Ailton Villanova

28 de fevereiro de 2018

Contaminado pelo nome

Cidadão honesto e trabalhador, o sertanejo Eutrópio Messias de Abreu era um homem crédulo e até certo ponto ingênuo. Um dia ele teve um sonho diferente daqueles que costumava ter e, por conta disso passou a viver tempos de aperreio. Quando não suportou mais essa carga pesada, resolveu consertar o erro “pra ver se as coisas melhoravam” e o sentimento de culpa que o perseguia sumisse de seu juízo.

Bela manhã quentíssima de verão, eis que seu Eutrópio embocou resoluto no cartório do registro civil de Santana do Ipanema e se dirigiu ao oficial respectivo:

– Seu dotô, eu vim lhe pidí um favorzinho pelamordedeus!

E o serventuário:

– Pois não. Fique à vontade. Do que se trata?

– Eu vim pidí a vossa incenlênça pra mudá o nome do meu fio Láu…

– Qual a justificativa, senhor?

– É qui ele, derna de piquinininho, quando foi arregistrado, o cartóro lá im Dois Riacho assentou-lhe o nome de Laudrônio… no papé e tudo o mais!

– Laudrônio?! Mas esse é um nome estranho! Estranho e comprometedor! Quem lhe deu a ideia de colocar esse nome no seu filho?

– Foi purcauso di um sonho, num sabe incelênça? Eu assonhei com o falecido pai-de-santo Zeca da Quelé e entonce ele me dixe assim: “Bota o nome de Laudrônio no seu fio qui vai nacê, qui ele vai têm munto dinhêro! Vosmicê vai vivê no meio dos dinhêro”… Agora, me arresponda, incelênça: quá é o pai qui num qué vê os fio rico? Entonce, num pensei duas vêis… Foi o bruguelo nacendo e eu butando o nome dele de Laudrônio!

– E o seu filho… ele ficou rico? Onde é que ele está?

– Num ficô rico e nem nada! Ele hoje tá na cadeia.

– Por quê ele está na cadeia?

– Pruquê virô ladrão, incelênça! Ele é assartante de banco, purcauso da infruênça do mardito nome!

 

Mulher folgada

A esposa do Felismino da Silva andava com a saúde um pouco abalada e ele a levou ao médico que atendia pacientes no posto municipal de Pariconha. O esculápio examinou a madame e quando acabou falou para o marido:

– Sua mulher está precisando consumir muita verdura, muito ferro e muito cálcio…

O matuto coçou a cabeça e respondeu:

– Mái dotô… vosmicê pode preguntá pra ela. Vê dura, ela sempre vê. Ferro, tomém tá levando toda hora. Agora, um “carcinho” era bom qui o sinhô mermo butasse, purque ela anda forgada dimais!

 

Susto radical

A gentil e zelosa servidora pública Maria Garibalda, entrou no gabinete do chefe com ar de preocupação:

– Doutor Galiano, temos aqui um servidor com uma crise danada de soluços! Devemos levá-lo ao hospital?

Prontamente, respondeu o chefe:

– Precisa não. Remédio pra soluço é susto! Dê um susto nele!

– Ah, tá bom. Digo que ele está demitido?

– Seja mais radical, minha filha. Diga que ele teve um aumento de salário!

 

Coração mais barato

Dona de casa exigente e bastante econômica, dona Bertilde foi ao açougue do velho Pompílio e indagou:

– Quanto está custando um quilo de carne?

E o açougueiro:

– Dez reais e oitenta centavos!

– Credo! Que roubo, seu Pompílio! O senhor não tem coração?

– Tenho sim, dona Bebé: custa sete reais e cinquenta…

 

Que jeito, né?

      Ao final de mais um dia de serviço e orações, duas freiras se despedem:

– Boa noite, irmã Lúcia! Durma com Deus…

E a religiosa:

– É o jeito, irmã Deolinda! É o jeito…

 

Complexo de inferioridade

O gerente de certa empresa privada reunira os funcionários para transmitir-lhes um comunicado nada agradável:

– Senhores, a situação aqui na firma anda meio complicada. De modo que tenho de avisar que vamos ter que demitir alguém!

Nisso, entra um negrinho baixinho, todo elegante que interfere na conversa:

– Já sei quem é que vai ser demitido. O escolhido vai ser um negro, não é? E esse negro sou eu!

E o gerente, todo encabulado:

– Mas doutor Benedito, o senhor é o dono da empresa!

 

Cabra inteligente

 

      Na sexta-feira, o barbeiro Olívio da Graça fechou o salão mais cedo  e desceu a Pitanguinha com destino a orla marítima da Pajuçara. Chegou lá, instalou-se numa mesa de bar e, entre um gole e outro de cerveja, consumiu o conteúdo de mais de meia-dúzia de garrafas.

Passava de uma hora da madrugada quando resolveu fazer o caminho de volta ao morro e se encaminhou ao ponto de taxis.

Ao transitar por um pedaço pouco iluminado, Olívio escutou um “psiu”. Espiou de lado e viu um sujeito fazendo sinas para que se aproximasse. Aí, ele chegou junto e o cara meteu-lhe um “berro” na cara:

– É um assalto, babaca! Passa a carteira!

Olivio entregou a carteira ao ladrão, este a abriu e reagiu puto da vida:

– Só três reais, bicho!!! Tu é um lascado mesmo, hein?

E o barbeiro, todo vaidoso:

– Lascadão o quê? Pensa que eu sou otário, pra andar por aí com a carteira cheia de dinheiro? A grana alta eu guardo é aqui na meia, ó!

Olivio da Graça voltou pra casa a pé. Chegou de manhã cheio de calos nos pés.

 

Com Diego Villanova