Ailton Villanova

13 de março de 2016

Era a mulher do Geribaldo!

      Se existe um sujeito bom em cima deste mundo velho de guerra, esse sujeito é o Geribaldo Turbano, Gerinho, para os mais chegados. Se o caro leitor quer ter uma idéia de como o Gerinho é gente fina, basta que eu diga o seguinte: há 25 anos ele está casado com a prima Estrogélia, figura ridícularíssima. Gorducha das canelas finas, peitões do tamanho de duas melancias, três cinturas e bunda de lagartixa, ela se acha o máximo. E como gosta de se exibir!

     Estrogélia tem mania de ser cantora, mas não se manca. É desafinada até pra dar “bom dia”.

     E ainda existe alguém que sente orgulho e admiração pela infeliz. Quem poderia ser? Claro que o marido!

     Certa feita, lá estava ele curtindo a noite na orla da Ponta Verde com a tal da mulher à tira colo. Os dois já biritados, ocupavam uma mesa de famoso bar do pedaço. No local não cabia mais ninguém. E chegando mais gente, na sua maioria turistas.

     Conjunto musical afinadíssimo, animava o ambiente com uma seleção musical que atendia a todos os gostos. De repente, os músicos atacaram de samba. Ah, pra quê! A a gorducha Estrogélia pinoteou no meio do salão, olhou pro marido e disse:

     – Vou melhorar esse repertório, que ficou meio fraco!

     E partiu firme. Chegou ao palco, agarrou o microfone sem pedir licença aos músicos, e mandou a boca pra frente. Gerinho espiava pra ela emocionadíssimo. A lágrima caía pelo canto do olho. Nisso, parou junto dele um galego acompanhado de uma loura espetacular. O casal era de turistas, que procurava, com os olhos, um lugarzinho para acomodar-se. Boníssimo, o Geribaldo ofereceu à dupla uma vaga na sua mesa:

     – Podem sentar aqui, comigo.

      Enquanto os galegos se acomodavam, Geribaldo apontava pro palco e dizia:

     – Aquela senhora que está cantando é minha mulher!

     – O quê? – perguntou o galego.

     Gerinho aumentou o tom de voz:

     – Aquela que está cantando alí, ao lado do cara da guitarra, é minha mulher!

     – Hã?

     – Aquela artista é minha mulher! – repetiu Geribaldo, na base do grito.

     E o turista, já puto:

     – Fala mais alto, porque tem alí uma velha ridícula com um microfone na mão, berrando que nem uma égua desmamada. A filha da puta não deixa ninguém escutar nada!

     Por causa disso, o Gerinho, que sempre foi um cara pacato, quis matar o galego.

 

 

Doença horoscópica

 

      Nos últimos tempos, o Flósculo Roubaldo vinha andando capiongo, todo envergado, a venta quase arrastando no chão. Perda de ânimo total. A memória, inclusive, começou a pifar.

     Por insistência de dona Cordália, sua esposa, ele procurou um médico, que lhe prescreveu uma porrada de exames. Flósculo gastou mais de um mês se submetendo aos referidos. Na semana que passou ele retornou ao consultório do esculápio.

     Caidaço, o amigão aí deixou o gabinete do doutor amparado pelo filho Júnior, de 12 anos de idade. Ao chegar em casa, dona Cordália correu pra ele para saber das novidades:

     – Então, meu velho, o que foi que o doutor disse?

     E ele:

     – Bom, ele falou que eu estou com uma doença grave chamada… Capricórnio… Não, não! É Sagitário! Ah, também não! É Escorpião!

     Aí, o filho socorreu:

     – Não é nada disso, pai. O doutor disse que sua doença é Câncer!

     E ele, batendo na testa:

     – Ah, é mesmo! Eu sabia que era uma doença ligada ao horóscopo!

 

 

Nada como a propriedade

 

     Apesar dos seus 93 anos de idade, seu Jucondênio ainda é chegado a uns exagêros. Morador antigão de Mangabeiras, ele não para quieto no bairro. Está sempre caminhando pelas redondezas, principalmente Jatiúca e Cruz das Almas, calçado nas suas tradicionais alpercatas. Quando está disposto, vai muito mais além.

     Num final de semana desses, de tardezinha, lá vinha ele de retorno, a pé, das lonjuras de Riacho Doce. A certa altura, cansou. Decidido, estendeu o braço e parou um automóvel, que era dirigido pelo muriciense Valdir Damasceno, o Didi.

     Seu Jucondênio subiu no veículo e ordenou ao chofer:

     – Vam'bora, meu filho!

     Didi continuou a viagem. A certa altura, o velhusco falou:

     – Por favor, meu rapaz, pare esse carro aí na beira da pista.

     Didi encostou o automóvel na margem da rodovia, o velhote desceu e disse:

     – Espere aí! Não vá embora, não. Vou dar uma mijada!

     Ali mesmo, no acostamento, seu Jucondênio arrastou a “pecinha” pra fora e urinou a vontade.

     De volta ao carro, o velhusco suspirou e disse:

     – Aaahhh! Nada melhor do que a gente poder mijar naquilo que é da gente… É ou não é?

     E Didi Damasceno, curioso:

     – Ah, quer dizer que aquele sítio de coqueiros onde o senhor desceu pra fazer xixi, é seu?

     – Não, não, meu filho! É a alpercata!

 

 

Matou o amigo

 

     Apesar de sua modernidade, não constitui segredo pra ninguém que o nosso principal hospital de atendimento emergencial – o HGE -, tem encontrado dificuldade para atender a demanda sempre crescente de pacientes. É que tudo quanto é vítima de crime violento, acidentes de tráfego, etc., verificados no interior do estado, são transferidos para aquele nosocômio. Fica mais fácil para as prefeituras largá-las no HGE, do que cuidar delas.

     Tem dias que no nosso Hospital Geral os doentes se amontoam nos corredores, aguardando uma vaguinha numa enfermaria, ou para ou ser tratado, ou para morrer com dignidade.

     Médicos, enfermeiros, auxiliares e servidores de apoio, são verdadeiros heróis. Mais não fazem, porque não podem.

     Num desses finais de semana violentos, o paciente Marcodônio Silveira, oriundo de Pariconha, ingressou no HGE um bocado avariado. Morreu num colchonete, em pleno corredor do nosocômio, antes de ser submetido a cirurgia. Tremendo dum azar.

     Explico:

     Encontrava-se o indigitado Marcodônio estirado no colchonete, aguardando o encaminhamento à sala cirúrgica quando, de repente, começou a falar apressado, os olhos arregalados:

     – Soro… soro… a… caba… Soro… a… caba!… – e esticou as canelas.

     O acompanhante dele, apavorado, chamou um auxiliar de enfermagem e avisou:

     – Olhaí, seu enfermeiro… O Marcodônio morreu! Ele começou a delirar, dizendo que queria ir pra Sorocaba! Depois, bateu as botas!

     E o auxiliar de enfermagem:

     – Ele não queria ir pra Sorocaba coisa nenhuma! Só avisava que o soro estava acabando. E só tinha que acabar mesmo! Você estava pisando na borrachinha do tubo!