Rívison Batista

7 de abril de 2016

Divino Teatro

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Desde pequena, ela era educada rigidamente nos moldes cristãos. Aprendeu a fazer caridade e a ensinar o evangelho. Chegou aos 14 anos sabendo a maioria dos salmos. Ligava a televisão e via guerras no Oriente Médio. “Esse povo adora o deus errado, por isso sofre assim”, dizia, quase como um pensamento em voz alta. A mesada era comemorada sempre, mas dar o dízimo era obrigatório. Entregava seus 10% na igreja com alegria no rosto. Até que, um dia, voltando da escola para casa, foi abordada por um homem que usava um crucifixo de prata muito bonito. O homem mostrou um canivete para a menina e exigiu tudo. Tomou a mochila e o tênis de início. “Vai logo, pelo amor de Deus. O celular também, passa logo!”, dizia o ladrão olhando para todos os lados enquanto roubava. Ao pegar tudo da menina, ele beijou o crucifixo e saiu correndo. Chorando bastante, a adolescente sentou-se na calçada desesperada. Uma mãe de santo que morava perto viu a situação e acolheu a jovem para dentro de casa. Deu água à garota e a confortou. Olhando ao redor da residência, a menina via as mais diversas esculturas e pinturas de entidades de religiões de matriz africana. Achou diferente, mas não sentiu medo. “Ele era cristão como eu sou. Por que Deus permitiu que ele me assaltasse?”, perguntou a jovem para a mulher que a socorreu.

“Minha filha, está vendo todos esses deuses ao seu redor? Quando você entra na sua igreja, você observa as pessoas apertando um terço com vontade enquanto rezam? Pois bem, de nada valem essas imagens que você vê aqui ou as atitudes mais fervorosas de fé se você não é capaz de colocar um estranho na sua casa e lhe dar um copo d'água. O verdadeiro amor de deus está na bondade e atenção que você dá a alguém. No meu entendimento, se não for assim, a religião não passa de gestos e imagens”, falou a senhora negra, toda vestida de branco. “Se você apenas dá o pão a alguém, você é uma pessoa boa. Mas se você dá o pão e uma conversa, você muitas vezes salva a vida de alguém”, completou a senhora. Mais calma, a estudante se despediu e voltou para casa.

Antes de dormir, relembrou a conversa e viu que talvez tenha aprendido uma verdade: “Do que adianta sabermos todos os salmos bíblicos decorados de trás para frente se não temos a capacidade de socorrer de verdade algum desconhecido em um momento de aflição? Do que adianta dar dinheiro ao pastor se, às vezes, não matamos nem a sede de quem realmente precisa?”. E com essas ideias, percebeu o teatro que boa parte das pessoas do mundo estava inserida. Talvez um jogo de xadrez onde os reis eram poucos, e os peões, muitos. E quando assistia na TV homens se explodindo em nome de um deus, não falava mais que eles adoravam o deus errado. Falava simplesmente que eles não sabiam o que era amor.

 

*Rívison Batista é jornalista