Ailton Villanova

2 de fevereiro de 2017

A peruca do finado

      Vaidoso desde que se entendeu de gente, o bancário Eudrábio Pacheco teve um grande orgulho na vida: a lustrosa e bem adubada cabeleira, que era adornada por um pimpão equilibrado na proa da cabeça. Complementava-a uma grossa costeleta que descia até a curva do queixo. Mas, um dia, para seu desespero, aquele mundaréu de cabelo à lá Elvis Presley, desapareceu do mapa, quer dizer, do casco de sua cabeça, como num passe de mágica, consequência de uma rara moléstia intitulada carecarum striculizarum aeronanos capilospio zeradum. Então, para suprir essa falta, Pacheco deu um pulinho até o Recife, onde, por indicação do publicitário e apresentador de Tv Canetinha, mandou fazer uma peruca no capricho. A dita cuja era tão perfeita, que na cabeça do Pacheco parecia ser cabelo de verdade. Para completar a autencidade, tinha até caspa.

       E Eudrábio Pacheco voltou a desfilar, todo ancho, com a nova e reluzente cabeleira.

       Um dia, esse distinto cidadão entendeu de morrer subitamente, quando escutava, pelo rádio, uma partida de futebol entre o seu querido CSA e o seu tradicional adversário CRB. O time azulino estava perdendo de 4×0 quando ele começou a passar mal. Esticou definitivamente as canelas, infartado, ao escutar o narrador Arivaldo Maia gritar: “Goooollll… do CRB! 5×0!”

        Pacheco era bastante querido. A clientela do banco onde trabalhava, o adorava. De  modo que, durante o velório, as pessoas encheram a capela do cemitério. Elas iam chegando e passando a mão na testa dele. De tanto a turma alisar sua cabeça, a peruca foi escorregando de lado e ficou quase caindo. Preocupada, a viúva mandou chamar o barbeiro Ananias. Quando ele chegou, ela apelou:

        – Por favor, seu Nane, ajeite a cabeça do meu Eudrábio. O pessoal está desmanchando o penteado dele. O senhor sabe que essa peruca era o seu orgulho. Ninguém sabe que ele era careca e não vamos deixar que descubram, justamente agora!

         E o barbeiro – que havia saído de uma farra havia pouco tempo, e, portanto, ainda biritado -, respondeu:

        – Pode deixar comigo, madame. Vou dar a maior caprichada!

        Aproveitando uma brecha no velório, o barbeiro Ananias pegou o defunto com caixão e tudo e levou para uma dependência da capela do cemitério. Num instante arrumou a peruca do Pacheco, que não saiu mais do lugar.

         Sepultado o inditoso, a viúva bastante agradecida, procurou o Ananias:

         – Muito obrigada, seu Nane. Quanto lhe devo pelo trabalho de ter ajeitado a peruca do meu Eudrábio?

         – Ora, mas o que é isso, madame? Nem pense numa coisa dessa!

         – Mas o senhor teve tanto trabalho! Eu faço questão de pagar!

         – Bem, se a senhora faz tanta questão assim, então me pague somente a caixa preguinhos que eu comprei pra fazer o serviço!

 

E tudo terminou em tragédia!

      Quando o donzelo Gerúndio começou a namorar a virgem Anabela, ele a chamava de “Amorzinho”. Pequena, linda e ela retribuía o tratamento intitulando o amado de “Amorzão” Noivaram e passaram a se amar ainda mais. Deixaram, então, de ser “Amorzinho” e “Amorzão”. Tratavam- se, então, de  “Mozinho” e “Mozão”. Onde quer que parassem, fosse onde fossem, mãos dadas ou bicos colados, mandavam ver:

        – “Mozinho querido…”

        – “Mozão do meu coração…”

        O casal chamava a atenção de todos pelas demonstrações de amor e carinho. Todas as vezes que o marido queria se referir à cara-metade, ele começava:

         – “Pois meu Mozinho…”

         Anabela não ficava atrás:

         – “Imaginem que o meu Mozão…”

         O tempo passou, Gerúndio deixou de chamar Anabela de Mozinho. Se ela estivesse por perto, ou ao seu lado, e ele quisesse se referir à própria, dizia:

         – “A mulher aqui…”

        Ou, às vezes:

        – A “rádio-patroa”…

        Nunca mas “Mozinho”.

        Em contrapartida, ela atacava com ar de desprezo:

        – O “’digníssimo’” aí presente…”

        Ou:

        – “Esse sujeito com quem convivo…”

        Mais tarde, passaram, então, a ser rivais, iguais a torcedores de Flamengo e Vasco ou de Corinthians e Palmeiras.

         O tempo todo Gerúndio maltratava a mulher:

         – “A imbecil que eu tenho em casa…”

         Para Anabela, o marido não passava de um inimigo: 

         – “O canalha lá de casa…”

        Bom, o relacionamento entre os dois se tornou tão insuportável a ponto der Gerúndio partir para a agressão física, coisa que jamais alguém (e ele próprio) imaginou fosse capaz de praticá-la.

          Uma noite, Gerúndio estava entrando em casa, de volta do trabalho, quando, de um canto da sala, saltou Anabela com “quatro pedras na mão”:

          – Chegando agora, cafajeste? Pensa que eu sou alguma empregada? Faz cinco minutos que eu o espero pro jantar…

          – Esperou porque quis. Eu não lhe pedi! Pedí?

          – Claro que não pediu. Mas eu queria vê-lo morrer envenenado, seu filho da peste! Eu botei veneno na sua comida!

          – Botou, foi? Tentou me matar? Pois quem vai morrer é você!

          E Gerúndio fez menção de sacar uma suposta arma da pasta. A mulher atirou primeiro. O tiro atingiu o marido no meio da testa.

          Anabela, em seguida, fez um novo disparo. Dessa vez no próprio ouvido.

N.A.: – Qualquer semelhança com caso e situações verdadeiros, não é mera coincidência, porque este caso aconteceu mesmo, aqui em Maceió. Só que com a substituição de nomes verdadeiros por fictícios.