Ailton Villanova

17 de janeiro de 2018

Cangaceiro, caçador e abusado

      Quando o bando do capitão Virgulino Ferreira, o indefectível Lampião, foi dizimado, sobraram nas caatingas de Alagoas e de Sergipe alguns cangaceiros, entre esses um certo Agripino Domingos, também chamado Agripão ou Domingão. Ele era um caboclo grandalhão, cabelos escorridos, pele acobreada e muito valente. Descendia de índios.

      Acabado definitivamente o cangaço, Agripão passou a viver num baixadão das lonjuras de Santana do Ipanema, onde o mato era rasteiro e muito seco. No seu pedaço de terra, que chamava de sítio, ele criava bodes e carneiros, que davam pratos saborosos nos bares e restaurantes do Alto Sertão.

       Um detalhe nessa narrativa: Agripão ficou cego dos dois olhos numa refrega havida entre o bando de Lampião e a volante do famosíssimo coronel PM Optato Gueiros, no interior de Pernambuco.

       Continuando a história.

        Numa certa manhã, velhos amigos de Agripão pegaram ele e levaram a uma feira em Arapiraca, que era bastante animada por bandas de forró e onde não faltavam a cachaça, o vinho de jurubeba e o licor de jenipapo. As mulheres com seus vestidos floridos e rendados, davam o ar de sua graça. Agripão não as enxergava, mas se encantava com o som de suas vozes.

         Óculos escuros escanchados no pau da venta, Agripão confundia-se no meio do povo, que nem notava a sua cegueira. Sabedor que o ex-cangaceiro era um exímio atirador, um dos amigos que o levara àquela local festivo orientou-o até a barraca de diversões, cuja atração era o tiro ao alvo. Agripão encostou no balcão e pediu à mocinha que atendia a freguesia:

      – Ô essa minina, me veja aí uma espingarda…

      A moça lhe passou uma espingarda de pressão e o velho cangaceiro depois de apoiar o arco do gatilho numa banda da cara, pediu que a atendente lhe indicasse a direção dos alvos. A garota deu-lhe as coordenadas e ele chamou o dedo no gatilho – tebei, tebei, tebei, tebei… Cada tiro ele derrubava um alvo.

       – O senhor acertou todos os tiros! – admirou-se e moça.

       – Oxente, e era pra errá?

       – Bem… não… – titubeou a garota – Nesse caso, tome o seu brinde. É uma boneca muito linda!

       A veia do pescoço do cangaceiro entumeceu da raiva que dele se apossou:

       – Mai uquié isso, dona moça? Tá querendo mi dismoralizá? Eu sô é hômi!

       – Calma, moço! Desculpe! Pegue outro prêmio!

       E deu pro cabrão uma tartaruguinha tracajá. Ele ficou satisfeito e foi embora.

       Agripino Domingos gostou tanto da festa que no outro dia estava de volta:

       – Me dá ôtra ispingarda, minina!

       Ela deu, ele fez mira e… tebei, tebei, tebei, tebei…

       – O senhor acertou todas novamente! Mas como não gosta de bonecas, me diga o que quer levar de brinde?

       – Ah, me dá um sanduíche igual aquele de ônti!

Epa! Por aí, não!

      Cansado de ouvir as queixas da mulher, reclamando de dores no pé da barriga, o matuto Antimônio Paixão resolveu leva-la ao médico.

      – A senhora costuma urinar com abundância? – perguntou o doutor, enquanto a examinava.

      A matuta, que não tinha a menor ideia do significado do verbo urinar, permaneceu calada.

      – A senhora urina com abundância? – repetiu o médico, num tom de voz mais alto.

      A mulher continuou calada.

      – Uquié qui o dotô tá querendo sabe? – indagou o marido.

      – Eu quero saber se sua mulher mija com abundância!

      – Não, seu dotô. Minha mulé é normá! Ela mija cum a xoxotância mermo. Cum a bunda ela só fáis cocô!

Velho treloso demais!

     Contam antigos viventes dos tempos de infância do vetusto Asclepíades Lourenço, também conhecido como Pipiu, que ele sempre foi muito treloso. Não aprendeu a ler direito porque optou por viver esquipando nas campinas de Atalaia e Viçosa, traçando tudo quanto era fêmea em disponibilidade, sem distinção de raça, cor e qualidade.

      Seu Pipiu era o cão chupando manga à meia-noite, no Varrela. Precocemente, virou adolescente – isso pelos 9 anos de idade.  Testemunha desse fenômeno foi o seu primo Astrogildo, que morreu semana passada aos 109 anos de idade. Contava ele que Pipiu começou a criar barba e bigode mal chegou aos 11 anos.

      Encurtando a história, Pipiu jamais levou uma mulher ao altar, mas possuiu pra mais de duzentas. Foi um garanhão de primeira.

      Muitos anos se passaram e ele, beirando os 90, procurou o doutor Agapito Brás, clínico e pilhéria, o maior de toda a Zona da Mata e do Agreste alagoanos.

      – Dotô, eu tenho andado com umas dô no “negóço”, num sabe? – disse ele mal encarou o médico, em seu consultório.

      – Que “negócio”, seu Pipiu? – perguntou o médico.

      – Esse diacho… a bilunga!

      – Ah, bom. O senhor por acaso tem tido alguma relação sexual? – o médico indagou só por indagar.

      – Ôxi se tenho, dotô! Assim de cabeça eu num seio lhe dizê quantas…

      – O senhor não sabe contar?

      – Sabe, dotô, eu sô home de pôcas letra… só seio contá inté déis!

      – Nesse caso vou mudar minha pergunta: quantas relações sexuais o senhor teve ontem?

      – Agora vosmicê facilitô. Onti me acordei dimadrugada e dei “uma” cum a Margarida. De menhã, antes de tumá café, dei mais ôtra. Quando saí pra roça, mais ôtra. Lá pelas déis hora, a impregada foi levá a minha merenda e… tome pau!

      – O senhor deu mais uma com a emprega?!

      – Não, seu dotô. Eu dei trêis! Adispôis, antes do armoço, dei mais ôtra e tirei um cuchilo. Quando acordei, chamei na culé, dinôvo. Fui pra roça, vortei no finarzinho da tarde e dei ôtras trêis. Antes do jantá, pei, pei, pei…Aí fui drumi purcauso qui tava por dimais cansado, num sabe?

      – Não era pra menos! O senhor deu onze, não foi?

      – Si num sisquici arguma…

      – Então, aí está o problema. O seu pênis está dolorido porque o senhor anda fazendo sexo demais!

      E o velho matuto, suspirando:

      – Ai, qui alívio, dotô!

      – Alívio por quê?

      – Pruquê eu pensei qui fosse as “saliença” qui eu faço cum a mão quando tô sozinho na roça!

Com Diego Villanova