Ailton Villanova

1 de fevereiro de 2017

Era disso que ela precisava!

      Mal o Alofreudo assentou o solado do primeiro pezão dentro de casa, dona Auritânia anunciou:

       – Tá tudo arrumado!

       – “Tudo arrumado” o quê?

       – Seus picuás! Olha lá a sua pilha de roupas, seus livros e tudo o mais. O que é meu vai continuar neste apartamento!

        – Tá bom, tá certo. – conformou-se  Alofreudo.

        – E não vai reclamar nada? Nadinha?

        – Reclamar do quê, mulher? Tá tudo certo. Pego as minhas coisas, faço meia-volta e vou-me embora!

        – Pra onde, posso saber?

        – Sei lá! Vou pegar um hotel… Talvez volte pra casa da mamãe…

        – Com aqueles seus sobrinhos danados, morando lá?

        – Nesse caso eu pego um hotelzinho…

        – Tá vendo? Era isso mesmo que você queria. Um hotelzinho, hein? Vá ver que é um daqueles cheios de raparigas.

        – Não inventa, mulher!

        –  Safado! Cretino! Canalha!

        – Tá bom. Sou tudo isso.

        – Não vai reparar se tá faltando algum coisa na sua pilha?

        – Precisa não, Taninha.

        – Taninha???!!! Há quanto tempo você não me chama de Taninha?

        – Sei lá!

        – Já sei! Tem outra Taninha na sua vida. Fala a verdade, Freudinho!

        – Huuummm… Freudinho, é? Você nunca me tratou por Freudinho. Qualé a sua?

        – Frescura minha.

        – Frescura, hein? Olha, vamos fazer o seguinte… Eu mando alguém do escritório apanhar as minhas coisas.

          – Ah, não! Comigo  não tem essa de portador, meu amor. Ou leva, ou deixa!

        – Tá certo. Eu levo, pronto!

        Dito isto, Alofreudo colocou sobre o sofá a pasta que segurava. Tirou o paletó, a frouxou o nó da gravata e dispôs-se a retirar os seus pertences que se achavam amontoados num canto da sala. Aí, a mulher acudiu:

         – Vai descer com tudo isso, sozinho?

         – Vou levando aos poucos.

         – Não quer ajuda?

         – Bom… se você não se importa…

         – Favor se faz até a um cachorro, né?

         – É verdade.

         – Vamos?

         – Vamos!

         Foram. Fizeram mais de dez viagens do alto do 7° andar do edifício onde moravam, até o térreo. Estavam exaustos, quando terminaram a empreitada. Aí, Auritânia respirou fundo e disse:

          – Nós éramos tão felizes…

          – Hum… hum…

          – Freudinho…

         -Hein?

         – Vamos voltar com tudo pra cima?

         – Vamos.

         – Pô, rapaz! Você concorda com tudo! Não discute e nem nada! Faça alguma coisa, seu frouxo!

          Ele fez. Acertou-lhe uma porrada no meio da cara. Em seguida, obrigou-a a subir de volta, e sozinha, os sete andares, com todos os seus (dele) pertences nas costas. Finalizou, sapecando-lhe uma surra daquelas que não se aplica nem num hipopótamo.

          Era disso que Auritânia estava precisando.

 

Traindo aos poucos

      Na maior cara de pau, o safadão ao Astrobaldo vivia traindo dona Gerúndia, a caríssima consorte. Um belo dia a madame não suportando mais tanta chifrança, chamou o cara para uma conversa séria:

       – Olhe aqui, seu Astrolábio… da próxima vez que me trair, você vai ver!

       – O que é que você pretende fazer?

       – Vou pedir o djvórcio!

       – Só isso?

       – Não. Vou pedir também uma pensão altíssima!

       Aí, Astrolábio frocou:

       – Tá certo, minha filha. Precisa se aperrear não. Eu vou deixar de lhe cornear, certo?

       – Quero ver.

       Mas, qual o quê! Mulherengo incorrigível, Astrolábio foi flagrado no maior sarro com uma anãzinha, lá pelas bandas do Pontal da Barra. Ligeirinho, alojaram a fofoca no ouvido de dona Gerúndia, que o pegou de jeito:

        – Cachorro! Safado! Canalha! Ontem, você me prometeu que não mais me trairia!

        E ele, tentando se justificar:

        – Peraí, minha filha! O vício a gente vai deixando aos poucos!

 

Outro tipo de filé

      Madame finíssima, dona Beroalda enviuvou cedo. Do seu casamento com o guarda-livros (contabilista, pra quem não sabe) Sinvocaldo Malaquias nasceu o garoto que, na pia batismal, ganhou o nome de Marcelino, o qual foi criado com todos os mimos.

      Preguiçoso e cheio de direitos, esse Marcelino só conseguiu terminar o curso primário por puro milagre. Entretanto, tinha tudo o que um jovem de classe média sempre desejou. Até automóvel.

       Ao falecer, Sinvocaldo deixou para a viúva e filho uma baita pensão, além de alguns imóveis, cujos aluguéis rendiam uma grana segura.

       Marcelino estava, então, com 25 anos de idade quando pegou uma gripe lascada. Espichado na cama, era paparicado pela mãe:

       – Coitado do meu filhinho! Tão depauperadinho!

       E ele, cheio de frescura:

       – Será que eu escapo dessa, mainha?

       – Vira essa boca pra lá, meninio! Você precisa é de ser alimentar. O médico disse que gripe a gente cura comendo bem.

       – Então, eu quero um filé bem gostoso.

       – Tá bom, meu amor… Tá certo!  Vou pedir a Benedita que lhe prepare o melhor filé do mundo.

       A cozinheira preparou cinco filés, cada um mais gostoso que o outro, e o filho da mãe rejeitou todos. Preocupada, dona Beroalda foi falar com o filho:

        – Ô meu lindinho, o que é que está acontecendo? A Benedita me disse que fez o seu filé de várias maneiras e você não quis comer!

        O cara explicou:

        – É simples, mainha. A Biu que é burra, não me entendeu. Eu pedi um filé alto, aberto no meio, vermelho por dentro e preto por fora!

        Aí, a mãe não se conteve:

        – Ah, meu filho… desse jeito você não quer um filé. Você quer é uma xoxota!