Ailton Villanova

6 de fevereiro de 2017

O presente

     Desligado ao extremo, o distinto Oberunálvio Caronte tem se esforçado bastante para ser um esposo de primeira. Apesar disso, de vez em quando pisa na bola. Dona Carótida, a digníssima esposa, já nem liga mais para as mancadas do cara, até porque também dá as suas.

       Sutileza não é o fraco do Oberunálvio. Sem querer ofender as pessoas das quais gosta e considera, há ocasiões que ele as decepciona com suas tiradas fora de propósito. Oberunálvio é uma figura. Se não existisse, Deus teria de inventá-lo.

         Há coisa de mês e meio, mais ou menos, dona Carótida fez aniversário. Oberunálvio entrou em casa todo lampeiro, riso largo na cara, abraçando uma caixa enorme:

         – Amor, aqui está o seu presente!

         E madame, emocionadíssima:

         – Oooohhh, meu filho… e precisava?

         – Claro que precisava! Eu quero que você bote ele na hora de cantar o “Parabéns”!

          – Ai, que felicidade! Brigadinha, amor. Mas, qual é a cor? Á verde? É azul?

          – Hummm… hummm…

          – É branco? É preto?

          – Hummm…

          – Amarelo? Ah, já sei! É cor de rosa!”

          E Oberunálvio, cheio de mistério:

           – A cor eu não lhe digo, certo?

          – Ah, Nalvinho… Assim não vale. Diz a cor, diz!

          – Deixa de ser agoniada, mulher. Vôte!

          – Você sabe que eu sou curiosa, não sabe?

          – Sei…

          – Pois, então…

          – Deixe chegar a hora.

           – Eu quero agora! Olha que eu abro a caixa! Vai, Nalvinho, diz a cor!

           Oberunálvio perdeu a paciência. Respirou fundo e com toda a sua sutiliza de hipopótamo, lascou lá:

           – Ô mulher, quer saber de uma coisa? É da cor do teu rabo, pronto!

           E ela, desapontada e chorosa:

           – Ah, meu amor… Roxo eu não gosto!

 

Dubinha, o sabichão

       Asdrúbal Ponte Neto, o Dubinha, vive se vangloriando de ser um sujeito muito inteligente, embora aos 35 aos de idade ainda não tenha co seguido concluir o curso fundamental, apesar de vir tentando desde os 10 anos.

        Cansada de querer coisa melhor para o amado rebento, dona Quininha, a mãe, chamou-o às falas:

         – Olha, meu filho, você precisa trabalhar. Não espere emprego de doutor!

         – Tá bom, mãe. Vou procurar emprego.

         Foi. Procurou uma empresa de segurança privada e perguntou ao gerente:

         – Por acaso estão precisando de funcionários?

         Estavam. De modo que ele foi imediatamente encaminhado ao setor de recursos humanos para submeter-se ao teste psicotécnico. O encarregado explicou:

          – Eu vou lhe fazer várias perguntas. Cada resposta certa que você der, vai somando pontos para o resultado final. Qualé o seu nome?

          E o Dubinha, feliz e contente:

          – Asdrubal de Pontes Neto. Rá, rááá…

          – Por que essa alegria toda, Asdrúbal?

          – É porque eu Já acertei a primeira!

 

Doença horoscópica

      Cidadão bem modesto e bastante trabalhador, seu Sebastião do Rosário deixou sua fazendinha em Ibategura aos cuidados de dona Januária, sua esposa, e veio à Maceió consultar-se com o doutor Artur Gomes Neto, na Santa Casa de Misericórdia. É que ele andava sentindo fortes dores no peito, nas costas e na barriga. Mal podia caminha, coitado. De modo que seu filho caçula, o Getúlio, veio com ele.

        Estirado na cama, o agricultor era examinado pelo médico, que só fazia perguntar: “Dói aqui?” Ele respondia: “Dói, sim sinhô”.

        Depois daí, o velho ficou internado, enquanto aguardava o resultado dos exames de laboratório. O médico explicou qual era a sua doença e mandou-o de voltar ao lar, onde ficaria recebendo medicação até nova consulta.

         Quando saía do hospital, seu Sebastião perguntou ao filho:

         – Ô Jitúlho, quár quié a duença qui o dotô dixe qui eu tenho? Parece quié negóço de signo, né? Acho quié capricóno… Não! É sagitáro…

         E o garoto:

         – Decora, pai! Ele falou câncer!

As últimas palavras do japa

      Sujeito de bom coração e espírito altamente solidário, o Cloribaldo foi visitar na UTI do Pronto Socorro, o vizinho japonês, vitima de grave acidente automobilístico. Chegou lá, encontrou o japa todo entubado, era tubo daqui, tudo dacolá, fios pra todo lado. Ficou ali, parado, na beira da cama, reparando pro nipônico, de olhinhos fechados, sereno, repousando com todos aqueles tubos.

olhos e gritou:

         – Sakaro aota nakami anyoba, sushi masuhuta!!!

         Dito isto, suspirou e morreu. As últimas palavras do japonês ficaram gravadas na cabeça do Coribaldo. Na missa de sétimo dia, ele procurou a mãe do finado para apresentar-lhe os pêsames:

          – Olha, dona Fumiko, o Sujiro, antes de morrer, me disse estas palavras: “Sakaro aota nakami anyoba, sushi mashuta!!!” O que isso quer dizer?

           Dona Sumiko olhou espantada para o Cloribaldo e traduziu:

           – “Tire o pé da mangueirinha de oxigênio, filho da puta!!!”

 

E empregada lusitana

      Dona Eribalda Carposo tinha um gatinho lindinho, todo fofinho, chamado Tim Maia. Era o amor da vida dela. Um dia, ao contratar uma nova empregada doméstica de origem portuguesa, ela fez a seguinte recomendação:

        – Manuela, quero que você cuide muito bem desse gato, está ouvindo?

        – Estou a ouvire, doutora.

        – A propósito, hoje é dia de ele ser lavado. Lave-o com cuidado e depois ponha talquinho e perfuminho, está bem?

         Dito isto, madame trocou de roupa e saiu para trabalhar. Horas mais tarde, de volta ao lar, a primeira coisa que fez foi abordar a empregada:

          – Manuela, lavaste bem o gato?

          – Lavei sim, doutora patroa!

          – Lavaste bem mesmo?

          – Muito bain, doutora patroa!

          – E cadê o gato?

          – Ele murreu!

          – Ai, meu Deus! Morreu como, Manuela? Desde quando banho mata?

          – Ao banho ele resistiu, doutora patroa… O problema foi na hora de torcer…