Ailton Villanova

7 de janeiro de 2016

A palavrinha do lacônico Sabino

    Laureado locutor esportivo, apresentador vitorioso de televisão, ator e diretor de teatro de grande sucesso, deputado estadual eleito com expressiva votação, o saudoso Sabino Romariz foi também um grande humorista. Exímio contador de piadas, também sabia ser irônico quando lhe apetecia.

     Sabino Romariz comandou no Canal 5, o programa A Vez do Povo na TV, de incrível audiência. Como ninguém, ele sabia mobilizar as massas em defesa dos mais necessitados. Foi por aí que conseguiu se transformar no fenômeno eleitoral que arrebatou mais de 35 mil votos do povão das Alagoas. E sentou-se, com todas as honras, numa das poltronas mais cobiçadas do plenário da Casa de Tavares Bastos. Infelizmente, não pôde reinar no parlamento por mais tempo, conforme reinou na televisão, diante das câmeras. Inexplicavelmente, não teve uma segunda oportunidade como parlamentar.

      Decepcionado, Romariz esquipou de Alagoas e foi esbarrar em Brasília, onde voltou a atuar no rádio, em concomitância com o exercício de redator na imprensa do Senado da República.

      Bom, voltando à época em que saiu consagrado das urnas como o deputado mais sufragado da história política de Alagoas, eis que protagonizou um espisódio risível, digno de registro, o qual vai abaixo papeado.

      Terminada a contagem dos votos daquele pleito, Sabino Romariz não teve mais sossego. Repórteres de todas as mídias de Alagoas passaram a assediá-lo. Mil entrevistas. Mil falações.

      Cansado de tanto responder às repetitivas indagações dos colegas da mídia, Romariz decidiu que deveria dar um tempo, para recuperar o fôlego. Mas a rapaziada insistia. No última dia das apurações das urnas, resultado já do conhecimento de todos, o candidato mais votado à Assembleia Legislativa, todo sorridente e feliz, deixava o Clube Fênix Alagoana quando foi abordado por um monte de repórteres. Dentre esses, o neófito Álvaro Tojal, de saudosa memória, que tentava romper a multidão que rodeava o recém-eleito:

    – Sabino! Ei, Sabino!

     E lá ía o Sabino na frente e o povo atrás.

     Álvaro insistiu:

     – Sabino!

     O eleito ouviu o chamado, virou-se e reparou que Álvaro Tojal exibia um gravador portátil. Ciente das intenções do repórter, ele foi atencioso:

     – Alvinho, depois eu lhe concedo uma entrevista exclusiva, combinado? Agora não dá, porque estou com um pouco de pressa!

     Persistente como o pai, o igualmente saudoso Luiz Tojal, o garotão persistiu, já com o gravador ligado:

     – Uma palavrinha, Sabino! Só uma palavrinha!

     Bom, se era só uma palavrinha, Sabino lascou lá:

     – Ôi!

     E foi em frente.

 

 

Ah, mas morreu ótimo!

 

     Do ilustre e saudoso anadiense Francisco Arlindo contam as mais hilárias histórias. Médico e deputado estadual com assento na Assembleia Legislativa de Alagoas, legou à posteridade a extrópica e abstrusa filsofia: “A vida é uma longa estrada que caminhamos sobre a qual”.

     Na opinião do jornalista e advogado Frederico Andrade, antigo cronista parlamentar, Chico Arlindo foi o rei do folclore político. Coração imenso, dedicou-se à saúde dos mais carentes com obstinação e determinação. Não tinha dia e nem hora para atender o povo.

     Em determinada ocasião, ao deixar o plenário da AL, foi abordado por um rapaz de aspecto simples:

     – Boa tarde, deputado…

     – Boa tarde, meu filho!

     – Tá me reconhecendo não, deputado?

     Chico Arlindo franziu a testa, fitou bem o jovem e explodiu:

     – Mas é claro que estou lhe reconhecendo!

     Aí, deu um forte abraço no cara.

     – Como vai o Renato, seu pai?

     O rapaz baixou a cabeça e respondeu, emocionado:

     – O pai morreu, deputado…

     Chico Arlindo deu um pulo para trás e arregalou os olhos:

     – O meu amigo Renato morreu?! Não me diga!

     – Digo, deputado. O meu velho, conforme o senhor sabe, era diabético, sofria de pressão alta, tinha cirrose hepática e câncer no figado…

     O deputado concordou, tristonho:

     – É verdade. Você está lembrado que certa vez descobri que ele também tinha gastrite e doença de chagas?

     – Tô lembrado.

     O parlamentar coçou o queixo, ajeitou o nó da gravata, soltou um pigarro e comentou, cheio de piedade:

     – Coitado do meu amigo Renato… Tão cheio de saúde!

 

 

Pra que mais de uma cara?

 

     Espirituoso, proseador emérito, poeta repentista dos mais competentes e festejados, Pedro Ferreira foi um político singular. Honrou o parlamento alagoano, apesar de nascido na Paraíba.

     Pedro Ferreira fez história nas Alagoas.

     Cidadão de alma limpa e coração aberto, pelejou muito na vida até chegar a ser deputado estadual. Antes, teve de calejar as mãos no cabo da enxada até vencer como empresário da construção civil. Na ponta da língua tinha resposta pra tudo.

     A seu respeito, escreveu, certa feita, Maria Neusa de Carvalho:

     “… No legislativo estadual, transformava o semblante de todos. Seja justificando requerimentos ou indicações, apresentando votos de congratulações, discorrendo sobre assuntos sertanejos, ele sempre teve uma ilustração para os seus comentários…”

     Verdade. Ninguém foi mais feliz que Neusa de Carvalho, ao resumir a figura parlamentar de Pedro Ferreira.

      “De sua privilegiada memória fluíam com incrível facilidade as imagens que davam cor e vida aos seus contos e poesias”, escreveu Temóteo Correia, parlamentar ilustre que nos honra com sua atuação na Assembléia Legislativa.

     Outra grande virtude de Pedro Ferreira: o humor sutil, descontraído, com que enfrentava situações até constrangedoras.

     Certa ocasião, discursando da tribuna da Assembleia Legislativa, ele não agradou a um parlamentar adversário, que o aparteou grosseiramente:

     – Vossa Excelência é um homem de duas caras!   

     Ferreira não perdeu a tranquilidade e nem o bom humor. Aproveitou o ensejo para uma tirada jocosa, à guisa de resposta:

     – Deputado, se eu tivesse duas caras, Vossa Excelência acha que eu estaria andando com esta?