Ailton Villanova

22 de fevereiro de 2017

Que secretário, que nada!

      Oficial do exército brasileiro, o pernambucano Fernando Carneiro Leão (hoje coronel R/1) era major quando assumiu o comando da Secretaria de Segurança Pública, a convite do então governador Afrânio Salgado Lages. Uma semana depois, fui nomeado seu oficial de gabinete. O ano era o de 1972. Uma das primeiras providências do novo secretário foi percorrer o estado inteiro, para verificar “in loco”, as condições físicas das delegacias de polícia. O contingente militar interiorano também era uma de suas preocupações. Minha tarefa era anotar as carências para a elaboração de relatório ao governador, o que foi feito em tempo hábil.

          Nessas andanças pelo interior de Alagoas constatamos que metade dos prédios que abrigavam repartições policiais estavam em petições de miséria. Até hoje, 50 anos depois, alguns deles permanecem do mesmo jeito.

           Numa dessas viagens baixamos em Porto Real do Colégio. A viatura que nos conduzia parou na porta da delegacia de polícia, cujo estado de conservação era crítico. Entremos lá, Carneiro Leão na frente. Aí, surgiu diante de nós um sujeito adiposo, bigode quilométrico, equilibrando um capacete da Polícia Militar do alto da cabeça redonda que nem uma pelota. Vestia uma calça amarrotada, amarronzada, e uma camiseta encardida, toda esburacada. A figura era ridícula. Além do capacete, a única coisa que poderia identificar o sujeito como militar era o desgastado e empoeirado par de coturnos que calçava. Ao nos avistar, ele abriu a boca e arrotou:

            – Quié qui vocêis qué?

            O secretário Carneiro Leão, que se achava à paisana, adiantou-se:

             – Bom dia! Eu sou o major do exército Carneiro Leão, secretário de Segurança Pública. E o senhor quem é?

             O gordão deu uma cusparada de lado e falou, cheio de autoridade:

              – Majó, é? Secretáro de Sigurança, é? Cadê a farda, majó?

             Vi o secretário avermelhar, mas se manter firme:

              – Não tenho satisfações a lhe dar, rapaz! Você o que é por aqui? Por acaso é o delegado?

              – Sub! Eu sô o sub-delegado!

              – Cadê o delegado?

              – Pra quê o sinhô qué sabe? O delegado num tá não! Óie! Vamo deixando de cunvelsa mole, que eu tô avexado pra pegá umas candunda na bêra do rio!

              Baixinho invocado, Carneiro Leão fez a única coisa que tinha de fazer naquele momento:

              – Você está preso! Recolha-se ao alojamento e fique aguardando a presença do delegado ou de um superior hierárquico seu!

              – Rá! Eu, preso? Tá cunvelsando merda, rapais! Agora vão saindo o senhor e sua cambada! Vâmo, vâmo, vâmo!

              Naquele ambiente encontravam-se, além do soldado adiposo, o secretário, eu e o motorista José Benedito, um negão corajoso e veloz que nem um bólido. Ao acusar a desfeita, o secretário olhou pra mim e eu dei um toque pro Biu. Ele se abufelou com o soldado, derrubou-o, eu caí em cima dos dois e me apossei da arma do militar, por medida de precaução.

                Fechamos a delegacia, trouxemos o soldado pirado para Maceió e o deixamos sob os cuidados do comando-geral de sua corporação, que nem sabia que ele existia. O coitado vivia isolado no município havia mais de 40 anos, entregue à sua própria sorte. 

 

Qualé, ô negão?     

          Nascido e criado no antigo distrito farolense da Pitanguinha, o negão José Messias, mais conhecido como Duda (o cantor Djavan jogou muita pelada com ele, no campinho da Vila Operária da Alexandria, bairro Farol), sempre foi metido a besta. Apesar de gostar de correr atrás de uma pelota, ele não tinha a menor intimidade com a referida. Perguntem a Djavan. A mentira do mundo inteiro rodou, rodou e parou na sua pessoa, dele, Duda.

           Desde que viu o Pelé em pessoa, aqui na Pajuçara (o leitor da minha época com certeza ainda está lembrado daquela memorável partida envolvendo o Santos e o CRB. O time do negrão venceu de 6×0), ele se tornou fã do cara.

             Os tempos passaram e eis que, um dia, Duda aterrissou São Paulo, acompanhando certo político alagoano, na qualidade de xeleléu. Bom de papo, entrosou um papo com uma camareira do hotel onde se achava hospedado e a levou à um restaurante badalado da Avenida Paulista, às custas do tal político. Assim que o casal colocou os pés no ambiente, a moça cochichou no ouvido do Duda: 

               – Nego, aguenta aí que eu vou ao toalete, fazer xixi…

              Enquanto a moça ia ao toalete, Duda passava a vista pelo ambiente. Aí, a grande surpresa: ocupando uma mesa, lá estava o seu grande ídolo, Pelé, acompanhado de uma loura sensacional. Duda não contou conversa: correu até a mesa do negrão e mandou o papo mentiroso:

               – Pelé, meu chapa… Me desculpe interrompê-lo, mas eu precisava cumprimentá-lo. Sou um deputado muito popular em Alagoas e seu maior fã!

                E o Pelé:

                – Obrigado, “entende”?

                – Não agradeça, Pelé. É uma obrigação minha.  Aliás, é obrigação de todo brasileiro ser seu fã. A propósito, estarei apresentando um projeto de lei na Assembleia, lhe concedendo o título de Cidadão Alagoano!

                 – Ora, você me deixa encabulado, “entende”?

                 – E você me deixa emocionado!

                 – Imagina. Não é pra tanto, “entende”?

                 – Escuta, meu ídolo, você me poderia quebrar um galho?

                 – Depende, “entende”?

                 – É o seguinte… Está aqui comigo uma garota que estou paquerando e eu gostaria de impressioná-la. Você se importaria de chegar até minha mesa e me cumprimentar dizendo: “Oi, Duda, que bom te encontrar, rapaz! Como é que tem passado?” Só isso!

                  – Sem problema, “entende”? Eu irei à sua mesa daqui a pouco, “entende”?

                  Duda sentou-se à mesa que lhe fora reservada pelo maître e, logo em seguida, a garota estava de volta. Cinco minutos depois, Pelé foi a mesa dele e falou, conforme o combinado:

                   – Oi Duda! Que bom te encontrar, rapaz! Como é que tem passado?

                   O crioulo olhou pro negão com cara de enfado e respondeu com desdém e cheio de boçalidade:

                    – Qualé, Pelé? Dá um tempo cara! Você não sai do meu pé! Te arranca daqui!