Maternidade Colaborativa

17 de maio de 2016

O primeiro mês do bebê e a solidão materna

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Em algumas tribos africanas é tradição quando nasce um bebê que todas as mulheres da tribo se revezem nos cuidados com o recém nascido, com a casa e com a mãe, que nunca fica sozinha no primeiro mês de vida do filho. Na estrutura familiar de décadas passadas as mulheres da família se uniam para ajudar a mãe recém-parida nos cuidados com o bebê, assim era também com as demais crianças. Existia uma rede de apoio familiar onde todos se ajudavam. Os tempos mudaram, a vida mudou, a estrutura familiar também. Vivemos num ritmo intenso e cada vez mais individualistas. A imensa maioria das mães criam os filhos sem essa rede de apoio familiar. Essa nova conjunção afeta diretamente a mãe nos primeiros meses do bebê, contribuindo para um puerpério mais duro, baby blues, depressão pós parto ou somente a solidão de não ter com quem compartilhar emoções, sentimentos, inseguranças e dúvidas que a chegada de um filho trás.

Durante a gestação as mulheres são cercadas de carinho, atenção e cuidado, especialmente por parte da família. Porém, é também nesse período que a futura mamãe começa a conviver com os primeiros períodos de solidão materna. Após a euforia inicial que é o anuncio da gravidez, familiares e amigos voltam, novamente, à atenção para a própria vida, o que é comum. Alguns “amigos” somem sem motivo aparente. As desculpas são variadas: “a gestante não tem mais a mesma disposição para os programas”“os assuntos e a vida mudam com a gravidez”, “ela está gravida, então é melhor ficar em casa descansando”. Gravidez não é doença, mas ainda há quem trate como se fosse.

O filho nasce e a nova mamãe vê todas as atenções antes voltadas para ela, ficarem exclusivamente centradas no bebê. Na maioria das vezes, não há uma preocupação com o emocional da puérpera que acabou de passar pela maior transformação e experiência de sua vida e pode estar fragilizada. Todas as mulheres após o parto passam por um período de reclusão da sociedade, os primeiros dias com o bebê em casa é um momento de conhecimento entre mãe e filho, e reconhecimento da nova mulher que essa experiência tornou. Além desses fatores emocionais ainda há de se conviver com os primeiros cuidados com o bebê, a amamentação (que nem sempre é tranquila e serena como nos comerciais de tv), os cuidados com a casa, a falta de tempo para se cuidar, o tédio de olhar dias para as mesmas paredes e fazer as mesmas coisas. O marido, na maioria das vezes, está no trabalho e quando ele chega em casa, a mulher só deseja ter alguém com quem dividir um pouco do dia, alguém com quem possa ter um dialogo, já bastam as horas de monólogo com o bebê.

Os familiares que deveriam ser a fonte de acolhimento, muitas vezes, se tornam grandes inquisidores e palpiteiros. Todos parecem saber muito mais sobre o seu filho do que você, como se já não bastasse a sua autocobrança enquanto mãe. Me recordo que quando o meu filho nasceu eu não queria sair da maternidade e ir pra casa, queria ficar lá, tamanho o acolhimento, assistência e compreensão recebida, coisa que toda puérpera deve receber. A verdade é que sentia medo do que me esperava a partir dali e da responsabilidade que carregava nos braços. Eu já fui à amiga sem filhos e entendo o quão desinteressante pode ser ouvir sobre cólicas, amamentação, cansaço e choro. Mas, ver o monte de amigos que eu achava que tinha ser reduzido a um punhadinho onde sobram os dedos das mãos na contagem, é uma barra. Ser mãe nos torna menos interessantes?

A maternidade vai se mostrando o quanto ela pode ser solitária todas as vezes que o bebê deseja mamar e por mais exausta que você se encontre, você só pode atender o desejo dele. Nas madrugadas de amamentação em livre demanda, no acalento do choro que só passa ao receber o colo da mãe. A realidade que é ter que se colocar sempre em segundo plano e às vezes em que você tem que sair correndo de onde quer que esteja largando tudo para trás, para poder estar com a cria. Observar relatos dos familiares ou amigos realizando coisas interessantes, enquanto muitas vezes, você está em casa sentindo a sua vida em stand by. A solidão de quem não encontra quem a conforte em suas frustrações, frustração de não ter alcançado o nível de excelência na maternidade que você mesma determinou para si. Nesse turbilhão chegamos a duvidar da nossa capacidade enquanto mãe e das nossas escolhas. Duvidas inconfessáveis de idealizações que caem por terra nos apresentando frágeis.

E o que podemos fazer em meio a toda essa loucura? Pedir ajuda e apoio. Reativar em torno de você e do bebê essa rede de apoio que existia na estrutura familiar de antigamente. Tentar montar ao seu redor o mesmo costume da tribo africana com aqueles que você pode contar. Não tenha medo de demonstrar suas fraquezas, seus medos, suas dores, é isso que torna uma mãe mais forte. As pessoas não vão adivinhar as suas necessidades, portanto, fale. Se aproxime de pessoas que estejam vivendo (ou tenham passado) pelo mesmo momento que você. Desabafe, ter com quem conversar não vai resolver as noites mal dormidas ou o cansaço extremo, mas vai atenuar as dores emocionais e te fazer se sentir acolhida. Os primeiros meses de uma criança são os mais difíceis, mas essa fase passa. Não significa que você dormirá melhor, mas que vai se acostumar a dormir menos; não significa que suas unhas estarão sempre feitas e o cabelo arrumado, mas que você vai simplesmente passar a dar mais importância a outras coisas, mudança de prioridades. Aos poucos saímos do olho do furacão e passamos novamente a nos reconhecer como indivíduos. Maternidade não é apenas entrega, é abnegação. É esforço e amor maior. É linda, é deliciosa, é um viver constante no amor. Mas também é solidão. É uma busca pessoal sem fim. Ser mãe é se sentir muito pequena, muito comum. E ao mesmo tempo enorme por ser apenas um minúsculo elo desta gigantesca corrente.

 

 

Joelma Leite é mãe, jornalista, empreendedora, escritora de gaveta, acredita que visibilidade materna importa, adora boas histórias e compartilhar conhecimento.