cair estatelado no asfalto, foi esmagado por um ônibus que passava na rua.

A vida do Valdemar poderia ter sido salva novamente, se a enfermeira não fosse tão precipitada e não houvesse confundido a fumarada do charuto de um visitante, com a fumaça de um incêndio.