Ailton Villanova

1 de março de 2016

Bastou somente um tiro!

     Fazendeiro ricão e muito malvado, o “coronel” José Guilhermino Lobão era dono de muitas terras no Sertão de alagoas. Mulherengo, possuía um batalhão de filhos espalhados pela região. Adorava ser paparicado e odiava ser traído. E quem não odeia?

     Aos domingos, coronel Guilhermino apreciava ir á missa enfiado num terno de linho branco, todo engomado, e muitos anéis enfeitando os dedos das duas mãos. Quando ria, tinha orgulho em mostrar quatro dentes de ouro na frente da boca. Não arriava um pau-de-fogo, cujo cabo era cheio de risquinhos. Cada um deles correspondia a um infeliz que despachou pro outro mundo.

     Solteirão, em que pese as dezenas de mulheres que tinha ao seu dispor, baqueou diante da boniteza e gostosura de uma jovem morena delmirense, que tinha idade de ser sua neta. Guilhermino apaixonou-se perdidamente por Maria do Ó.

     Casaram-se, bem a propósito, numa tarde pardacenta de inverno, mas ao cabo de dois meses o velho coronel descobriu que estava sendo corneado. Cego de ciúme e ódio, e com o orgulho debaixo do solado dos pés, ele jurou vingança. Mandou chamar seu jagunço de confiança, um tal de Quitério, a quem ordenou:

     – Quero que você mate duas pessoas!

     – Im riba de  nestante, meu coroné! Diga quem quem é os futuro finado, purqui já tô ficando cum raiva deles!

     E o fazendeiro, alisando as esquinas da testa:

     – Um é a minha mulé…

     – Vixe!

     – … e o outro é o amante dela, o vaqueiro Zequinha de Abreu, aquele do olho azul. Agora mesmo, os dois sem-vergonhas estão trepando no quarto dos fundos. Vá lá, dê um tiro na cabeça daquela puta e um tiro na bilunga do safado. Quero ela mortra e ele capado! Pra cada bala certeira eu lhe dou 5 contos de réis. Agora, vá!

     O jagunço embocou pelo corredorzão do casarão da fazenda enquanto o fazendeiro ficou no curral aguardando o resultado da empreitada.

     Não demorou muito, Quitério voltou com aquele ar de satisfação estampado na cara:

     – Selviço feito, meu coroné!

     Sem dizer nada, Guilhermino meteu a mão no bolso da calça, retirou   um rolo de notas, contou 5 contos de réis e já ia entregando ao matador quando ele rejeitou:

     – Não, não, meu coroné! Basta só sinhô me dá a metade!

     – Ôxi! E por que só a metade?

     – É purcauso qui só carici usá uma bala!

 

Discussão pelo poder

     De manhã cedo, ocorria o maior bafafá na casa do Valdeclédio. Ele, a mulher e a sogra discutiam aos berros. Só estava faltando mesmo sair porrada. No auge da discussão, alguém bateu na porta. Era um funcionário da Eletrobras, que havia detectado um probleminha no medidor de energia elétrica da residência. A empregada abriu a porta e o emissário da Eletrobras foi curto e grosso:

     – Quero falar com o dono da casa!

    E a empregada, algo preocupada:

    – O senhor poderia voltar mais tarde?

    – Por quê? Ele está fora? – estranhou o funcionário da Eletrobras, ouvindo o palavrório lá dentro?

    A criada, então, esclareceu:

    –  Realmente, o patrão está. É que neste exato momento ele está decidindo com a esposa  a sogra, sobre quem, realmente, é o dono da casa.

 

Ora, viva a liberdade!

     Praça dos Palmares, centro de Maceió, 9 horas da manhã, mais ou menos. Na fila dos taxis, o da dianteira tinha ao volante o motorista conhecido pelo apelido de Marouca, que puxava o seu ronquinho enquanto aguardava passageiro.

     De repente, Marouca foi despertado com o barrufo no pé do ouvido:

     – E aí, meu? Tudo nos conformes?

     Com certo desprezo, o taxista reparou na figura escalafobética do cara que o despertara.  Era o Cizino “Calcanhar de Galo”, que não mereceu resposta. Mas o inconveniente, insistiu:

     – Tá livre?

    – Tô.- respondeu o taxista, com má vontade.

    O bebão estufou o peito, abriu o bocão e mandou:

     – Então, viva a liberdade!!!

 

Ladrão muito bacana!

     Enquanto biritavam num barzinho do subúrbio, os amigos Alcolênio Urupemba e Invocaldo Matoso prestavam atenção no noticiário da televisão. Em dado momento entra no ar uma matéria sobre as vantagens e desvantagens do cartão de crédito. Era uma matéria democrática. O repórter fazia uma série de entrevistas com pessoas do povo e autoridades da área econômica.

      Terminada a reportagem, Alcolênio quis saber do seu colega de copo:

      – A propósito dessa matéria, como vai o seu cartão de crédito, Invocaldo?

      E ele, na maior tranquilidade:

      – No maior controle, bicho. Facilito, não!

      – O meu foi roubado! – redarguiu Alcolênio, com incrível naturalidade.

      – Puxa, meu! Maior perigo! Você fez um B.O. na Polícia?

      – Fiz não!

      – Iiiihhh, lascou-se!

      – De jeito nenhum! Faz três anos que isso aconteceu e o ladrão continua gastando muito menos que a minha mulher!

 

O patrão mandou!

     Um incêndio consumiu a lojinha do velho Izaquias, que havia anos encontrava-se instalada no mercado da Levada, deixando-o com ar de doido. Quando os bombeiros chegaram ao local, as chamas já haviam consumido tudo.

     Semana depois, a perícia concluía que o sinistro fora provocado propositadamente. O autor do sinistro logo foi identificado: Arquibaldo, vulgo Bozó, empregado da loja. Pegaram ele e levaram à presença do delegado do 1° Distrito de Polícia de então, doutor Carlomano de Gusmão Miranda.

     – Foi você quem tocou fogo na loja do seu Izaquias, não foi? – interrogou a autoridade policial.

     – Foi sim, senhor. – respondeu o acusado, na maior tranquilidade.

      – E por que, rapaz? Você é doido?

      – Sou não, doutor. Quem mandou tocar fogo na loja foi o seu Izaquias!

      – O quê? Você está dizendo que o dono mandou tocar fogo na própria loja?!

      – Mandou! Eu cumpri a ordem dele!

      – E como foi que ele deu essa ordem?

     –  Ele me chamou e disse: “Bozó, chegue amanhã cedo e prepare tudo para o queima do estoque”. Ordem é ordem, não é?

 

A grande utilidade da sogra

     A turma de sempre biritava animada num barzinho da Levada, entre esses o Biu Munguzá, famoso pelos seus homéricos porres naquela região. Ao seu lado, Tonho Pezão, mastigava algumas canelas de carangueijo e, pausadamente, mandava pro estômago goles e mais goles de cachaça. Em dado momento, entrou no ambiente outro habituê do boteco, o Federbado Boca de Ninho, que foi logo anunciando:

      – Atenção, turma! Notícia triste! Acaba de bater as botas a sogra do nosso amigo Lula Cuscuz!

      – Foi mesmo?! – espantou-se o Biu Munguzá. – Morreu de quê?

      – Dizem que foi do coração. A estas alturas o Lula Cuscuz deve estar feliz da vida!

      – Quêisso, rapaz?! Dona Bertulina sempre foi gente fina!

     Aí, Tonho Pezão achou de entrar na conversa:

     -Eu sempre tive opinião sobre sogra…

     – Que tipo de opinião? – perguntou Biu Munguzá.

     Pezão esclareceu:

     – Bom… pra mim, sogra só deveria ter três dentes.

      – Ôxi!

     – É. Um deveria nascer virado pra fora; outro pra doer a vida inteira e, finalmente, o terceiro para abrir cerveja pros genros…