Ailton Villanova

3 de março de 2016

Que coragem! Que bravura!

     Alfredo Aragão, o Alfredão, sujeito meio avoado, venceu na vida vendendo bugigangas de porta em porta. Ao cabo de dez anos de labuta ininterrupta, de manhã, de tarde e de noite, conseguiu juntar uma boa grana, e a primeira coisa que fez foi mandar erguer uma bela casa no recanto mais tranquilo do Tabuleiro do Martins, quando nem se sonhava implantar o complexo residencial Benedito Bentes, hoje transformado em bairro. Depois de construída a mansão, Alfredão mandou botar na garagem três carrões zerados. Pra completar a bacanagem, instalou uma piscina de dimensões olímpicas de banda do casarão.

       Exagerado, Alfredão convidou meio mundo de gente para a festa de inauguração do palacete. Misturaram-se no ambiente, os parceiros dos tempos de pobreza e os amigos de circunstância, os aproveitadores de ocasião.

      A festa rolando solta e Alfredão, todo ancho, circulando entre os convidados, com um copo cheio de uísque na mão. Lá pelas tantas, a cuca saiu do prumo de vez e o Alfredão entendeu de dar uma incrementada no furdunço: subiu numa cadeira e anunciou:

      – Atenção, galera! Estou achando esta festa muito devagar! Em assim sendo, vou botar um pouco de emoção nela! Que tal um concurso bem ousado?

      E todo mundo igualmente biritado:

      – Obaaaa!!!

      – Bom, gente, o concurso vai se resumir no seguinte: vou mandar pegar um daqueles jacarés que eu crio lá no fundo do quintal, e vou jogá-lo dentro da piscina, certo?. A primeira pessoa que conseguir atravessá-la sem ser mordida pelo jacaré vai ganhar mil paus de prêmio!

       Os empregados do anfitrião pegaram um jacarezão de mais de trezentos quilos e jogaram dentro da piscina. Quando o bichão bateu dentro d’água ficou furioso. Mais furioso ficou ainda quando botou a cabeça de fora da água e viu um monte de gente em redor, na maior algazarra. E haja ele a querer pular fora da piscina.

       E o Alfredão, dando uma de animador de auditório:

       – Comequié, gente? Ninguém se habilita?

       Todo mundo ficou calado. E Alfredão:

       – Okêi! Vou aumentar o valor do prêmio. Três mil paus pra quem

atravessar a piscina nadando!

       Enquanto isso, furiozão, o jacaré dava pinotes incríveis e batia insistentemente com o rabo na água – plac, plac, plac… vlap, vlap… O dono da festa insistia:

       – O que é que há, pessoal? Tá todo mundo se afrouxando? Eu vou caprichar no prêmio: 5 “milhas”!

       Nada.

       Aí, Alfredão exagerou:

       – Dou um dos meus carros, pronto!

      Alfredão acabou de falar, ouviu-se um “splaaashh”. Alguém havia ousado mergulhar na piscina. Pelas costas, dava para ver que era o galego Lula “Boquinha”. O infeliz dava braçadas desesperadas e o jacaré nos calcanhares dele. Depois de umas dez voltas na piscina com o terrível animalzão atrás, Boquinha conseguiu pular fora, morto de cansado. Mesmo molhado, o coitado suava por todos os poros. A língua desabava na caixa dos peitos.

       A galera vibrou com a coragem e a ousadia do cara. Mil aplausos!

       E Alfredão, empolgadíssimo:

        – Façanha incrível, minha gente! Mais palmas pro nosso corajoso amigo! Ele é um herói! Ganhou o carro! Ele mereceu!

       Ao conseguir recuperar o fôlego, o galego Boquinha rebateu:

       – Eu não quero carro porra nenhuma!

       – E o que você quer, então? – perguntou Alfredão.

       – Eu não quero nada!

       – Como não quer, rapaz? Você ganhou o concurso!  Escolha um dos meus carros. Promessa é promessa!

       – Eu não quero porcaria de carro nenhum, já disse! Eu já tenho o meu!

       – Então diga o que quer!

       – Eu quero é matar o filho da puta que me empurrou na piscina!

 

 

Antes da morte, a conta!        

     Bar do Duda, o relógio marcando uma e meia da tarde. Freguesia, a de sempre. Numa mesa, lá num canto mais afastado do balcão, um camarada conduzia direitinho o barato mastigatório quando, de repente, parou de movimentar a queixada, esbugalhou os olhos e ficou puxando o ar do ambiente, como quem queria morrer. É que, entusiasmado com a gostosura do tempero do peixe que mastigava, ele engasgou-se com uma espinha, que ficou atravessada na sua goela. Ao reparar na cena, o garçom apavorou-se e gritou para o dono da casa:

      – Socorro, seu Duda! Tem um freguês aqui, morrendo engasgado com uma espinha de peixe! O que é que eu faço, pelo amor de Deus!

      E o Duda:

      – Depressa, dê pra ele a conta antes que morra de vez!

 

Bebida violentamente mortal

     Numa roda de boêmios, num o boteco suburbano, o habituê Lucindo  “Bacurau” assumiu ar professoral e, sem quê e nem pra quê, discursou para os parceiros:

     – Nem todo biriteiro é forte como nós! Nós só bebemos porque aguentamos o tranco, é ou não é?

     Ao seu lado, concordou parceiro conhecido como Neguinho da Medalha:

     – Tu falou a maior verdade, negão!

     – Tem gente que morre espumando de bebida porque é fraco, não tá com nada… – completou Lucindo Bacurau.

     Nesse ponto, saltou o tal de Bida Coconha, pediu a palavra e disse:

     – O parêia aí, tá certíssimo! Meu tio, por exemplo, quem matou foi a bebida!

     – Então ele deve ter tomado um porre violento, não foi?

     – Não, não! Simplesmente um barril de cachaça caiu na cabeça dele!

 

Loucura e maquiavelismo

     Toda empiriquitada e trepada em salto de 20 centímetros, madame Doniobalda procurou o artista plástico Ednardo e encomendou, toda cheia de autoridade:

     – Olha, meu rapaz, eu quero que você pinte o meu retrato com um colar de diamantes, brincos de esmeralda e uma aliança de rubis, além de uma pulseira de ouro…

     – Mas a senhora não está usando nada disso! – observou o pintor.

     – Eu sei, meu caro. Mas é pro caso de eu morrer antes do meu marido e ele se casar de novo. Quero que a nova mulher dele fique doida procurando elas joias pela casa toda!

Morte que vai dar festa!

     Depois que apeou-se do poder, Inácio Lula tem tido momentos de depressão. Dia desses, amanheceu pra baixo demais. Um dos xeleléus que herdou da República ficou preocupadão e logo tratou de puxar-lhe o saco:

     – Presidente, cuidado para não macular a sua saúde!

     E Inácio Lula, batendo queixo:

     – Será que eu vou morrer, cumpanhêro assessor? Eu não posso morrer! O Brasil ainda precisa de mim!

     E o xeleléu:

     – Peraí, presidente! Vou ligar para a madame Amina Lepore. Ela também bota cartas pelo telefone!

     – Liga, liga!

     Feito o contato telefônico, madame Lepore mandou de lá:

     – Presidente, o senhor vai morrer numa festa bem brasileira!

     – Qual, qual, cumpanhêra Amina? – indagou Inácio apavorado.

     – Não importa. Quando o senhor morrer será uma festa para os brasileiros sem-teto, sem-terra, sem-comida, sem-ministério, aposentados, pensionista…

 

Quanta pretensão!

     Muito timidamente aquele coroa desmunhecadamente delicado chamado Hérculênio Pinto entrou no consultório do psicanalista Aragonaldo Carposo e, esfregando as mãos e olhos piscando, disse meio vacilante:

     – Sabe, doutor… eu tenho a impressão que sou… er… homossexual!

     O especialista mirou bem na figura e foi incisivo:

     – Quem? Você? Isso é o que você pensa! Escute aqui, ô criatura: Nero foi homossexual, Calígula foi homessexual, Pitágoras foi homossexual, Oscar Wilde foi homossexual… Mas, você?! Você não passa de uma bichona muita da descarada!