Rívison Batista

11 de fevereiro de 2016

O aborto dos excluídos

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Era conhecido como Ratoeira, mas seu nome verdadeiro era Vinícius. Aspirava ser maestro porque quando via nas televisões de lojas alguma apresentação de orquestra, sempre admirava o homem que regia todo mundo. Tinha 9 anos de idade e morava na rua. A cidade passava por um inverno forte. Chovia e fazia muito frio embaixo do viaduto em que costumava ficar. “Minha mãe morreu de leptospirose, meu pai morreu de tiro”, dizia a criança a quem perguntasse o porquê de estar sozinho, com certo esforço para falar leptospirose. Os pais migraram do campo para a cidade quando ele ainda era bebê. A cidade não deu chances para a família. “Selva de pedra maldita, não tem trabalho”, falava o pai.

Certa madrugada, um jovem se aproximou de Ratoeira, que dormia encolhido coberto por um lençol sujo numa calçada. “Esse tiro vai pra você, projeto de marginal”. Quando o jovem puxou o gatilho, a arma falhou. “Sem bala!”, gritou o jovem para os amigos arruaceiros que olhavam a cena de longe, todos dentro de um carro importado. O rapaz voltou para o carro e partiram em disparada cantando pneu e dando gargalhadas. Uma senhora via a cena do sétimo andar de um prédio. “Aborto tardio, quase um aborto tardio. A sociedade doente se encarrega de abortar os excluídos”, filosofou a mulher. Vinícius era sorridente, comunicativo. “Tem um real, tio?”, “Tem pão aí, tia?”, perguntava para as pessoas nas ruas. “Gente, vou reger minha orquestra, quem gostar me ajuda”, dizia no meio de um ônibus lotado. Mexia os braços como um maestro e cantarolava uma melodia qualquer. Às vezes se lembrava de algum som de Mozart e fazia com tanta emoção que arrancava um ou dois elogios de passageiros. “Você tem talento, pegue esses dois reais e vá comprar comida, não drogas”, disse uma passageira.

Ratoeira via o estrago que o crack causava em muita gente nos cantos das calçadas desertas, nos becos que ‘pessoas normais’ não tinham coragem de entrar. “Ei, menino, eu sou modelo, sou desejada, sou gostosa, me apresenta teu pai”, dizia uma moça de 23 anos que aparentava ter mais de 40. Esquelética, pálida e dentes podres, mais uma habitante comum daquela ‘cracolândia’. O garoto não era burro em se meter nisso, mas já tinha cheirado cola de sapateiro para diminuir a fome quando não conseguia comida. Ratoeira tinha a sola do pé cascuda, não usava sandálias. Gostava de passar correndo pelas praças da cidade usando alguma camisa doada bem folgada, além do seu tamanho, às vezes suja do chão que dormia, às vezes rasgada pelo excesso de uso. Os policiais olhavam com desconfiança. “Daqui a uns seis anos, eu vou colocar esse aí no camburão”, afirmava um PM conversando com algum colega de batalhão. O sentimento de ameaça começava a germinar na sociedade quando olhava para uma criança órfã e desabrigada. Ratoeira não roubava, os pais sempre disseram que isso era errado, mas não tinha paz nas ruas. Sabia que, sozinho, podia morrer fácil.

Para vingar a mãe, matava todo rato que podia alcançar com pedradas ou pauladas. Era alimentado, muitas vezes, por pessoas que não se sentiam ameaçadas e serviam sopas e pães durante a noite para pessoas indigentes. O menino chegou aos 15 anos e a profecia do PM não se concretizou. Não foi para nenhuma unidade de internação masculina. Em um dos ônibus, regendo sua orquestra, uma senhora que perdeu o filho encontrou o menino que perdeu os pais. E, em um desses encontros que só a natureza humana proporciona, o levou para casa e um cuidou do outro por muito tempo. “A paz é o bem mais precioso que podemos ter. Muitas vezes, não a valorizamos, mas sentimos falta imediatamente quando a perdemos. A paz, para a composição musical, é fundamental”, dizia um professor dele na faculdade de Música após 10 anos de adoção. Vinícius, que não era mais Ratoeira, concordava, cheio de lembranças.

 

*Rívison Batista é jornalista (Obs.: A foto acima é do amigo repórter-fotográfico Adailson Calheiros.) – Os personagens descritos são totalmente ficcionais.