Ailton Villanova

7 de março de 2016

O arado que não arou

     Sertanejo das mãos calejadas de tanto trabalhar no cabo da enxada, arando a terra, seu Abrôncio Domício nunca frequentou uma escola. De modo que era rude até onde se permitia. Um dia, entendeu de comprar um arado japonês para a sua fazendinha,  encravada nos confins de Pariconha.

     O arado adquirido por seu Abrôncio era de última geração, segundo a propaganda nipônica espalhada no mundo inteiro. Todo incrementado, cheio de botões coloridos e chavezinhas de vários tamanhos, o equipamento só faltava falar.

     Explicar como um matuto das brenhas sertanejas teve acesso à essa incrível máquina, é tarefa fácil: Abrôncio tomou conhecimento da existência referida ao receber a visita de um propagandista japonês, que percorria o interior de Alagoas acompanhado de um certo Aldegundes Venerando. Quando o japa e o parceiro bateram em Pariconha só encontraram seu Abrôncio disposto a fazer negócio, porque só ele dispunha de grana suficiente para comprar, à vista, o bendito arado.

      Trocando os “erres” pelos “esses”, e vice versa, o japonês, que havia se apresentado como representante de uma tal de “Nipon Machine”, convenceu seu Abrôncio que o arado seria a salvação da lavoura, e concluiu enumerando as vantagens oferecidas pelo instrumento:

      –  Alado ser muito bom, né? É computadolizado, todo corolido, né? Num quebla nunca! Amigo complá alado, né?

      Abrôncio pagou o arado na hora e o recebeu imediatamente. A máquina de arar era uma coisa linda. Negócio de primeiríssimo mundo. Só que o agricultor, analfabeto, ficou sem saber como manejá-la, na conformidade das instruções contidas num catálogo que a acompanhava. Aí, pegou o telefone e ligou pro Recife, onde ficava o escritório do japonês. Foi o próprio quem atendeu:

      – Arô?

      E seu Abrôncio, puto da vida:

      – Ará uquê, meu amigo! Inté agora num arei merda ninhuma!

 

 

Só sendo bailarina!

 

     Nem chegou o carnaval e a negrada já andava curtindo o maior frevo no Loteamento Maciel, que fica localizado um pouco mais pra lá do Barro Duro.

     O negócio estava mais incrementado no sítio do Coriobaldo Urubá, que já tinha desmaiado um monte de vezes, de tanto beber. Quando recobrava os sentidos, só fazia abrir a boca e solicitar:

     – Mais mé! Despeja aqui, mais mé!

     E capotava de novo.

     A tarde descambava para o seu final, quando pintou no pedaço o indivíduo conhecido como Amaro Beiço de Sola, cachaceiro de marca maior. Naquilo que foi entrando no ambiente, foi dando de cara com a Gerusa Olho de Xexéu, cujas axilas são mais cabeludas do que lombo de gorila. A mulher vestia uma blusa de alça, estava com o braço levantado e a mão apoiada no portal da casa. Cheio de educação, o malandro falou pra ela:

     – Dá licença, balarina?

     E ela:

     – Já se vê que tu da bêbo. Sou bailarina porra nenhuma!

     – Ah, e num é não?

     – Claro que não sou. Por que essa, agora?

     Aí, Beiço de Sola, cuja visão estava mais complicada do que letra de médico, esclareceu:

     – Pra você botar a perna nessas alturas, só sendo bailarina!

 

 

Insensível demais!

 

     Por trás de uma barraca situada na orla da Jatiúca encontravam-se os malandros Benevaldo “Boca de Caçapa” e Tonho “Bico de Pombo”, que se escondem no pedaço mais encardido do Jacintinho.

     Encostado num poste, Bico de Pombo, contumaz perturbador da ordem pública, experimentava um pó branco, que lhe fora oferecido pelo colega Boca de Caçapa. E haja ele a barrufar:

     – Uuuummmfff…

     E o Boca de Caçapa:

     – Comequié, mano véio? Tá sentindo alguma coisa?

     Bico de Pombo respondeu:

     – Nada.

     – Então barrufa mais forte, “malandráge”.

     – Uuunnnnfff…

     – E agora?

     – Sinto  nada! Uuuuummmmffff!

     – Cheira fundo mesmo, cara!

     – Uuuuuuummmmmffff!

     – Isso! E agora? Sente, ou num sente?

     – Sinto porra nenhuma!”

     – Impossível, cara! Como tu não sente? Explica!

     – Ah, cara… Num sinto a cabeça, num sinto as pernas, num sinto os braços, num sinto os pés…

     – Ah, agora tu falou!

 

 

Só podia doer!

 

     O Gedigaldo, vulgo Tanajura, embocou no finado Pronto Socorro apavorado. Dirigiu-se à sala de atendimento emergencial e, sem pedir licença e exalando o maior bafo de alcool, gritou pro médico que atendia a um paciente ferido a faca:

     – Tô mal, doutor… Tô cheio de dores…

     E o doutor, sem olhar pra ele:

     – Você não está vendo que eu estou ocupado? Aguarde a sua vez!

     E o Tanajura, agoniado:

     – Posso não, doutor. Onde eu toco, dói! Repare só…

     O médico, então, fez a gentileza de reparar. Tanajura voltou a apalpar-se:

     – Olhe só! Aperto aqui, dói! Aperto também aqui… ai!… Dói!

     O médico invocou-se:

     – Mas é claro que dói, porra! Você está com o dedo

     todo quebrado!

 

 

Vingança malígna

 

     Um tal de Pedro “Jacaré” entrou no boteco de um cara conhecido Luiz da Mola, situado na Brejal, exibindo um ar de triunfo. O riso dele ia de orelha a orelha. Parou diante do balcão e falou pro dono:

     – Ô meu chapa, desce aí uma “meiota” de cachaça e bota um tiragosto de sarapatel, no capricho. Eu hoje quero comemorar!

     Luiz da Mola, que nunca tinha visto o cara naquela alegria toda, indagou desconfiado:

     – Comemorar o quê, hein, Jacaré? Por acaso você ganhou na loteria?

     – Melhor ainda! Eu eu vendi o sofá lá de casa, rá, rá, rááá… Eu agora que ver, onde é que a minha mulher e o fiadaputa do vizinho vão transar! Rá Rááá´…