Ailton Villanova

12 de fevereiro de 2016

Namorada bufenta

     Ceguinho Pretextato Fajardo era uma rapaz muito educado, além  de tímido. Tinha uma namorada chamada Daulacídia Maria, morenaça adubada, que era doidona por ele. No dia em que fizeram um ano de namoro, foram ao cinema, mais precisamente o finado Ideal, que ficava na 16 de Setembro, bairro da Levada. A ideia de pegarem uma fita esperta foi da moça, que era chegada a um xumbrego incrementado, dado a que a saudosa casa de exibições cinematográficas nos seus últimos dias de existência só passava filmes pornôs, cada mais sem-vergonha que o outro.

     Cego no cinema é um negócio complicado, mas pro Protestado isso não tinha a menor importância porque a amada Daulacídia, ao seu lado, ia narrando cada lance da película. Nesse dia, o Ideal estava exibindo o filme mais sacana dos sacanas que até então se tinha notícia.

     Abufelada com o ceguinho, Daulacídia narrava ao seu ouvido:

     – Olha, amor, o cenário do filme é lindo! A noite é de luar… Aaahh, os amantes estão abraçados ao pé de uma árvore…

     E juntou os panos do ceguinho que, na verdade, não era tão fogoso quanto a amada.

     – E agora? – perguntou ele.

     – Agora, eles estão se beijando! – respondeu Daulacídia.

     E lascou um beijo no ceguinho.

     – Acabou?

     – Acabou nada! Agora é que tá começando. Oh! Agora, ele está tirando a roupa dela!

     E tratou de ir desabotoando a blusa e botando as mãos do cego no lugar certo. Pretextato foi lá, já que estava na jogada.

     – E agora? – indagou novamente o ceguinho, sem muito entusiasmo.

     – Ah, agora os dois se deitaram.

     E deitou-se em cima do infeliz, ofegante, esfregante, babante.

     – E agora? – era o ceguinho afogado no meio dos peitões da morena. que subiam e desciam ritmadamente.

     – Agora, meu amor, a-go-ra… ui!… ai!… agora, eles…

     – Peraí! – interrompeu o cego. – Tem alguém aí do seu lado?

     E ela:

     – Não, amor. Tem não.

     – E aqui do meu lado?

     – Não… nãozinho. Não tem… ai!… ninguém.

     – E na nossa frente?

     – Ninguém… ui! Tá vazio.

     – E atrás?

     – Nada. A fileira está vazia, também. Ninguém!

     Aí, o ceguinho disparou:

     – Ahhh… então, sua mal-educada, foi você quem peidou, não foi?

 

 

Que fim de mundo, que nada!

 

     Dona Benzinata Gusmão, viúva de muitas carnes no corpo, era a paixão do escrivão Perácio Mendes. Um dia, finalmente, ele achou a ocasião para declarar-se à ela. Foi quando se deu um tiroteio de incontáveis projéteis de chumbo e muita fumaça, ocorrido entre a volante comandada pelo coronel PM Lucena Maranhão e o bando de Lampião liderado pelo cangaceiro Corisco. “O mato na periferia de Água Branca ficou rasteiro, de tanto que foi cortado pelos tiros dados dos dois lados”, lembra o aposentado Liberalino Santana.

     Quando eclodiu o tiroteio, o escrivão Perácio estava deitado numa rede, armada na garagem da delegacia de polícia onde, bem de frente, ficava a casa da viúva. Ele ficou de pé, esfregou as mãos, correu para o meio da rua e gritou na porta da reboculosa Benzinata:

     – Madame! O mundo está acabando! A hora agora é a de aproveitar a vida nos estertores dos últimos capítulos! Vamos!

     Mais que depressa dona Benzinata correu para o retrato do falecido, todo de preto e com a fita de congregado mariano atravessando o peito, ficou de mãos postas e disse:

     – Perdão pela ofensa, Gusmão. Mas o mundo vai acabar e não vou perder esse faturamento final.

     Pegou a mala, encastoou seu bem torneado alisador de sofá na garupa do cavalo e sumiu com o escrivão para matos baldios.

     E o mundo não acabou.

 

 

E precisava dizer mais?

 

      Prefeito no interior de Alagoas, um certo Alcebiláquio Pereira não era muito querido pelas bandas agrestinas. Segundo as más línguas, ele só conseguiu chegar ao poder à custa de muito trambique. Um dia, ele e seu chofer Bernardino transitavam de carro por uma estrada vicinal quando, subitamente atropelaram um porco, matando-o na hora. Preocupado, o alcaide pediu ao auxiliar que fosse até a fazenda do dono do porco explicar o ocorrido.

     – Mas volte logo, hein? – recomendou ao motorista.

     Bernardino, o chofer, só voltou dalí a três horas , completamente bêbado, carregando uma garrafa de uísque quase vazia e a roupa toda amarrotada.

     – O que foi que aconteceu, Bernardino? – indagou o mandatário, com ar de desconfiança.

     E o motorista:

     – Sei direito não, seu prefeito… Só sei que o fazendeiro me deu bebida importada, me ofereceu cigarros, botou no meu bolso um dinheirinho e fez a maior festa!

     – Ôxi! Mas, afinal, o que foi que você disse a ele?

     – Quase nada. Ele fez aquela festa toda quando eu comecei dizendo… “Sou motorista do prefeito e acabo de matar o porco”…

 

 

Médico competente

 

     Hipcondríaca ao extremo, dona Abilátria Dalvínia tem o maior medo de bater as botas. Outro dia, pegou uma gripe lascada e já ficou pensando no pior: “Será a zica ?” “Será chicungunha?” Na dúvida, ela pegou o telefone e ligou pro doutor Licordino Salésio:

     – Estou mal, meu filho! O meu grande medo é ser enterrada viva! Há esse risco?

     E doutor Salésio:

     – Bem, dona Abilátria… tudo depende da competência do médico, entende? Garanto que isso jamais vai acontecer com um paciente meu. Ele morre verdade, mesmo!

 

 

Maravilhosa catarata!

 

     O ofalmologista Oneócrates Amado era um sujeito romântico, além de poeta extremamente apaixonado. Também amante da natureza, apreciava escrever poesias.

     Belo dia, encontrava-se em seu consultório quando surgiu uma paciente cinquentona, reclamando de “vista curta”. Ele a examinou e recitou:

     – Em seus olhos, minha cara senhora, eu vejo o maravilhoso espetáculo da natureza!

     Madame suspirou:

     – Meus olhos são tão bonitos assim, doutor?

     – Não, não. É que a senhora está com catarata.