Maternidade Colaborativa

20 de maio de 2016

O corpo no pós parto, a autoestima e os padrões estéticos

Quando a mulher descobre que está grávida, especialmente a primeira vez, a reação é de euforia e muita felicidade. Passado os primeiros momentos, a questão que volta e meia martela na cabeça de 09 entre 10 mulheres é: será que vou recuperar a forma rapidamente? Recentemente a foto de uma mãe da Nova Zelândia, Julie Bhosale, viralizou na internet. Na foto a nutricionista exibe com orgulho a barriga saliente e flácida algumas semanas após o parto. A coragem de Julie rendeu milhares de compartilhamentos em todo o mundo, de mulheres que assim como a neozelandesa, ainda não conseguiram recuperar o corpo que tinham antes da gestação.

Nessa história toda, Julie é regra e não exceção. Poucas mulheres conseguem recuperar as formas de antes da gravidez tão rapidamente. O corpo magro e a barriga trincada semanas após o parto, ostentado por atrizes e celebridades nas capas de revistas fazem parte da realidade de pouquíssimas mulheres. Essa recuperação veloz é um privilegio para as mulheres que já eram magras, praticantes de atividades físicas e predispostas a perder peso de forma mais rápida por conta do metabolismo acelerado e memória corporal. Aceitar nosso corpo quando ele está fora dos padrões é bastante difícil, principalmente depois de toda a transformação que a gravidez trás. E ser bombardeada por notícias de celebridades aparecendo um mês após o parto com um corpo de miss é simplesmente bizarro. Faz com que muitas mulheres tenham um sentimento horroroso de impotência e desânimo.

Mas, peraí amiga! A atriz magérrima que com um mês de pós-parto estampa a capa da revista tem todo um séquito de pessoas cuidando dela: personal trainer, esteticista, babá, segurança e o diabo a quatro. A maioria nem amamenta a cria que pariu, para que os seios não fiquem flácidos. Enquanto você mal tem hora pra comer, o seu maior sonho é dormir 4h seguidas em uma noite, o banho é de gato e o xixi é quando tem um tempinho. Amiga, seja solidária consigo mesma e não se cobre mais do que deveria, a sociedade já faz esse papel por você. A gravidez, lactação, e todas as fases do corpo feminino são não só importantes como belas, negá-las além de crueldade, é desperdício. A beleza natural deve ser valorizada mais do que o padrão de beleza imposto. Por que querer dar satisfação a uma sociedade que está mais preocupada com o seu percentual de gordura corporal, do que com você, seu filho, seu emocional e se vocês estão felizes, é burrice.

Esse tipo de cultura que coloca a aparência frente o bem estar do indivíduo é, no mínimo, nociva. Querer estipular para o outro como ele deve ser? Permita que cada pessoa seja como ela bem lhe convir e agradar. A mãe sarada é linda, que bom para ela! Daí a cobrar isso de todas as outras mulheres é desonesto. É preciso entender que outras mães, podem ter prioridades diferentes e não focarem tanta atenção à questão de ter um corpo escultural. Não deve haver opressão de lado algum, não é regra de que se deve ser sarada, nem o contrário disso. Temos que aprender a respeitar o outro no lugar sagrado da sua subjetividade. 

São muitos exemplos femininos considerados de sucesso a serem repensados. Nossas avós são de uma geração que a mulher tinha que ser do lar. Nossas mães fazem parte de uma geração que tinha sede de mostrar do que eram capazes no mercado de trabalho. Nós, somos o início de uma geração que tem que equilibrar esses dois lados. E acredito que os filhos dessas mães que buscam o equilíbrio entre trabalho e casa já irão fazer parte de uma nova geração mais sensata, respeitosa e equilibrada. Não busque se enquadrar em padrões estéticos onde é aceitável ser extremamente magra (mesmo que a custo de distúrbios alimentares), mas ser gordinha, mesmo que saudável, é repugnante. Sim, podemos ganhar peso com uma gravidez, mas também com diversos outros fatores. Triste é perceber nossa sociedade baseada em padrões que, de tão pobres, nem mesmo deveriam se sustentar. Se você quer que o seu filho valorize uma mulher pelos valores que ela tem e não pelos centímetros de cintura, comece você mudando a sua forma de pensar. A pior cobrança não vem da sociedade, mas de você para você mesma. Não seja sua pior inimiga, se colocando pra baixo, se comparando com outras mulheres. Nos cobramos sempre, queremos sempre atender e nos submeter às expectativas de todos. E as nossas? Quando iremos atendê-las? E nisso está mais do que toda a questão, está todo o nosso comportamento na vida.

Quando tive meu filho, há pouco mais de dois anos, me olhava todos os dias no espelho curiosa, me perguntando quando eu finalmente voltaria a ser quem eu era antes de engravidar, quando teria meu corpo de volta, quando poderia voltar a trabalhar como antes, quando voltaria a dormir… Até que um belo dia percebi que eu jamais voltaria a ser quem eu era, porque agora eu era outra pessoa, completamente diferente, nova, e que teria de me (re)conhecer, me (re)descobrir, me redefinir. Durante a gravidez passamos nove meses amando outra pessoa que está dentro da gente, e acabamos esquecendo de nos amar por inteira, com todos os nossos defeitos e qualidades. A gestação é como uma viagem de coração que a gente faz pra dentro da nossa barriga durante nove meses. E quando voltamos a casa está completamente diferente, revirada, reformada. E nós temos que descobrir cada canto novamente. Curta todas as experiências que esse nova vida tem a te oferecer, seja você mãe de bebê com quilos mais, em boa forma ou lutando para conquistá-la. Pois aquele clichê é a mais pura verdade, essa fase passa rápido. A vida é feita de ciclos, talvez tenha passado o ciclo gatinha-magrinha-novinha, mas vem o ciclo mãe-leoa, depois a mulher-loba, enfim, relaxe e curta o seu corpo poderoso, que gerou, gestou, pariu e hoje alimenta sua cria. Todas as novas marcas e experiências são resultado dessa nova mulher, é o registro de uma nova história, de uma nova vida, com muito mais amor, mais alegrias e uma vida mais colorida. 

 

Joelma Leite é mãe, jornalista, empreendedora, escritora de gaveta, acredita que visibilidade materna importa, adora boas histórias e compartilhar conhecimento.