Ailton Villanova

9 de março de 2016

Além de cego…

      O ceguinho Janunário, muito conhecido no centro de Maceió na década de 50, pedia esmolas na praça D. Pedro II. Quando lá não estava exposto à caridade pública, as pessoas o encontravam num cantinho recuado da calçada da antiga Caixa Econômica, na Rua do Comércio.

     Seu Janu (conforme era tratado pelos amigos), tinha uma maneira incrível de esmolar. Ele pegava uma cúia vazia de queijo do reino, jogava uma moeda dentro e, em seguida, ficava balançando a vasilha, que provocava um som chamativo da atenção dos transeuntes – chec, chec, chec… De vez em quando, impulsionava a moeda pra cima e quando a referida caía de volta no fundo do recipiente, ele aproveitava e apelava:

     – Uma esmolinha pelo amor de Deus!

     Naquilo que escutava novo barulinho dentro da cúia, seu Janu completava:

     – Deus lhe pague!

     O ceguinho era craque no saculejo da moeda na vasilha. Certo dia, uns moleques que costumavam perturbar os transeuntes no encontro das ruas do Comércio e Dois de Dezembro, imediações da Drogaria Pasteur, acharam de fazer maldade ao ceguinho: ficaram esperando ele jogar a moeda pra cima para entrar em ação.

     Seu Januário deu uma saculejada na lata, impulsionou a moeda e ficou aguardando que ela caísse na lata. Foi nesse momento que um dos moleques agiu, aparando a moeda no ar. E nada de seu Janu escutar o barulhinho – plect! – da sobredita colidindo com o fundo da lata.

     O ceguinho desesperou-se. Colocou as mãos na cabeça e gritou:

     – Valei-me meu padrinho Ciço do Juazeiro! Agora me lasquei de vez! Além de cego, fiquei mouco, também!

 

 

O jarrro ou a perna?

 

     O amigo José Roberto de Melo Sá, alto funcionário do Banco do Brasil em Brasília, grande colaborador e leitor assíduo desta coluna, me pediu para contar mais uma das peripécias do Cacá, cujo pai, o Carlão, também é servidor do BB.

     Um pedido do JR nesse sentido, eu não posso deixar de atender. De modo que aqui vai mais uma do garoto:

      Mal dona Margô, mãe do pentelho pisou em casa, de volta do trabalho, ele saltou pra cima dela, de olho arregalado:

     – Mainha, você preferia que eu quebrasse uma perna, ou aquele jarro bonitão que tem lá na sala?

     E a mãe, toda carinhosa:

     – Ora, mas que pergunta, meu anjo! Claro que eu preferia que você quebrasse o jarro da sala.

     E o pentelhinho, satisfeitinho:

     – Então, mãe, pode ficar contente. Eu não quebrei a perna não, viu?

 

 

Telefonista enxerida

 

     Hoje gozando de merecida aposentadoria, o radialista Luilton Roosevelt, penedense ilustre, é um tremendo pão duro. Perto dele Tio Patinhas é pinto.

     Certo dia, quando ainda estava em atividade na Rádio Gazeta, o telefone de sua mesa, no radiojornalismo tocou, ele atendeu. A telefonista Tercila Cabral, “amostra grátis” de gente, avisou:

     – Ligação pra você, Luilton! É o seu colega Borjão!

     E ele, todo cheio de direito:

     – Alô? Quê que você quer, Borjão? Tô ocupado, rapaz!

     E o Borjão – um dos bons valores do rádio alagoano e tremendo disquejóquei, respondeu desesperado:

     – Baixinho, estou aqui na Via Expressa… Meu carro pifou, bicho!

     – E eu com isso? Você tá me achando com  cara de mecânico? Vou desligar!

     – Pera lá, rapaz! Eu só queria que você me emprestasse 20 reais. É pra completar a grana na compra de uma peça…

     – O quê? Alô?

     Borjão aumentou o volume da voz:

     – Me empreste 20 reais!

     – Alô? Não estou ouvindo nada! A ligação está péssima!

     – Vin-te reaaiiisss! Ouviu agora? – Borjão estava desesperado em dobro.

     – Pifou tudo! O telefone agora ficou mudo de vez!

     Nesse momento a telefonista Tercilinha, entendeu de interferir na ligação:

     – Desculpe, Luilton, mas a ligação está perfeita. O telefone está ó-ti-mo!

     O baixinho invocou-se de vez:

     – Ah, é? Então por que você não empresta o dinheiro pra ele, sua enxerida?

      E bateu o telefone.

 

 

A diferença das tias

 

     Bom de gogó, Stênio Reis continua fora do rádio. Sempre foi líder de audiência com o seu “Fim de Papo”, programa leve, solto, onde a música popular brasileira sempre foi exclusividade. Stênio, outro baixinho penedense, apreciou muito a boemia e o mulherio. Interessante nele é que nunca bebeu!

     Na Rádio Gazeta dos anos 70, Reis de vez em quando dava uma de desaparecer do mapa e passava dias fora do ar, sem explicação prévia alguma. Quando retornava, sempre tinha uma bela desculpa na ponta da lingua. O diretor-geral da emissora, o austero José Barbosa de Oliveira durante um bom tempo vinha de olho no baixinho. Barbosa sempre foi de “aguardar a próxima vez, para não ser injusto”, costumava dizer.

     Apesar de advertido por colegas que se continuasse abusando da boa vontade do Barbosa poderia pagar caro, Stênio Reis sumiu mais uma vez sem pedir licença e sem avisar nada a ninguém. Uma semana depois, quando voltou ao trabalho, foi procurado pelo jornalista Jurandyr Tobias, que era o chefe do Departamento de Radiojornalismo da emissora:

     – Olha, Stênio, recebi a incumbência de lhe avisar que você está fora da escala de locução…

     O baixinho nem deixou o colega terminar de falar:

     – O quê? Eu fora da escala?! Não admito! Quem foi que lhe mandou me dar esse recado?

     E o Tobias, tranquilo e calmo, como sempre:

     – Foi o doutor Barbosa.

     – O Barbosa não pode fazer isso comigo! Olhe, Tobias, você diga pra ele…

     Jurandyr Tobias cortou a fala do Stênio:

     – Não vou dizer coisa nenhuma. Você vá até ele e se justifique.

     Dia seguinte, Stênio Reis procurou o diretor, humildezinho humildezinho, com a cara mais triste do mundo:

     – Doutor Barbosa, não lhe conto…

     – Pois conte!

     – Uma tia minha, que eu não via há 40 anos, faleceu em Penedo, coitadinha… snif.

     Barbosa interrompeu:

     – Meus pêsames… Mas, me diga uma coisa, Stênio: essa sua tia, você foi enterrar no Japão?

     – Nããão, doutor Barbosa. O enterro dela foi lá mesmo, em Penedo, Por quê?

     – Você passou dez dias sem comparecer ao trabalho. Pensei que estava fora do Brasil. Olha, eu também tenho tia. Aliás, várias tias. Adoro todas elas. Semana passada morreu uma delas, em Anadia. Dei um pulinho lá, chorei, assisti ao enterro e voltei correndo pro trabalho.

     – Ah, doutor, mas aí há uma diferença enorme! Quer comparar a sua tia com a minha?

     Barbosa rebateu:

     – Realmente, existe uma diferença enorme entre as duas tias. A minha existiu, era verdadera. A sua, nunca morreu, porque jamais existiu! Tá pensando que eu sou algum idiota, rapaz?

     Sobrou pro Stênio uma despedida sem choro e nem vela.