Ailton Villanova

31 de março de 2016

O “Don Juan” atrapalhado

     Tímido de nascença, o distinto mancebo Aubergânio Tibiriçá caiu de amores pela donzela Zeronalda Reginalda, cujo corpo era de fechar comércio. Mas cadê coragem para se declarar à ela? Em razão disso, como sofria o coitado! Um dia, tomou um pileque e desabafou com o primo Melquizedéque, e ouviu deste um pragmático conselho:

     – É o seguinte, mano: tu chega perto dela e abre o coração, na base do romantismo, tá me compreendo?

     – Tô não!

     – Mulher gosta de elogio, meu caro. Chegue pra ela, faça uma pose de galã e dê o recado. Por exemplo: “Você é o sol que ilumina o meu dia…”

     – E se for de noite?

     – Você inventa outra frase, pô! Veja na sua cuca alguma que fale da lua, do mar… entendeu?

     Dias depois desse diálogo, eis que Aubergânio deu de cara com a sua amada num barzinho da orla de Pajuçara, com um grupo de amigas, saboreando uma cervejinha. Seu coração quase saltou pela boca, de tanto pinotear dentro do peito. A hora era aquela!

     Aubergânio ocupou uma mesa próxima e ficou aguardando o momento de abordar Zeronalda. Daí a pouco, ela se levantou, toda elegante, e dirigiu-se ao toalete. “É agora!” –  pensou ele, tomando o mesmo rumo da garota. Postou-se à porta do toalete e ficou aguardando a saída da mulher dos seus sonhos.

     Durante o tempo em que Zeronalda permaneceu no banheiro, o Aubergânio ficou arrumando na cachola algumas frases românticas para impressionar a garota. Uma delas: “Você é a luz que ilumina o meu escuro”, que ele elegeu como sendo a sua favorita.

     De repente, abriu-se a porta do toalete e surgiu diante do Aubergânio aquela criatura linda, rebolativa, provocativa. Diante de visão tão explendorosa, o cara   emocionou-se; passou-lhe um branco no juízo e ele esqueceu aquilo tudo o que havia reservado para recitar diante da mulher dos seus sonhos. Mas tinha que chamar a atenção dela.

      Zeronalda foi passando, exalando um perfume hipnotizador. Aubergânio não podia deixar passar aquela oportunidade. A única frase que lhe ocorreu pronunciar naquele momento foi a seguinte:

      – Você cagou ou mijou, minha querida?

 

 

Ainda rosetando

 

      Caboco abusado, Sebastião de Dondon entrou na cidade de Palmeira dos Indios dirigindo seu caminhão, carregado de couro de boi. Pendurada na traseira do autocarga uma tabuleta onde se lia: “Hoje eu quero é rosetar”. Ao reparar no escritado, o delegado da cidade, sargento PM Irineu (naquele tempo não existia delegado de carreira), que era evangélico, mandou o motorista brecar o carro, e deu o esbregue:

      – Que imoralidade é essa aí, seu cabra?

      – De qual imoralidade o senhor está falando? – quis saber o motorista.

      – Essa que tá escrita na carroceria. Apague essa merda, se não quiser dormir no xadrez!

      Dia seguinte Sebastião de Dondon passou de volta pela porta da delegacia. Na tabuleta, nova inscrição:

      “Eu apaguei, mas ainda estou querendo!”

 

 

Disfarçando

 

     A repórter de determinada emissora de televisão entrevistava pessoas na rua, a respeito de suas preferências.  Parou diante de um sujeito com cara de tarado, e perguntou:

     – Qual a coisa que você mais gosta?

     – Fiofó com leite condensado!

     – O que é isso, rapaz? – reagiu a jornalista – Seja mais discreto e educado. Nós estamos ao vivo!

     – Eu disfarcei, moça. Eu não gosto de leite condensado.

 

 

Sem papel

 

     Cambaleando e exalando um bafo equivalente a 10 barris de cachaça, o bêbado conhecido como Boca de Ponche, entrou na igreja e seguiu direto pro confessionário. Sentou-se lá e não falou nada. Espantado, o padre tossiu discretamente para chamar a atenção do bêbado. E ele lá, calado.

     O padre resolveu bater outras três vezes na parede de madeira que os separava, para ver se o cara começava a falar.

     O bêbado reagiu, na base da bronca:

     – Ô meu amigo, não enche! Não adianta bater, porque aqui também não tem papel!

 

 

Tudo pelo café!

 

     O dia estava nascendo, cinco da manhã, quando alguém bateu na porta de dona Tertuliana. Ela foi atender e deu de cara com o marido completamente bêbado, o cabelo bagunçado, a roupa amassada, cheio de marcas de batom e com cheiro forte de perfume feminino.

     Muito louca da vida, dona Tertuliana gritou:

      – É desse jeito que você volta pra casa, seu malandro? Depois de farrear com as raparigas, você veio ver o que aqui?

    E ele, entre um arroto e outro:

    – Oxi, volte pra casa. Tá lembrada não, que eu moro aqui?

    – Morava! A partir de amanhã passará a morar no Parque das Flores.

    Dona Tertuliana é mulher de palavra. Ela mesma providenciou a transferência de domcilio do marido.