Ailton Villanova

18 de fevereiro de 2017

O Romeu e a Virgem

 A balzaquiana era dessas de arrepiar cabelo de estátua. Quarenta e poucos anos, pernas lindas, seios apetitosos, ancas arredondadas. Rosto de anjo.

     Marialba desfilava pela rua como se fosse a deusa das deusas. Aliás, ela não desfilava, deslizava. E o vizinho Romeu, coitado, consumindo-se de amor por ela. Suspirava fundo todas as vezes que a via.

      E Marialba, nem aí! Romeu sequer era notado por ela.

     Uma noite, loucão de amor, Romeu desesperou-se e mergulhou na birita. Quando estava que não se aguentava mais, decidiu “levantar ferros”, com um único pensamento na cachola embotada pelo álcool: Marialba.

       Tão ligado ele se achava na amada que, inexplicavelmente, encontrou-se parado diante da casa dela, pensando que era a sua. Com passos trôpegos aproximou-se da porta, girou a chave na fechadura, abriu-a e entrou. Dirigiu-se ao quarto de dormir e caiu na cama. Daí a pouco, foi sacudido por uma voz feminina:

         – Ei! O que é que você está fazendo aqui?

         – Estou querendo dormir, não tá vendo? – respondeu ele, mal abrindo os olhos.

         – Na minha cama?!

         – Que sua cama, que nada, mulher! Me deixe dormir, tá?

         Silêncio. Depois, a voz feminina, novamente:

         – Quem é você?

         – Que saco! Num tá vendo que sou o Romeu?

         – Que Romeu?

           – Romeu! Romeu, porra!

           – Saia já da minha cama! Se não sair, eu chamo a polícia!

           – Mas que diabo! Peraí que eu vou acabar com essa confusão.

           Juntando ação a palavra, Romeu levantou-se da cama, procurou o interruptor, acendeu a luz e deu de cara com a criatura que até segundos  atrás havia dividido a cama com ele. No que reconheceu a criatura, a boca secou, os olhos giraram nas órbitas, bateu aquela tontura e ele desmaiou. Quando acordou, só fez balbuciar:

              – Eu devo estar sonhando! Como foi que você veio para parar na minha cama?!

             E ela:

             – Eu lhe pergunto a mesma coisa.

             – Mas a cama é minha!

             – É? Olhe em redor. Repare direitinho no quarto.

             Romeu reparou e desmaiou novamente. Quando recuperou a memória, a gostosa estava com o nariz colado no seu. Novo desmaio. Acordou com novos solavancos da coroa.

               – Afinal, que homem é você?- ela reclamou.

               Romeu, então, resolveu mostrar que era homem de verdade. Misturou a fome com vontade de comer e abufelou-se com a divinal criatura dos seus sonhos. O dia amanheceu e eles continuavam abufelados.

                Numa única oportunidade que conseguiu falar, depois do abufelamento, Marialba comentou extasiada, embevecida:

                – Se eu soubesse que isso era tão bom, eu teria perdido a virgindade há mais tempo!

                E Romeu preferiu não perder tempo com palavras. Mudo, cumpria o seu papel de garanhão, matando a balzaca a pau.

Sem amigos

       Tremendo pilantra, bandidão de incontáveis infrações penais, “Biu Bacalhau” foi, finalmente, recolhido à cadeia pública. Certo dia, recebeu a visita de um grupo de evangélicos. Então, a jovem que liderava esse grupo começou a puxar conversa:

        – Faz muito tempo que o senhor está aqui?

        – Um tempão, moça.

        – E sua pena… é grande ou pequena? – insistiu a moça.

        – Razoável, razoável…

        – O senhor tem muitos amigos?

        – Bastante.

        – E eles sempre vêm visitá-lo?

        – Nunca, moça. Nunca!

        – Mas por quê?

        – Porque se vierem, a polícia não deixa mais eles saírem!

 

Racismo puro!

      Há muitos anos, existiu na região do Baixo São Francisco, um negrão que era médico e político. Tinha muita grana.

      Doutor José Benedito morava numa mansão cheia de luxos .

       Certa manhã, ao sair para o trabalho, Biu foi surpreendido com uma pichação no muro de sua mansão, recentemente pintada de branco:

        “Aqui mora um preto.”

        O doutor não se abalou. Mandou um dos seus empregados pichar embaixo da outra pichação:

        “Um preto que é rico”.

           No dia seguinte, apareceu uma terceira pichação:

           “Mas é preto!”

 

Um filho muito ma… bicha???!!!

         Dona Nemésia chegou pro marido Astolfo e falou, meio confidencialmente:

         – Tôta, o Tofinho está pretendendo usar brinco…

         – O quê?! Nosso filho está… o quêêê?

         – Eu falei que ele está querendo usar brinco!

         – Na orelha?

         – E onde ele mais poderia usar um brinco, homem de Deus?

         – Sei lá! Hoje estão usando brinco até na língua! Esse menino está querendo usar brinco, meeesmo?

          – Já falei!

          – Em qual das orelhas?

          – Como é que eu vou saber, Tôta? Orelha é orelha…

          – É, mas tem um probleminha aí.

          – Que probleminha, meu velho?

          – Esse problema de brinco é sintomático!

          – Não entendi.

          – Bom, dependendo da orelha, é sinal de viadagem.

          – Não fale assim do nosso filho. O Tofinho não é viado!

          – Eu não disse que ele é viado. Não complique, mulher!

          Silêncio no recinto. Depois de pensar alguns segundos, dona Nemésia perguntou ao marido:

              – Em que orelha é viadagem?

              – Acho que é a esquerda. Ou é a direita? Bom, agora me compliquei! Mas eu vou consultar o Parsifal.  

              – Quem é Parsifal?

              – É um amigo meu. Ele sabe tudo!

              – E ele entende também desse negócio de orelha?

              – Não. Ele entende de pirobice. Ele é psicólogo!

              Astolfo foi ao telefone, discou um número e ficou aguardando. Não demorou muito, ele falou?

               – Âlô? É o Parsi? Oi, cara! Aqui é o… ah, advinhou, não foi? Hã? O que é que eu mando? Bem, me responde uma pergunta, pra eu tirar uma dúvida… Pirobo usa brinco em qual orelha?

                – …

                – É o quê?

                – …

                – Não diga! No nariz? Espere aí um minutinho.       

                Nemésio tapou o bocal do fone com a mão, virou-se para a mulher e disse:

                 – O Parsifal está me dizendo aqui, que brinco no nariz é sinal de que a pessoa ainda não decidiu em que orelha deve pendurá-lo, entendeu?

                 E a mulher, inquieta:

                 – Mas… e a orelha?

                 O marido retomou a conversa com o amigo:

                 – Diz aí, Parsi:  cara é boiola quando usa brinco em qual orelha? Hein? Tem nada disso não? Ufa!

                 – …

                 – O quê? Ah, bom. Olha, brigadinho, viu? Você me tirou um peso dos ombros, sabe?

                 – …

                 – Não, não! É o meu filho Tofinho. Ele quer usar brinco. Hã? Pode mesmo?

                  – …

                  – No umbigo não? Só pode, né, Parsi? Brinco no umbigo só pode ser mesmo negócio de bicha. Rá, rá! A gente se vê. Tchau!

                  Mal o Astolfo colocou o telefone no gancho, eis que o filho querido adentrou a sala, todo feliz da vida. Levantou a camisa e mostrou a obra feita: um brinco de ouro pendurado no umbigo.