Ailton Villanova

21 de fevereiro de 2018

… E viva o churrasqueiro!

A sogra do Pedro Alcoforado, dona Sinfrônia Batista, não o suportava, por um motivo plausível: ele nunca foi visto sóbrio. Pelo menos por ela.

Troviscado contumaz, Alcoforado colecionava medalhas de “honra ao mérito” dado o fato de haver se tornado o “Ébrio Brasileiro da Década”, tendo iniciado a façanha nos anos 50, logrando repeti-la nos decênios seguintes até chegar ao período convencional de 90. Sua meta seguinte: sagrar-se campeão mundial da biritagem.

– Estou a caminho disso! – discursou outro dia durante uma farra no Bar do Galileu.

Por enquanto, ele continua aguardando o diploma de campeão dos anos 2.000.

Dizem os seus amigos que ele só é eficiente quando está chapado. Por isso, só chega ao trabalho mais bêbado que gambá (mas será que gambá bebe mesmo?). Ninguém sabe explicar, nem ele próprio, como conseguiu conseguir concluir o curso de engenharia civil na universidade federal com notas altíssimas.

– Ele é o maior fenômeno da natureza; é um mistério insondável da criação! – garantiu, certa feita, numa mesa de bar, o professor Filipeudo Barreto.

Apesar de biriteiro inveterado, sua bela esposa Magdaleuza, o adora. Para ela, é Deus no céu e ele na Terra. No dia em que ela contraiu núpcias com o Alcoforado, sua mãe teve o primeiro infarto. Escapou de morrer, mas ficou em cima deste mundo a custa de 10 pontes de safena e doses cavalares de pesadíssimos medicamentos para o coração.

Dona Sinfronésia conseguiu escapar desse primeiro infarto, mas do segundo não. Seu coração estava maltratado demais, dada a angústia que  lhe consumia por ter um genro que só vivia xumbergado. Ela não suportava nem olhar para o sujeito e o seu segundo e definitivo infarto ocorreu, justo, no dia do seu aniversário. É que, num surto de amabilidade e com a justificativa de apresentar-lhe seus “sinceros parabéns”, o genro aplicou-lhe um beijo na bochecha.

Aquele beijo babado, cheirando a álcool, foi demais para a velhota. Ao recebê-lo, ela caiu estrebuchando e de canelas esticadas.

Assim que constatou a morte da mãe, Magdaleuza avisou ao marido:

– Amor, maínha não vai ser enterrada. Ela vai ser cremada. Era o seu desejo!

E Assim foi. Depois da cerimônia de cremação da inditosa, que ocorreu no Recife, parentes e amigos se reuniram em torno da urna contendo as cinzas. Conforme é típico nessas ocasiões, algumas pessoas discursaram enaltecendo a figura da pranteada. Quando a falação estava chegando ao fim, alguém se lembrou de conceder a palavra ao genro, que já havia tomado todas.

Alcoforado subiu numa cadeira e lascou lá:

– Amigosss… não podemos, também, deixar de homenagear uma pessoa muito importante no dia de hoje. Uma salva de palmas para o churrasqueiro!

 

Confusão no fórum

Doutor Elmano Tibúrcio, insigne juiz de direito que durante décadas pontificou no interior de Pernambuco, principalmente em Águas Belas, foi um homem justo e sensível, além de liberal. Mas, um dia, não conseguiu conter-se diante de uma discussão pesada, desrespeitosa, despropositada, entre promotor e advogado, durante uma audiência.

Em dado momento do acalorado debate entre os dois citados, eis que o advogado, de dedo em riste, sapecou:

– Senhor promotor, vossa excelência não passa de um filho da puta!

A réplica veio na hora:

– Filho da puta é vossa excelência, senhor advogado. Aliás, o maior filho da puta desta comarca!

Foi aí que o magistrado resolveu intervir no bate boca:

– Senhores! Senhores! Estão esquecendo que eu também estou aqui?

 

Enfim, a iniciativa!

Bastante pragmático, doutor Epitélio Carposo vivia cobrando dos outros, principalmente de subalternos, decisões rápidas, práticas, objetivas. Costumava sempre pregar:

– O homem não deve vacilar. Ele tem que ter iniciativas rápidas. O mundo não pode parar!

Formado em Odontologia, Economia, Administração de Empresas e Direito, ultimamente vivia doido com suas múltiplas ocupações, apesar de sua praticidade toda. Mal dormia em casa.

Um dia, ele chamou a empregada Hermengarda e passou-lhe um sermão:

– Minha filha, você está muito devagar no serviço! Ontem, deixei uma caixa de roupas sujas para você lavar, e a caixa ainda continua no mesmo lugar! O que foi que houve, garota?

– Muito selviço, dotô. Ôtra coiza: num posso mexê nas coiza desta casa sem arturização do sinhô!

– Não precisa. Isso não é desculpa para sua vagareza. Você tem que ter iniciativa, Hermengarda! Iniciativa, está me ouvindo?

– Tô, simsinhô!

Doutor Carposo tinha adoração por pássaros. Em casa, mantinha uma coleção caríssima de canários belgas, canários do reino, curiós, papa-capins, papagaios, galos-de-campina… Tinha até araponga, adquirida na Amazônia. Tudo autorizado pelo Ibama.

Carposo gastava incontáveis horas cuidando dos seus pássaros de estimação. Adorava acordar de manhã cedinho, escutando o cantos dos venerados bichinhos.

Bela manhã, ele acordou um pouco tarde, coisa de 7 horas, e não escutou a cantoria dos pássaros. Pulou da cama, correu para a área reservada a eles e quase teve um infarto quando reparou que todas as gaiolas estavam vazias e com suas portinholas escancaradas. Dos pássaros, sinal nenhum. Aí, foi à loucura:

– Hermengaaarrrda!

– Sinhô?

– Quem foi que deixou as portas das gaiolas dos meus pássaros abertas?

– Foi eu, dotô. O sinhô num véve dizendo qui eu devo de tê iniciativa? Pois, entonce, abri as porta das gaiola pra intrá um tiquinho de ar pros bichinhos!

 

Com Diego Villanova