Ailton Villanova

28 de maio de 2017

Reagiu tarde demais!

      Hoje em dia, o sem-terra, sem-teto, sem-trabalho… enfim, sem-nada  José Galdino só é eficiente e competente num barato: tomar cachaça e promover arruaças, pelo interiorzão das Alagoas, macomunado com um monte de parceiros vagabundos. Um dia ele foi trabalhador. Nascido na Zona da Mata, foi cambiteiro, plantador de feijão, de macaxeira, de batata e de inhame.

      Com sua cabecinha de abóbora, barriga de calango e bigode de rato, “visitou” tudo quanto foi de delegacia do interior. E da capital, também. Num desses dias, e não faz muito tempo, ele baixou na Hospital de Pronto Socorro todo escatembado e com uma perna quebrada. O ortopedista de plantão, Luiz Fernando da Silva Barros, quis saber a origem do acidente que o vitimara:

      – Como foi que o senhor quebrou essa perna e arrumou tantos hematomas e equimoses pelo corpo?

       E o Zé Galdino:

       – Bem, doutor, tá com uma base de vinte anos, quando eu…

       E o doutor:

       – Peraí! Eu não estou pedindo que o senhor me conte a sua vida. Quero apenas que me diga como foi arrumou todas essas lesões e quebrou essa perna, para anotar aqui na sua ficha, só isso.

        E o cara, sem dar a menor bola para o que o médico havia pedido:

        – Cuma eu tava dizendo pro sinhô, tá c’uns  vinte anos,quieu trabaiava de bóia-fria numa fazenda. Na premêra noite, a impregada do fazendêro, uma morena munto bonita e reboculosa, intrô no meu quarto e preguntô se eu caricia de arguma coisa. Agradicí e dixe qui num caricia. Mas ele insistiu: “Tem certeza qui num hai nada qui eu possa fazê pur vosmicê? Entonce, eu arrepiti: “Não, munto agradecido”.

      E doutor Luiz Fernando, impaciente:

      – Eu não estou entendo o que esta história tem a ver com a sua perna quebrada!

      – Sabe, dotô? É qui hoje eu tava cunsertando o teiado da casa de um delegado, pra arrumá uma graninha, e foi então qui eu entendi uqui aquela morena tava querendo. Entonce, caí da escada!

 

Esperto e meio

      Quando era o titular da regional de polícia sediada em Arapiraca, o delegado Cícero Firmiano mandou chamar um certo Geremias, que estava sendo acusado de andar espalhando cartas anônimas pela cidade. O cara chegou lá, Firmiano exibiu uma das epístolas apócrifas e sapecou pra cima dele:

      – Andam escrevendo umas cartas anônimas para um monte de esposas traídas desta cidade e o principal suspeito é você! Conhece esta caligrafia?

      O acusado respondeu sem pestanejar, reparando no papel que a autoridade espertamente exibia a uns poucos metros de distância:

      – Cunheço não, seu dotô.

      – Pode jurar?

      – Pur tudo quanto hai de mais sagrado, dotô.

      O delegado riu, exibiu um ar vitorioso, aproximou-se do suspeito, quase esfregando o papel na sua venta:

       – Como é que daquela distância você pôde firmar que não reconhecia a caligrafia? Não dava pra ver direito!

        E o Geremias:

        – É qui num seio lê e nem iscrevê, num sabe, dotô?

 

Vacas especiais

      O distinto Plácido Parcimônio é chegado a um passeio de carro. Então, para melhor conforto nas suas rodadas por aí afora, ele comprou um carrão, desses que bebe um litro de gasolina a cada acelerada. De posse do veículo, ele afundou o pé na tábua.

      Então, desfilava o Plácido, todo fagueiro, por aquele estradão que corta o Alto Sertão quando avistou um homem simples do campo cuidando de umas vaquinhas, numa pequena fazenda. Manobrou o carro até lá, parou rente a cerca e chamou o matuto:

      – Moço, há muito tempo tenho vontade de entrar no ramo da pecuária… Importa-se se eu lhe fizer algumas perguntas?

      – Craro qui não, dotô. Possa fazê! – respondeu o sertanejo.

      Plácido mandou:

      – Suas vacas dão muito leite?

      – Vosmicê tá preguntando de quár? Das maiada ou das marrom?

      – As malhadas.

      – Ah, as maiada sim, dão munto leite. Cáje trêis bardo pur dia.

      – E as marrons?

      – Ah, as marrom tomém dão munto leite. Cáje trêis bardo pur dia.

      – E elas são mansas? É fácil lidar com elas? – Plácido tornou a perguntar.

      – Vosmicê tá preguntando de quár? Das maiada ou das marrom?

      – As marrons. – explicou o Plácido.

      – Ah, as marrom são mansinha. Meus fio inté brinca cum elas!

      – E as malhadas? – insistiu o Plácido.

      – As maiada é tudo inguáu, tudo mansinha. Meus fio inté brinca cum elas…

      – E essas vacas comem capim ou alguma ração especial? – a estas alturas Plácido Parcimônio já estava impaciente com maneirismo do matuto.

      – A ração? Bom, a ração é… Mas vosmicê qué sabê das maiada ou das marrom?

      – As malhadas…

      – Ah, as maiada só come capim. Eu sorto elas pelaí e nem me preocupo.

      – E as marrons?

      – As marrom a merma coisa. Sorto elas no pasto e elas come capim mermo.

      Já meio puto, Plácido Parcimônio foi adiante:

      – Escute aqui, meu amigo… por que toda indagação que lhe faço, o senhor me pergunta de volta se eu estou me referindo às marrons ou às malhadas?

      E o sertanejo, olho bem vivo:

      – É qui as marrom é minha, né dotô?

      – E as malhadas? – Plácido não conseguia esconder a sua ansiedade.

      – As maiadas tomem é minha, dotô!