Ailton Villanova

25 de janeiro de 2017

Um mordomo eficiente

     Se existiu exemplo de indvíduo competente na sua profissão, esse foi o   pontagrossense Olegário Silvestre, mais conhecido como Mano. Hoje, ele goza de merecida aposentadoria. O seu último patrão, doutor Apolinário Malheiros, era um cearense muito exigente e um bocado recalcado por causa de um detalhezinho safado: ele não tinha pescoço.

        Solteirão e boêmio, esse doutor Apolinário Malheiros apreciava curtir noitadas na base do vinho e de mulheres, preferencialmente no antigo meretrício do Jaraguá. Certa feita, ele resolveu comparecer a um restaurante recém-inaugurado na zona portuária, acompanhado do fiel mordomo. Na hora da pedida, Mano sugeriu ao patrão a especialidade da casa: sopa de tartaruga.

       – Dizem que é uma delícia, doutor! – garantiu.

       – Tá bom. Vamos ver essa sopa.

       Meia hora depois de feito o pedido, nada da bendita sopa pintar no pedaço. E o doutor impaciente:

       – Ô Mano, será que mandaram buscar essa sopa na Alemanha?

       E este, igualmente ansioso:

       – Peraí, que eu vou à cozinha saber o porquê dessa demora!

       Olegário Silvestre correu até lá e deparou-se com o cozinheiro tentando abater a tartaruga, sem sucesso.

        – Ainda não conseguiu matá-la, rapaz? – perguntou ao cozinheiro.

        E ele, aperreado:

        – Olha, tá muito difícil! Toda vez que eu vou cortar o pescoço, ela enfia a cabeça pra dentro.

        – Deixa comigo! – disse o mordomo.

        Dito isto, Mano virou o quelônio de cabeça pra baixo e, em seguida, enfiou-lhe o dedo indicador no fiofó. Nesse momento, a tartaruga espichou o pescoço pra fora. Então, Mano aproveitou-se do momento e – zip! – cortou sua cabeça com a afiada faca que havia sobre o balcão.

        – Pronto! Serviço feito!

        O cozinheiro admirou-se:

        – Puxa, rapaz! Você deve ser um excelente cozinheiro! Conhece todas as técnicas, não?

        – Que nada!

        – Onde você aprendeu essa técnica de matar tartaruga?

        – Tá vendo aquele velhote alí, sem pescoço? É o meu patrão. Imagine como é que eu faço para colocar a gravata no pescoço dele…

 

Mas logo a boa!

      O velho Chiquinho Pinheiro, diabético do último grau, perdeu as duas pernas em operações cirúrgicas distintas. Mas, como não dispunha de grana para adquirir próteses modernas, foi forçado a mandar fazer duas canelas de madeira. Um dia, ao tentar atravessar a rua foi atropelado por um automóvel, e caiu gritando:

       – Ai, meu Deus! Logo a boa! Logo a boa!

       Um cidadão que passava apressou-se em socorrê-lo e percebeu que suas pernas eram de madeira.

       – Por que o senhor gritou “logo a boa!”, se as duas pernas são de pau?

       E seu Chiquinho, inconsolável:

       – É que quebrou justamente a de jacarandá!

 

A mulher do contra

     Preocupado com o seu futuro no ano de 2017, que estava prestes a pintar na parada, o colega Álvaro Cleto antecipou-se às costumeiras previsões de final de ano, e procurou uma certa Madame Tibúrcia Tibiriçá, cartomante cujo gabinete de trabalho ficava localizado no Farol. Madame jogou as cartas e o galego, ansioso, só de butuca nas ditas. Daí a pouco, a cartomante suspirou profundamente e mandou:

      – Seu Álvaro, as cartas estão mostrando que o senhor está a fim de uma morena muito bonita!

      – Hummm… Hummm… – ele riu, todo contente.

      – Mas também diz aqui que uma senhora que tem algo contra!

      E o galego:

      – Sei. É a minha mulher!  

 

Cocô é com ele mesmo!

      Certo político da capital pegou um estresse filho da mãe e, aí, correu pro médico, que foi logo avisando:

       – Você precisa de férias, deputado! De preferência no campo. Algum parente seu possui fazenda, sítio… ou algo parecido?

       – Tenho um sobrinho, que é dono de uma fazenda, na zona da Mata.

       – Pois, então, corra pra lá o mais depressa possível. Você não precisa de remédio. Precisa de repouso!

       Acolhendo a ideia do médico, o deputado tirou férias, mas nem precisava, porque mal comparecia à Assembleia Legislativa.

      Havia uma semana que o ilustre parlamentar encontrava-se de pernas pro ar, na fazenda do sobrinho quando, de repente, começou a se sentir cansado daquela boa vida e procurou o capataz:

       – Ô seu Antiógenes, será que o senhor poderia me arrumar um servicinho? Preciso me exercitar!

       – Qui selvicinho, dotô? O qui tem puraqui um selve pro sinhô, qui é home fino…

       – Eu preciso, entende?

       – Mas dotô, aqui só tem trabáio braçá!

       – Ótimo!

       – O sinhô qué assim mermo?

       – Claro que quero!

       Em assim sendo, Antiógenes pegou o político pelo braço e o levou a um terreno danado de grande, que acabara de ser limpo para plantio:

       – Oiaquí, seu dotô, se o sinhô quizé, pode ispaiá esse istêrco na terra.

       Num instante o cara fez o serviço. O capataz ficou impressionado com o que viu:

       – O sinhô tá qui nem o tar de supri-home, aquele do cinema!

       – Tem mais alguma coisa para eu fazer, seu Antiógenes?

       – Tem. Essa é mais facizinha. Tá vendo essas batata? Elas têm trêis tamanho deferente: piquininha, méida, e mais maió. Cum sua esperteza, dotô, o sinhô vai termina de separá elas num instantinho, possa crê!

        Horas mais tarde, quando o dia sumia na linha do horizonte Antiógenes voltou ao local onde havia deixado o político e o encontrou sentado no chão, pensativo, com uma batata na mão e nenhuma ainda separada.

        – Num tô intendendo nada, dotô! Cuma o sinhô pode sê tão isperto pra uma tarefa e tão lerdo pra outra?

        Ao que o político explicou:

        – É que espalhar merda é comigo mesmo, seu Antiógenes. Mas, tomar decisões…