Ailton Villanova

26 de janeiro de 2017

Que nem um ovo frito

 Grande marido, o Dráuzio Pereira. Sua excelentíssima esposa, dona Dionísia, é pelo menos 20 anos mais velha que ele. Mas esse detalhe nunca foi motivo para arrefecer o seu amor e entusiasmo por ela. Num dia destes a madame fez aniversário e o maridão começou a percorrer o comércio à procura de um presente para a amada. Depois de ter gastado meio dia em andanças e não encontrado nada que lhe agradasse, ocorreu-lhe, finalmente, a ideia de pedir uma sugestão a quem entende do riscado e entrou numa loja, dirigindo-se a uma das balconistas:

       – Moça, por favor, me dê uma ajuda para a compra de um presente…

       – A pessoa a quem o senhor vai presentear… quem é? – indagou a  balconista.

       – Minha esposa! – respondeu o cara, todo orgulhoso.

       – Que tal um sutiã de langerie? É a onda feminina do momento!

       – Grande ideia! Vou querer um! – decidiu o marido.

       – Qual o número?

       – Ah, o número! Puxa vida, não sei o número!

       – Não tem problema. Como o senhor está acostumado com sua esposa, certamente deve saber avaliar o tamanho do busto dela.

       – Bom, isso é verdade. Mas como é que eu vou explicar para a senhorita?

        A balconista dispôs-se auxiliá-lo mais ainda:

        – É do tamanho de um mamão?

        – Não, não! Mamão é imenso!

        – Então é do tamanho de uma manga, por exemplo.

        – Manga é grande!

        – É que nem uma laranja, então.

        – É grande, é grande!

        – Tá difícil, não é, moço? – rendeu-se a balconista.

        E o Dráuzio, agoniado, tentando ser mais colaborativo:

        – Espere aí…! Já sei! É do tamanho de um ovo!

        A balconista foi até o fundo da loja e logo voltou com um sutiã número 10, que apresentou ao freguês:

        – Este aqui é mais ou menos o tamanho que o senhor quer.

        Dráuzio fez uma careta e rebateu:

       – Esse sutiã ainda é grande para a minha esposa!

       – O senhor falou que era do tamanho de um ovo!

       – Mas um ovo frito, né?

 

Casamento molhado

      Antes de se transformar no delegado de polícia civil atuante e competente que foi até bem pouco tempo (hoje está aposentado), o colega Paulo Brás foi proprietário de caminhão e patrulheiro rodoviário federal. Na época em que mexia com veículos pesados, ele morava em Olho D’Água das Flores. Um dia, foi procurado por um certo Eustáquio Barbosa, comerciante na região:

       – Quero alugar o seu caminhão para a festa de casamento da minha filha Marieta. Além dela e do noivo, quero carregar meio mundo de gente… convidados, entende, seu Paulo?

       – Perfeitamente, seu Barbosa. É só dizer pra quando quer.

       O casório estava marcado para o sábado seguinte, às quatro da tarde, na igrejinha de Serrote Baixo. Em seguida, todos montariam no caminhão e rumariam para a propriedade do velho, onde ocorreria a grande festa. Mas esse sábado, foi um sábado de muita chuva.

        Às três e meia da tarde, o velho riscou na porta de Paulo Brás:

        – Vamos?

        – E vai ter casamento com essa chuvarada toda? – especulou Paulo Brás.

        E o velho Barbosa:

        – Num é um chuvisquinho safado desse que vai atrapalhar o casamento da minha filha. Bote logo o caminhão pra funcionar e largue de conversa, homem!

        Eustáquio Barbosa não queria? Então… lá se foram os dois – Paulo Brás ao volante e o fazendeiro do lado. A certa altura do caminho, justo na passagem do açude, o condutor parou o auto-carga e disse:

        – Daqui não passo!

        – Por que não passa? – invocou-se o velho Barbosa.

        – O senhor não está vendo que a água cobriu a estrada? Não dá pra passar!

        – Dá, sim! – teimou o velho. – Toque esse carro pra frente, rapaz!

        – Eu fico por aqui!

        – Eita cabra frouxo! Pois fique aqui, que eu vou a pé!

        Eustáquio Barbosa desceu do caminhão debaixo de chuva. Deu o primeiro passo, deu o segundo, o terceiro e… sluurrrp! Foi tragado pelas águas, todo engravatado e engomado. Quase morreu afogado. Só não morreu, porque Paulo Brás, bom nadador, o salvou.

          No meio da noite, cessado o aguaceiro, seu Eustáquio Barbosa chegou pro casamento da filha, todo molhado, enlameado e muito puto, encarapitado na carroceria do caminhão do Paulo Brás.

 

Nunca! Jamais!

      Viúvo, mulherengo, apegadíssimo ao dinheiro, o velho Herculano Pitombeira, proprietário rural em Ouro Branco, resolveu, um dia, curtir uma boemia na cidade de Maceió. Em assim sendo, banhou-se da cabeça aos pés com água de cheiro, passou o pente na rala cabeleira, vestiu seu “liforme” novo de linho branco, calçou sapatos duas cores (marrom e branco) lustrosos ao extremo, montou num ônibus e desembarcou todo lampeiro no bairro Jaraguá, onde cintilava a zona do meretrício, com suas putas sumariamente vestidas, ou quase nuas, à vista dos habituês dos lupanares…

      Sem perda de tempo, seu Herculano subiu os degraus da boate Nigth and Day e esbarrou na presença da gerente Maria Terta:

       – Me arruma aí uma mulé das boa, qui tope carqué parada!

       A cafetina não contou conversa e chamou logo a campeã das trepadas:

       – Vem cá, Magáu!

       Margarida atendeu prontamente ao chamado da puta-chefe, levou o cliente pro quarto e, não demorou nadinha, pulou fora, aos berros:

        – De jeito nenhum! Isso, não! O senhor tá maluco?

        Madame Terta ficou fula da vida. Nunca tinha acontecido uma coisa daquelas na casa de tolerância que tão habilmente gerenciava. Todo mundo sabia que na Nigth and Day a medida era toda e por que a Magáu achou de querer desmerecer o bom nome da boate? Terta mandou um recado para a colega, avisando que, a partir daquela data, ela estaria suspensa por cinco dias, “pela desfeita”. E pediu que o velhote aguardasse no quarto. Aí, mandou ao encontro dele a mulher Naná, “a Terrível”.

         Naná lançou um olhar superior para as demais, entrou no aposento onde se achava Herculano Pitombeira, pisando firme e de nariz empinado.

         Dois minutos depois, olha ela no esculacho:

         – Nunca! Jamais! Comigo, não! O senhor tá pensando o quê?

         A gerente caiu das nuvens. Imediatamente suspendeu Naná, também. E chamou mais uma:

         – Narcisa!

         A terceira convocada não agiu diferente das colegas anteriores e foi punida do mesmo modo. E Terta mandou outra, e mais outra, até que suspendeu o bordel inteiro. Por fim, não tendo mais mulher nenhuma para atender ao freguês, foi lá, ela mesma:

          – Muito bem. Aqui estou para manter a tradição da casa. O que o senhor quer?

          E seu Herculano Pitombeira, tranquilo e calmo:

          – Trepá de graça!