Ailton Villanova

2 de março de 2018

Até Deus eles passaram pra trás!

       Num dia lindo de verão, solzão de derreter até miolo cerebral, eis que surgiu  diante do baixinho Noé, sacrificado servidor público, a forma exterior do Senhor dos Universos, que anunciou:

– Dentro de seis meses farei chover ininterruptamente, durante quarenta dias e quarenta noites, até que o Brasil seja coberto pelas águas…

– Pô, Senhor! Radical demais! – protestou o baixinho.

– Você ainda não viu nada, Noé. Os maus serão destruídos, mas eu quero salvar os justos e um casal de cada espécie animal. Vá e construa uma arca de madeira, tal como fez o seu xará naquele tempo…

– Que jeito, né, Senhor?

No prazo fixado, os trovões deram o aviso e os relâmpagos cruzaram o céu. Noé chorava ajoelhado no quintal de casa, quando ouviu novamente a voz do Senhor soar algo contrariada:

– Cadê a arca, Noé?

– Perdoe-me, Senhor! – suplicou o servidor público.

– Você não fez nada do que me prometeu, Noé!

– Fiz o que pude, Senhor! Mas encontrei dificuldades imensas… Primeiro, tentei obter uma licença da prefeitura, mas para isto, além das taxas para obter o alvará, me pediram ainda uma contribuição para certa campanha política…

– Propina, hein? Que mais?

– Precisando de dinheiro, fui aos bancos e não consegui empréstimo, mesmo aceitando as absurdas taxas de juros…

– Isso não é desculpa Noé. Que mais?

– O Corpo de Bombeiros exigiu um sistema de prevenção de incêndios, mas consegui contornar, subornando um rapaz de lá…

– Que mais?

– Começaram os problemas com o Ibama para a extração da madeira. Eu disse que eram ordens Suas, mas eles só queriam saber se eu tinha um “Projeto de Reflorestamento”, e um tal de “Plano de Manejo”. Nesse meio tempo eles descobriram também uns casais de animais guardados no meu quintal. Além da pesada multa que me ameaçaram aplicar, os fiscais falaram em “prisão inafiançável” e eu tive de matar um deles, porque para esse crime a pena é mais branda. Quando eu resolvi começar a obra, na raça, apareceu o Crea e me multou porque eu não tinha um engenheiro naval responsável pela construção da arca.

– Que mais?

– Aí, apareceu o sindicato exigindo que eu contratasse seus marceneiros com garantia de emprego por um ano. Em seguida, veio a Receita Federal falando em “sinais exteriores de riqueza” e me lascou uma multa…

– Que mais?

– Finalmente, quando a Secretaria do Meio Ambiente pediu o relatório de impacto ambiental sobre a zona a ser inundada, mostrei o mapa do Brasil. Aí, quiseram me internar num hospital psiquiátrico. Sorte que o SUS estava com o seu pessoal todo em greve.

Noé terminou o relato chorando, mas notou que o céu clareou e ele então perguntou:

– Senhor, então não vai mais destruir o Brasil?

A voz tronitoante respondeu:

– Não! Pelo que ouvi de você, cheguei tarde demais. Os políticos já se encarregaram de fazer isso por mim!

 

Parar ou diminuir, a diferença

Sujeito boçal, Algeróbio Pinho sempre pretendeu ser o que a folhinha não marca. Só ele é o bacana. Só ele é quem sabe das coisas. Se pudesse, só iria à praia, tomar banho de mar, vestido de paletó e gravata. O cara é tão estúpido, que nas noites chuvosas e escuras que nem breu, usa óculos escuro.

Depois de muitos anos cursando inúmeras faculdades de direito, conseguiu, finalmente, concluir o curso. Não foi fácil graduar-se, mas se considera um jurista.

Um dia, Algeróbio dirigia distraído seu carrinho quando, numa placa indicativa de PARE, passou direto. Perto, havia uma viatura policial, cujos ocupantes correram atrás e determinaram que ele parasse.

– Boa tarde, senhor… – falou um dos guardas – Documentos, por favor…

E o imbecil, todo cheio de direito:

– Posso saber por quê, seu guarda?

– O senhor não parou no sinal de PARE, alí atrás… – explicou o guarda.

– Eu diminui a marcha mas, como não vinha ninguém…

– Documentos, por favor.  – insistiu o guarda – A habilitação também.

E o boçal, querendo mostrar sapiência:

– Você sabe qual é a diferença jurídica entre diminuir e parar?

O guarda respondeu:

– Elementar, senhor. A diferença é que, segundo a lei, num sinal de PARE o motorista deve parar imediatamente. Documento e habilitação, vamos!

– Ouça, policial… Eu sou “adêvogado” e sei de suas limitações na interpretação das leis. De modo que lhe proponho o seguinte… se você souber me explicara diferença entre diminuir e parar, eu dou os meus documentos e você pode me multar à vontade. D contrário eu vou embora sem multa.

– Tá bom. Aceito. Pode fazer o favor de sair do carro, senhor “advogado”?

Algeróbio desceu e então o policial e seu parceiro baixaram o cacete no boçal. Porrada pra tudo quando foi lado, até que ele pediu arrego:

– Socorro! Chega, pelo amor de Deus!

Ao que o policial perguntou:

– Quer que a gente PARE ou só DIMINUA?

 

   Com Diego Villanova