10 de fevereiro de 2017

Hope e os filhos da esperança

Um parente de um publicitário alagoano já falecido e bem influente no meio político e social de Alagoas recontou um fato contado por ele que me trouxe lembranças e me despertou para uma apuração aprofundada sobre um ato de solidariedade que talvez tenha contribuído para definir o significado de atenção a saúde na capital alagoana.

O suposto ocorrido foi o seguinte:

 Em 1973, o navio norte-americano Hope (esperança em inglês) atracou no Porto de Maceió. A embarcação na realidade era um hospital-escola e a tripulação composta por profissionais e estudantes da área de saúde dos Estados Unidos, entre eles, médicos, enfermeiros, anestesistas, fisioterapeutas, educadores e nutricionistas. Os olhos azuis, os cabelos loiros, a altura gigantesca dos jovens da América do Norte chamaram a atenção das senhoritas que compunham a chamada “alta sociedade alagoana”. No carnaval do mesmo ano, “os galegos e galegas” como eram apelidados foram os convidados de um dos clubes sociais da capital mais frequentado pelos endinheirados da época. Durante os três dias de folia, casais de jovens alagoanas e norte americanos se formaram, fato que resultou em gravidez indesejada e conhecida pouco meses depois do tríduo momesco. Para evitar escândalo na cidade, muitas jovens foram enviadas para casa de parentes no eixo sul sudeste do país. Se vivas, as pessoas estão na fase octagenária.

Não há como confirmar o fato, primeiro porque o contador da história já não está entre nós e segundo porque ainda era criança quando o navio Hope visitou Maceió. Como atento ouvinte de rádio e leitor de jornais (principais veículos de comunicação da época), lembro um pouco da repercussão sobre chegada da comitiva dos Estados Unidos a Alagoas junto à população e, por isso, resolvi apurar mais detalhes acerca dessa fase.

Graças a esse fenômeno da comunicação, chamada Internet consegui desvendar um pouco da trajetória de um casal de médicos, seus voluntários norte-americanos e sua saga para sair de Baltimore-EUA e chegar a Maceió. Pelos relatos obtidos, pude-se perceber que 44 anos depois, Maceió teve avanços significativos no que se refere ao urbanismo, saúde, educação, mas não o suficiente para sanar alguns daqueles problemas encontrados na ocasião pelo casal Martin e Lori Shearn, chefes da tripulação, além de filha Wendy como a escassez de profissionais de saúde, pacientes sem atendimento e o mais grave, falta de saneamento básico.

Em Maceió, a equipe do Hope atendeu a 1400 pacientes para tratamento nos 108 leitos do navio. Foram 1135 operações cirúrgicas que exigiram mais de 1350 horas nas três salas de operação disponíveis da embarcação estrangeira.

As deficiências começaram pela viagem de avião, do estado de Washington D. C, nos Estados Unidos até Maceió , enquanto o Hope partia de Baltimore em direção a Alagoas. Shearn contou que o voo seguiu para Nova Iorque de lá para o Rio de Janeiro. O calor opressivo, segundo ele, e a dificuldade de falar português foram os primeiros obstáculos ao chegar em terras brasileiras. Do Rio seguiram para Salvador, depois de longa espera por uma conexão. Na capital baiana,o desembarque ocorreu em um aeródromo para tomar um jatinho. Foi então que encontrou Petronia, uma alagoana que falava inglês e que ciceroneou o casal. Antes de chegar ao destino, duas paradas denunciavam as dificuldades da região nordestina ao pousar em uma pista rochosa com muita poeira. Já em solo alagoano, o casal foi saudado por crianças, cães e até bodes, segundo relatos de Shearn, em local que, provavelmente seria o antigo Aeroporto Campus dos Palmares na área reservada aos pequenos voos. Porém no saguão, havia médicos locais, autoridades e adeptos do projeto Hope (os hopies) e como era comum na ocasião, uma banda de fanfarra. No dia seguinte, em uma casa na praia de Pajuçara para acomodar a delegação, vários profissionais de saúde se ofereceram para ajudar os norte-americanos.

Esperança devolvida

Enquanto o casal Shearn e os demais profissionais realizavam atendimento médico e cirurgias, a filha Wendy cuidava das atividades de educação e lazer das crianças de comunidades pobres da cidade.

Quanto aos atendimentos médicos, os relatos são de histórias comoventes como a do pequeno Moisés, de 4 anos, o primeiro paciente do Hope, em Maceió e que tinha lábios leporino que obscureciam metade de seu rosto. A criança virou garoto-propaganda do projeto norte-americano por nunca parar de sorrir durante o atendimento e a foto dele foi estampada em todos os jornais o que resultou em uma corrida de pais com crianças para tratamento no navio-hospital.

Segundo Shearn, a operação foi bem-sucedida e, ao ser criado um novo rosto pelo Hope, os jovens pais não acreditavam na transformação feita pelos médicos ao ver o novo sorriso do filho sentado em uma cadeira de balanço.

Outro caso envolvente no Hope foi o do pequeno Manoel, de apenas nove meses. Os pais sabiam que o bebê estava doente sem saber as causas. Os médicos descobriram um tumor no cérebro e ele estava em coma, mas para Shearn havia uma esperança: se o tumor fosse benigno a remoção poderia salvar a criança. O exame constatou que era benigno, mas estava em uma região que podia afetar as funções cerebrais. Os genitores autorizam a cirurgia e permaneceram no navio durante todo o tempo do procedimento. A morte de Manoel, lenta e terrível, conta Shearn, abateu a todos os profissionais de saúde do navio. O abalo maior para todos foi saber que a família não tinha dinheiro para comprar o caixão que foi doado pelos funcionários do Hope.

O caso de Luíza de 12 anos também mereceu registrou especial nos relatos do casal de americanos. Ela foi levada ao Hope com um tumor do tamanho de uma bola de basquete no pescoço. “Quando Maria Luísa tinha três anos, um pequeno nódulo apareceu em seu pescoço. Nós fizemos um passeio de ônibus de quatro horas até Maceió e levei a um médico hospital. Os médicos disseram que era algum tipo de tumor e eles queriam fazer alguns testes com meu bebê “, contou a mãe d adolescente ao médico estrangeiro.

O problema é que depois de feita uma biópsia, o exame foi extraviado na unidade hospitalar e assim os médicos alagoanos não sabiam o que iriam fazer com a criança. A mãe retornou a casa e esperou que o próprio tumor se desmanchasse, mas ao contrário do que a mãe de Luíza previa o pequeno tumor deformou a face da menina. Essa história terminou com um final feliz e a protuberância que pesava 20 quilos foi retirada pelos cirurgiões do Hope e, no próprio navio, uma sessão de exercício no músculo do pescoço o fez ficar novamente reto para a alegria da família.

Na época, a pobreza era extrema em Maceió e em todo o Estado. Praticamente, 80% da capital não tinha água encanada nem tratada. Saneamento básico nem pensar. Segundo relatos anos depois de Lori Shearn, a esposa de Martin Shearn , não havia clínicas ambulatoriais e um imóvel abandonado e transformado em clínica pela equipe do Hope foi visto pelas comunidades como um milagre.

Ao descrever a sensação da visita, Martin Shearn disse que “as histórias de Maria Luísa, Moisés e Manuel ficaram comigo e sinto-me satisfeito por termos sido capazes de tocar as suas vidas, mesmo que os fins felizes fossem por vezes elusivos”.

Martin Stearn morreu em 2002 e e deixou o relatório da viagem a Maceió escrito na sede do Projeto Hope, nos Estados Unidos. A ação da equipe do Hope não se resumiu apenas a um conto de carnaval, mas deixou o legado que talvez tenha salvo uma geração de alagoanos que nunca ouviu falar dessa ação de solidariedade.

Na próxima postagem:  as condições sanitárias  de Maceió  durante o Projeto Hope