Maternidade Colaborativa

25 de maio de 2016

Adoção: um gesto de amor que esbarra no preconceito

De acordo com os dados do Cadastro Nacional de Adoção (CNA) há no Brasil 6.319 crianças e adolescentes disponíveis para adoção e 34.624 candidatos a pais. São seis vezes mais pretendentes do que crianças a espera de adoção, mas essa equação não fecha. A preferência dos aspirantes a pais são por bebês ou crianças até 3 anos de idade, de cor branca, sexo feminino, sem irmãos, sem nenhuma doença ou deficiência física ou mental. A escolha é totalmente legitima, porém contrasta com a realidade dos abrigos.

Alagoas é um exemplo dessa disparidade. No CNA existem 45 crianças e adolescentes alagoanos cadastrados a espera de um lar e 278 candidatos a pais. O perfil buscado pelos inscritos é incompatível com a realidade das crianças que aguardam uma família. Segundo dados do CNA apenas, 3,6% das crianças estão na faixa etária mais procurada, até 3 anos. 88% se enquadram no perfil de adoção tardia (adoção acima dos 3 anos de idade), 67,5% são pardas ou negras, 21,5% das crianças tem algum problema de saúde, 36,82% tem pelo menos um irmão aguardando adoção e 77% tem mais de 10 anos. Ao terem suas expectativas frustradas muitos pais acabam desistindo da adoção.

Adotar é um ato de coragem, amor e responsabilidade pelo novo ser que entra na família e passa a fazer parte dela para sempre. Para a Relações Públicas Lívia Enders de Albuquerque, o encontro com sua família adotiva aconteceu há 23 anos. Ela nasceu prematura, aos sete meses e meio, no município de Cajueiro, Zona da Mata alagoana. Logo após o nascimento a mãe biológica decidiu entregar a filha para adoção. A mulher que já havia perdido dois filhos por conta da fome, não queria que a filha tivesse o mesmo destino. A recém-nascida foi entregue ao casal maceioense Pedro e Arlete Albuquerque, pais de Pedro Eduardo, Luís e Júlio, que sonhavam em ter uma menina.

A maternidade vai muito além de gestar e parir. Para tornar-se mãe, é preciso, acima de tudo, abrir o coração. E foi exatamente o que aconteceu na relação entre Arlete e Lívia. “A nossa relação foi tão intensa que minha mãe me amamentou com leite materno produzido de seu próprio seio. Meu irmão mais novo tinha 5 anos, não mamava mais há anos e ela voltou a produzir leite para me alimentar”. Relata a filha orgulhosa, que confessa não ter ressentimentos de seus progenitores ou curiosidade de conhecê-los.

Para alguns pais contar para o filho que ele é adotado é um momento de medo e apreensão, por não saber qual será a sua reação. Porém, a família da jovem sempre tratou o assunto com naturalidade e ela sempre soube que era filha do coração. “Desde pequena, minha mãe sempre me disse que eu tinha nascido do coração dela e não da “barriga” como todo mundo. Mas na época eu não conseguia entender como uma criança cabia no coração de uma mãe. Quando eu tinha cinco anos, ela me explicou”, conta Lívia.

Apesar de a família tratar o assunto com toda honestidade necessária, ainda assim, há percalços no caminho. Um deles é estar preparado para lidar com o preconceito. Por ser de raça diferente dos pais – Os pais e os irmãos adotivos são brancos, Lívia é parda –,a jovem foi vitima de preconceito por conta de sua cor e por ser adotada. Foi junto à família que ela encontrou forças para lidar, desde a infância, com todas essas questões, não se deixar abater e sempre falar de sua história com orgulho. “Eu sofri preconceito na família e na escola, quando era criança, entre 5 e 10 anos. Mas eu sempre tinha uma resposta para essas pessoas. Eu sempre dizia: “Eu sou feliz porque fui escolhida”. Eu nasci pra ser filha deles, não nasci da minha mãe, mas cheguei até eles. E sou extremamente grata a eles por tudo. Mesmo com todo preconceito existente na sociedade, em relação a índole da criança adotada, a cor, a criança adotada conviver com filhos biológicos, eles passaram por cima de tudo e todos por mim”, ressalta. Após a adoção de Lívia, sua família adotou mais uma menina. 

A afetividade nas famílias adotivas foi pesquisada pela psicóloga Lídia Weber, professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR). E trouxe informações surpreendentes.  De acordo com o estudo, os filhos adotivos demonstraram estarem mais felizes com os pais do que os filhos biológicos. A família por adoção parece que tem um valor maior para aquele filho. Os pais adotivos, tanto quanto os biológicos, também foram entrevistados. E novas surpresas apareceram. Os pais por adoção mostraram maior satisfação conjugal, maior resiliência – ou seja, maior capacidade de enfrentar a vida – e maior altruísmo.

Como adotar?

25 de maio é o dia nacional da adoção, uma data para lembrar aos brasileiros que milhares de crianças vivem em abrigos e lares a espera de um lar definitivo. A maioria dessas crianças e adolescentes foi vitimas de maus tratos e violência sexual e estão a espera de famílias substitutas dispostas a lhes oferecer o amor e carinho que não receberam. Em Alagoas elas se encontram em um dos 24 abrigos espalhados pelo estado, sendo nove na capital. Apesar da lentidão no processo de adoção, a fila andaria mais rápido se os candidatos a pais se despissem de preconceitos, crenças e medos, e estivessem mais abertos a pluralidade. Este ato irrestrito de amor deve estar livre de amarras. 

Para adotar, o interessado precisa ter mais de 18 anos, possuir estabilidade financeira e o estado civil não interfere no processo, mas é necessário que haja uma diferença minima de 16 anos entre os aspirantes a pais e a criança. Os interessados devem procurar a Vara da Infância munido de documentos e comprovante de residência e se candidatar. Serão feitas algumas avaliações, teste psicossocial, com entrevistas e visita domiciliar, feitas por equipes técnicas interprofissionais. Após o cadastro o candidato entra na fila de adoção e aguardará uma criança com o perfil desejado.

Alagoas foi o segundo estado do Brasil a realizar legalmente uma adoção homoafetiva, o primeiro foi São Paulo. A criança foi adotada pelo casal paulista Yvan Silva e Andrew Rodrigues, que residem há cinco anos em Maceió. A adoção aconteceu em 2013 por meio do Poder Judiciário de Alagoas e o menino, na época, tinha um ano e oito meses e estava no Lar de Amparo à Criança para Adoção (Lacca). Em 2015, foram realizadas 251 adoções em Alagoas.

 

 

Joelma Leite é mãe, jornalista, empreendedora, escritora de gaveta, acredita que visibilidade materna importa, adora boas histórias e compartilhar conhecimento.