Rívison Batista

2 de março de 2016

A condenação de Ícaro (ou O Ciclo da Intolerância)

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Em uma realidade paralela, em uma dimensão inalcançável pelos padrões da tecnologia atual, existe uma outra versão da Terra. Neste mundo, as pessoas nascem com asas e voam grandes distâncias. A ‘humanidade do ar’ passa a maior parte do tempo nos céus, evoluíram perto das nuvens e toda sua infraestrutura é feita acima do chão com a utilização de sistemas de objetos flutuantes, semelhantes a balões, que mantêm prédios e casas fixos no ar. Não há chances para quem nasce sem asas. “É uma aberração, extermine-o”, diz um dos líderes desse povo sobre um bebê que não pode voar. O ‘infanticídio’ era comum, tal como em Esparta nos tempos antigos. A raça tinha que ser pura, assim como na Alemanha nazista. Mas ele nasceu sem asas. “O chamam de Ícaro. Escapou da eugenia e agora corre pelos campos abaixo de nós. Muitas vezes pula de um modo desajeitado. É um animal que envergonha a espécie”, afirmava o líder supremo dos seres alados a seus 'militares'. Ícaro sabia usar bem a velocidade das pernas e sempre escapava de ser capturado e morto. Quando completou doze anos, construiu um par de asas utilizando penas que encontrava pelo chão e colava todas em duas estruturas feitas com galhos de árvores. Armou as asas nas suas costas, pegou impulso e se jogou no abismo. Nos primeiros metros, parecia que seria queda livre, mas uma corrente de ar o fez planar e conseguiu o feito: voou tão alto quanto pôde. Aos poucos, os galhos se partiram, as penas começaram a cair e Ícaro foi em direção ao solo.

Por sorte (ou azar), caiu em cima de um dos balões de sustentação de um prédio. Foi capturado. Com a lâmina de um metal poderoso sendo segurada por um capataz e mirando no seu crânio, o líder supremo, bem ao lado, profere em voz alta para uma multidão: “Teus pais te esconderam e depois te colocaram no solo, para que você pudesse ser livre. Teus pais já pagaram por esse crime, estão mortos. Você agora também deve morrer, pois não existe essa liberdade sem asas. Você, que é chamado de Ícaro por causa da lenda de um 'sem asas' que tentou voar, cometeu o mesmo erro de quem inspirou teu nome”. Com cara de choro, a criança olha para o líder e grita: “Nunca tive um nome e não gosto de Ícaro. Durante anos, conheci mais o solo do que qualquer um alado. Não sou fraco, sou forte. Venci uma natureza por vezes inexplorada enquanto vocês estavam no conforto de suas casas voadoras. Meu único erro foi cair na tentação de querer ser algo que nunca fui. Eu quis ser aceito, quis dominar o ar e abandonei o chão, que me acolheu tão bem. Voei para as garras da intolerância. Mereço perder a cabeça por renegar quem eu sou. E esta sociedade doente merece também perder a cabeça por não aceitar as diferenças. São todos fracos e um dia serão tão poucos que vão implorar de joelhos para não serem mortos pelos ‘sem asas’. Toda sociedade intolerante um dia cai!”. E a lâmina foi manejada com tal força que a execução foi rápida, diante de todos.

Os séculos se passaram e nasceram cada vez mais 'sem asas'. A matança de recém-nascidos era amenizada pela compaixão dos pais, que livravam os pequenos da morte. Uma sociedade do solo se formou, e a sociedade do ar, já fragilizada pela intolerância, não aguentou a guerra entre as duas espécies e pouco a pouco foi desaparecendo. O império intolerante caiu, tal como Ícaro previu. Mas o homem, em qualquer realidade, é um ser que não aprende com os erros. A sociedade do solo que agora domina esse mundo continua intolerante com os que nascem fora dos padrões. Excluem agora os 'sem braços' e os 'sem pernas'. Formaram tribos onde defendem o solo, antes desprezado, matando e morrendo. Gritam orgulhosos 'sou branco' ou 'sou negro'. A exclusão e a vontade de viver separados parecem ser características naturais de qualquer humanidade, com asas ou sem.

 

*Rívison Batista é jornalista