Ailton Villanova

17 de maio de 2016

Homenagem arrepiante

 

     Natural de Capela, tradicional município da Zona da Mata alagoana, doutor Genésio Marques de Carvalho notabilzou-se na imprensa local como articulista e repórter. Durante muitos anos atuou também como cronista parlamentar, credenciado na Assembléia Legislativa e na Câmara Municipal de Maceió. Como articulista, assinou na Gazeta de Alagoas a coluna “Retratos da Província”. Foi um incondicional apreciador das vírgulas e na língua portuguesa era imbatível. No campo do Direito, colecionou grandes vitórias.

     Genésio Carvalho foi um baixinho autêntico, do tipo que não guardava para depois o que poderia ser dito e feito na hora.

      De sua honrada prole, pelo menos dois filhos – Geneildes e Geneir – e um neto, Geneir Jr -, seguiram-lhe os passos na advocacia.  Os demais, nenhum deles optou pelo jornalismo. Hoje, Geneir Jr. É juiz de Direito, na comarca de Capela.

     Algum tempo depois de falecido Genésio Carvalho mereceu uma homenagem “post mortem” da Polícia Militar de Alagoas, por sua atuação como jornalista: numa das unidades da corporação, instalaram uma sala destinada a imprensa, a qual deram o seu nome. No dia de sua inauguração, dezenas de convidados ilustres se fizeram presentes. Representando a família do homenageado, Geneildes (que à época atuava como procuradora do Tribunal de Contas), foi designada para descerrar o pano tricolor com as cores de Alagoas, que encobria o seu retrato, afixado na parede.

      Depois dos discursos, chegou a hora do descerramento da foto. Aquele clima de emoção. Aí doutora Geneíldes aproximou-se da fotografia do saudoso genitor e puxou o pano que a resguardava. No que puxou, desabou no pranto!

      Naquele instante, todos os presentes prorromperam na palma. O momento era de homenagem póstuma e os aplausos cabiam bem, principalmente por causa da incontida demonstração de saudade e… de tanto amor da querida filha.

      O leitor sabe como são as lágrimas. São contagiantes. De modo que elas foram substituídas por muito choro. Todo mundo caindo no pranto.

       E Geneildes, inconsolável. Ao seu lado, a colega e amiga Socorro Pinto tentava confortá-la:

       – Tenha calma, Gena! Controle-se! Está todo mundo chorando também… Snif… Snif… Buááá…

       Terminada a lacrimejante solenidade, e já a caminho de casa, a amiga Socorro observava:

       – A emoção foi forte demais, hein, amiga? Eu nunca lhe vi tão emocionada! Você deu a demonstração mais cabal de que amava demais o seu pai!

       E Geneildes, mais calma:

       – É claro que eu amava demais o meu pai! Mas o choro, Socorro, foi de revolta!

       – De revolta, Gena???!!!

       – De revolta, sim! Eu não me contive quando reparei que, na reprodução da fotografia do meu pai, deixaram ele com o cabelo todo arrepiado!

 

 

A “guerra mundial” do Ródio

 

     Amparado pela autoridade do delegado Antônio Carlos Azevêdo Lessa, o repórter Ródio Nogueira embarcou com o sobredito numa “canoa” policial ao interior do estado de Pernambuco. Ele queria ser o único jornalista especializado a registrar, “in loco” a captura de uma quadrilha de bandidos que andava infernizando os sertões alagoano e pernambucano. De quebra, ele levou consigo o fotógrafo Wilson Araújo, que é evangélico.

     A caravana comandada pelo delegado Antônio Carlos era composta de 20 policiais, todos armados até os dentes. Utilizando carros descaracterizados, autoridade policial e seus agentes embocaram no município pernambucano de Águas Belas, com o sol tinindo, e foram esbarrar 21 quilômetros adiante, no povoado de Santa Rosa, justo onde a quadrilha se achava homiziada.

     Aproveitando a sombra do muro do cemitério, Antônio Carlos reuniu os seus policiais e deu-lhes as dicas de como proceder no ataque de surpresa ao antro dos marginais.

     Escondido na viatura do delegado, o corajoso Ródio Nogueira assistia à mobilização dos agentes, com o coração aos pinotes. Não era de medo. Era de pavor, mesmo. Ao seu lado, o fotógrafo Wilson Araújo transpirava mais do que tampa de chaleira e o calor levava a culpa.

     Lá na rua, o delegado dava por terminada a preleção e, em seguida, emendava com a voz de comando:

     – Atenção, turma! Vamos ao ataque!

     Em menos de um minuto teve início o tiroteio. Era bala pra todo lado. Desesperado, Ródio Nogueira pulou da viatura e ficou que nem barata tonta, no meio do fogo cerrado:

     – Me acuda, meu padrinho Cícero!

     No outro lado da rua, agachado atrás de uma carroça, Wilson Araújo completou:

     – Alelúia, meu Cristo!

     De repente, silêncio total! É que os litigantes haviam aberto uma pausa para recarregarem suas respectivas armas. Ródio aproveitou o ensejo, marcou carreira e disparou rua afora, sem destino certo, até que meteu os peitos na porta de um templo evangélico que, estranhamente, naquela hora, realizava um culto.

      O pastor parou de fazer a oração e encarou o intruso:

      – O que é que está havendo, infiel?

     E o repórter, de olhos esbugalhados e tremendo mais que vara verde:

     – Começou a Terceira Guerra Mundial, pastor!

     Não ficou ninguém no templo!

 

 

A nota mais baixa

 

     O saudoso Edécio Lopes sempre gostou de dar oportunidade aos novos. Verdadeiro descobridor de talentos, ele lançou no rádio nordestino uma leva de locutores, narradores esportivos, atores, que ainda hoje brilham no Brasil, ou fazem falta aqui em casa.

     Um dia, na qualidade de diretor artístico da Rádio Progresso, ele recebeu em seu gabinete um sujeito todo enfatiotado, que falou com voz empostada:

      – Eu gostaria de ser locutor, seu Edelson!

      – Edécio! – consertou o próprio.

      – Ah, desculpe, seu Edilécio.

      Pra se ver livre do camarada, Edécio lhe deu a oportunidade de fazer o teste específico, que era o de locutor. Ao final deste, ele foi curto e grosso:

      – Não deu. Você tirou zero!

      – Zero?! Eu não acho que mereço uma nota zero, seu Ednelson!

      – Eu também não. Mas é a nota mais baixa que lhe posso dar!

 

 

Igual a Dominguinhos

 

     Outro saudoso e excepcional profissional do rádio: Sabino Romariz. Tal qual Edécio, sempre gostou de dar oportunidade a quem pretendeu ingressar na carreira artística.

      Uma época, Romariz diretor artístico da Difusora, foi procurado por uma senhora, na sua sala de trabalho. Esta lhe exibiu ,uma fita cassete e disse:

     – Gostaria que o senhor ouvisse essa gravação, que é do meu filho. Ele é um grande artista, seu Sabino!

     O diretor ligou o aparelho de som e botou a fita pra rodar. Ao final, exclamou:

      – Excelente! Seu filho é um grande sanfoneiro, minha senhora! Esse forró que acabamos de ouvir, só um cara pode executar igual: Dominguinhos!

      E a mulher:

      – Pois é ele mesmo! Ouvindo o Dominguinhos é a mesma coisa que estar ouvindo o meu filho. É igualzinho!