Ailton Villanova

31 de maio de 2015

Deixando aos poucos

     O prestamista Pedro Militão, o Pedrão, era um tremendo boêmio. Nas homéricas farras que promovia no Jaraguá, sempre tinha como tempêro um magote de mulheres em seu redor. Brancas, negras, morenas, mulatas… não importava o tipo, espécie ou raça. Vestiu saia, à exceção de padre e escocês, era com ele mesmo.

     Casado com dona Mirandolina, uma senhora distintíssima e bastante religiosa, o Pedrão não tinha o menor pudor. Desfilava abertamente com as donas. Importava lá o que as pessoas dissessem ou deixassem de dizer. A vida era dele e fim de papo!

     Um dia, dona Mirandolina não aguentou mais o descaramento do sujeito e o chamou às falas:

     – Olha, Pedro, eu decidi não mais suportar as suas safadezas…

     E ele, com a cara mais cínica do mundo:

     –  Que safadezas, meu amor?

     – Se faça de inocente não, seu safado! Da próxima vez que me trair com essas raparigas sem-vergonhas, você vai ver…!

     – E o que é que eu vou ver, me diga?!

     – Peço o divórcio e uma pensão altíssima. E ainda vou complicar sua vida com um processo paralelo de danos morais. É mole ou quer mais? Lembre-se de tudo o que eu fiz por você!

     Pedrão se mancou:

     – Tudo bem, minha flor. Juro que a partir de hoje vou deixar de lhe trair.

     – Quero ver.

     Viciado em mulher do jeito que era, Pedrão não se segurou. Dia seguinte lá estava ele abufelado com a anãzinha acrobata do Circo Belga, que se achava instalado próximo a sua residência, no bairro do Prado. Um vizinho viu a cena e correu para avisar à dona Mirandolina, que pintou na parada com três-quentes-e-um-fervendo:

      – Cachorro! Ordinário! Cafageste! Canalha! Você me prometeu que não me trairia nunca mais!

      E o safado, na maior cara de pau:

     – Tá vendo não? Tô deixando aos poucos!

 

 

Ah, esse vem!

 

     Estava lá, o pastor, muito empolgado, fazendo o maior sermão em plena praça do Pirulito, bairro da Levada. Entre os curiosos, um bêbado chato pra burro.

     Bradava o pastor:

     – Caríssimos irmãos! Jesus virá em breve para salvar a humanidade!

     – Vem porra nenhuma! – era o bêbado complicando.

     O pastor irritou-se:

     – Não levem a sério esse bêbado intolerante, meus irmãos! Ele é um pobre coitado que está possuído pelo demônio! Mas Jesus virá, sim! Eu garanto que ele virá!

     – Vem o cacete! Ele tá mentindo pra vocês…

     – Não dêem ouvidos a este infeliz, meus irmãos. Vocês não veem que ele é um escravo do alcool? Jesus está chegando para nos salvar… e salvar esse bêbado miserável, também!

     – Cala a boca, pastor de merda! Jesus não vem, não!

     – Eu vou chamar o guarda!

     E o bêbado, girando nos calcanhares:

     – Ôpa! Deixa eu ir embora, que esse vem mesmo!

 

 

Cotovêlo inconveniente

 

     Horário de pico, seis e meia da tarde, mais ou menos. Lotadíssimo, um coletivo da linha do Benedito Bentes trafegava com destino ao bairro sobredito. A passageirada espremida lá dentro, naquele clima de lata de sardinha. E o cheiro de sovaco? Pelamordedeus!

     Entre os passageiros encontrava-se o diarista Everculádio Barbacena, que mal podia respirar. Ao seu lado, um companheiro de viagem falou:

     – Plurflerrrglurrgh!

     Outro passageiro que estava mais a frente virou-se e, curioso, perguntou ao Everculádio:

     – O seu amigo aí é estrangeiro?

     – Não, não. Ele tá falando pra eu tirar o cotovelo da boca dele!

 

 

Frutos do mar

 

     Caminhando com certa dificuldade, o bebaço entrou no restaurante do Duda, na Barão de Penedo e pediu ao Javan, filho do dono:

     – Ô garotão, eu vou querer um filé com fritas e uma salada de tomates, tá ligado?

     E o Javan, sempre bem educado:

     – O senhor não leu a placa lá fora? Hoje, sexta-feira, a gente só está servindo frutos do mar.

     E o bêbado, sem perder o rítmo:b

     – Tá legal. Então me dá uma banana d'água!

 

 

Mas, que venta?

 

     O Carlão pegou o filho Cacá e levou com ele à visita que estava indo fazer a um amigo hospitalizado, que fora atropelado por um ônibus, no Farol, e ficara com o nariz em pandarecos. No caminho, ele advertiu ao garoto:

     – Olha, Cacá, nós vamos visitar o Antenor, no hospital. Mas, pelo amor de Deus, não comente nada sobre o nariz dele, tá ouvindo?

     – Tô, pai. Pode deixar.

     Chegaram ao hospital e o pentelhinho começou a encarar o Antenor. Em dado momento, falou pro pai, o suficiente alto pro paciente escutar:

      – Ué, paínho, não entendi por que você pediu pra eu não falar nada sobre a venta do tio Antenor. Ele nem venta tem!

 

 

A grande novidade!

 

     Turistas do Sul Maravilha vieram às Alagoas para conhecer o Sertão velho e sofredor, tão cantado em prosa e verso por poetas e escritores famosos. Pararam no único bar inserido na caatinga e saborearam uma cachacinha com tira-gosto de tripa assada de bode.

     Quando se preparavam para a partida, notaram nuvens cinzentas agrupando-se no céu e um deles perguntou ao dono do boteco:

     – Será que vai chover, meu amigo?

     E o sertanejo:

     – Ispero qui sim. Não tanto pur eu, num sabe? Mas pelo meu fio de 20 ano. Eu já vi chuva!