Rívison Batista

16 de março de 2016

Vivendo de outra forma

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Em 2076, um senhor de 92 anos está incapacitado de sair da cama. Por maiores avanços medicinais que existam, o idoso perdeu o movimento das pernas. Seus braços já não ajudam também. É alimentado sempre por pessoas próximas. Mas, mesmo assim, esse idoso não se entrega à monotonia e à depressão, pois viaja para vários lugares do mundo todos os dias (e até mesmo fora do mundo). Trata-se de uma realidade virtual tão real que muitas pessoas, mesmo sendo totalmente capacitadas, optam por passar um dia inteiro deitadas com um capacete. Tal objeto cobre a visão, criando imagens, e estimula áreas cerebrais. “Minha filha, hoje eu quero ir a uma praia”. E a filha atende ao pedido do pai idoso e o deixa com o capacete a manhã toda. Ele se vê com 30 anos, andando na areia. Sente o calor do local e sente até a água das ondas nos pés. A volta à realidade sempre é marcada pela desilusão. Um olhar perdido no quarto. Uma boa observada nas mãos magras de pele fina. Por fim, a língua passa pela boca sem dentes e assim o homem se dá conta que é quase centenário. Se dá conta que mora com uma filha de 52 anos e também relembra que muita gente que admirava e amava já se foi. “Posso ir ao paraíso com essa máquina, filha?”, perguntou. “Não, pai. Não podemos ir tão longe com isso”, disse a filha. “Eu me vi com trinta anos, filha. Foi a idade que conheci tua mãe. Estava numa praia e ela estava com um grupo de amigos. Agora há pouco, esse aparelho me fez voltar à mesma praia, mas estava deserta. Linda e deserta”, lamentou o idoso, que adormeceu jurando ter ido ao paraíso. Na manhã seguinte, acordou triste, sabendo que sua vida estava desaparecendo aos poucos e era consciente de que o corpo já não lhe era tão útil. “Se eu pudesse recomeçar tudo outra vez. Só queria viver tudo de novo…”. E foi com esse pensamento que o idoso experimentou mais uma vez a realidade alternativa. Com o capacete, voltou à praia e desejou com vontade ver todos novamente. De repente, uma pessoa aparece de longe, o único ser humano naquela orla inteira. Vai chegando perto até ele reconhecer que é a ex-mulher com 28 anos de idade. Ela tinha falecido com 87 anos. “O que houve? Não é sua hora de vir a esta praia”, disse ela. “Querida, se eu pudesse, passava os próximos 62 anos aqui com você. Tudo de novo”, falou o idoso, agora com aparência de trinta anos e a voz trêmula. “Pai, hora da sopa, vamos tirar o capacete”, gritou a filha na sala. Ao retirar o capacete do pai, percebeu que ele estava inconsciente. Tentou reanimá-lo, chamou a ajuda médica, mas o óbito estava constatado. Envolvida por profunda tristeza, a filha, duas semanas após a morte do pai, coloca o capacete em si mesma. Decidiu ir a Paris sem sair da cama. Ao lado da Torre Eiffel, vê muitos turistas, tudo fruto da grande complexidade de algoritmos da realidade virtual. Porém, a uns trinta metros, um casal sorrindo de mãos dadas se destaca na multidão. O homem olha para ela e ela estremece ao ver o pai e a mãe quando jovens. “Se cuida, estou de olho!”, gritou ele para a filha e o casal sumiu no meio de tanta gente. A mulher retirou o capacete aos prantos e com a certeza de que as viagens do pai ainda não acabaram.

 

*Rívison Batista é jornalista