Ailton Villanova

14 de maio de 2015

Outra surra, não!

      Dona Martha Mercedes acordou às 4 da manhã com o barulho da chave na fechadura da porta da frente e pensou: “É o cretino do Adilson!” Ato contínuo, jogou o pensamento de lado, pulou da cama, correu até a cozinha, pegou um porrete e foi abrir a bendita porta. Abriu-a, mantendo a luz da sala apagada, para dar maior ênfase à surpresa preparada para o marido.

      Assim que dona Martha reparou, pela abertura da porta, numa cabeça dando sopa, ela não contou conversa: enfincou o cacete pra frente sem dó e nem piedade – pou, pou, pou…

      Berros terríveis vararam a madrugada.

      A voz… Aquela voz não era a do Adilson! Mais que depressa, dona Martha acendeu a luz e reparou na pessoa que ela havia agredido selvagemente. Era o vizinho do lado, Astrogildo Panta.

      – Vizinho! O que o senhor está fazendo na minha casa esta hora?

      E o infeliz, apresentando uma enorme rachadura na testa, que expelia sangue pra todo lado:

      – E esta é a sua casa?

      – Claro que é, seu Astrogildo!

      – Eita diabo! – suspirou ele, liberando um bafo etílico de 500 mil barris. – Errei de residência! A senhora me perdoe pelo amor de Deus!

      – Tá perdoado! Eu bati no senhor desse jeito pensando que era o cachorro do meu marido. Me perdoe, também!

      – Tudo bem, vizinha. Mas será que a senhora poderia me fazer um grande favor?

      – Se estiver ao meu alcance… Que favor, seu Astrogildo?

      – Dê um pulinho na minha casa e avise pra minha mulher que eu já apanhei por hoje. Outras porradas dessas eu não vou aguentar!

      Dito isto, Astrogildo esparramou-se no chão, em estado comatoso.

 

Cheio de dúvidas…e de pontas  

      Manuel Alves, nascido em Portugal, veio morar em Maceió. Tendo aqui chegado solteiro, nos anos 50, fixou residência no antigo distrito da Cambona e logo casou-se com uma funcionária da fábrica de Biscoitos Brandim, a bonita Marly.

      Passados alguns anos de matrimônio com aquele pedação de mulher, Manuel cismou que estava sendo corneado. É que Marly chegava tarde todas as noites, ganhava mil presentes e, sexo com ele, nécas. Até que, um dia, resolveu seguir a mulher para constatar se era corno mesmo.

      Na Praça dos Martírios ele viu Marly encontrar-se com um bonitão alto, forte, pinta de galã. Correu mais pra perto e viu quando eles entraram num fusca. Na hora ia passando um taxi. Manuel deu com a mão, o veículo parou, ele entrou e disse para o motorista:

      – Siga aquele fusca!

      O taxi seguiu o casal de adúlteros até um motel no Barro  Duro, mas o português pediu ao motorista que fizesse meia-volta e o deixasse em casa, o que foi feito.

       Quando Manuel descia do taxi na porta de casa, deu de cara com o vizinho, e com ele desabafou. Contou a aventura que tinha tido sem omitir detalhe nenhum e, por fim, desabafou:

      – A minha dúvida é terrível, seu Jair. O que diabo a Marlizinha foi fazer no motel com aquele gajo, me diga!

 

“Este é que é o emprego!”

      O penúltimo emprego do Pedro Natanael foi no mercadinho do velho Elpídio Cardoso, localizado no Tabuleiro do Martins. Teve de ser dispensado pela maneira grosseira como tratava a clientela.

      Natanael foi chamado às falas pelo patrão depois de ter dado o maior esbregue em dona Minervina, uma senhora idosa e freguesa de maior consideração do velho Cardoso.

      – Agora você passou dos limites, cabra! – ralhou o dono do mercadinho. – Por esse motivo vou ser obrigado a dispensá-lo. Aqui, todos os fregueses merecem consideração e respeito, porque eles sempre têm razão. Arrume um emprego onde você possa tratar mal todo mundo e se dar bem.

      Pedro Natanael desapareceu das vistas de seu Elpídio durante um tempão. Belo dia, quando o velho dirigia o seu automóvel pela Via Expressa, foi parado por um guarda de trânsito todo cheio de moral. Olhou para o indivíduo e não conteve a exclamação:

      – Mas é você, rapaz! Parece que agora você esta se dando bem, não é?

      – Falou, seu Elpídio! Este é o emprego que sempre pedi a Deus! Aqui, o freguês nunca tem razão! Ai dele se reclamar!

      E lascou uma multa de arrepiar no antigo patrão, “por excesso de autoridade e desacato a autoridade”.

 

Sem carteira e biritado

      Mailson Ferreira, biriteiro dos mais complicados, insere-se com destaque na turma do “banda voou”. Toma todas e ainda quer mais. Ao volante de seu carango é uma temeridade. Segundo seu cunhado Gastão Pedrosa, ele já acabou mais de trinta automóveis, entre trombadas, viradas e capotamentos. E ainda está inteiro, o peste!

      Num dia de sábado, ele dirigia embriagado, como sempre, o seu maltratado Gol, que ganhou o apelido de “Maracujá”, pela Avenida Penedo, bairro do Feitosa, quando esbarrou numa fila enorme de veículos. Lá na frente, um guarda, suando por todos os poros, tentava organizar o trânsito, soprando no apito. Aí, o Maílson adiantou carro e parou junto ao militar, que bronqueou:

      – Por que parou, rapaz? Estou fazendo o sinal para você avançar!

      E o Maílton, com o seu tradicional bafo de onça:

      – Ah, desculpe, seu guarda! Eu pensei que o senhor tivesse me mandando parar porque eu estou dirigindo bêbado e sem carteira de habilitação.

       Maílson foi preso na hora e o seu carro recolhido ao depósito do Detran.

 

Perdeu a aposta, mas falou!

      Quando está alcoolizado, o que é quase sempre, o Catarino Urbano é considerado o dono da “língua mais solta da cidade”. O cara fala além das medidas e é só ele quem faz uso da palavra, mais ninguém. Num final de semana desses, lá estava ele tomando a sua cervejinha na birosca do Tonho Calcanhar de Peru, excepcionalmente calado. E todo mundo de olho nele, que ainda estava sóbrio.

      Em dado momento, o motorista Júlio Venta de Urubu, que era um dos preocupados com o Catarino, achou de bolar uma ideia para mantê-lo de bico calado, já que ele começava a dar sinais de embriaguez. E Catarino biritado é caixão e vela preta.

      – Bicho! Tô a fim de fazer uma aposta com você! – disse o Júlio.

      E o Catarino, já temperando a goela:

      – Qualé a aposta?

      – Eu lhe pago 20 paus se você continuar calado por pelo menos mais uma hora!

      Os olhos do cara brilharam:

       – Topo!

       – Então, vamos lá! A gente conta a partir de agora, certo?

       – Certo.

       A negrada biritando e o Catarino, idem. Júlio com um olho nele e outro no relógio. Dez minutos, e o falador mudo. Quinze minutos, olha ele de boca fechada! Vinte minutos, silêncio total.

      Mas…

      Transcorrida meia hora, o falador deu uma temperada caprichada na goela, uma olhada no relógio, arregalou os olhos e, não conseguindo se controlar, abriu o bocão:

      – Meia hora! Eu não aguento!

      E virando-se para o Júlio, completou:

      – Me paga a metade, bicho! Uma hora sem falar é muito tempo pra mim!

      E não parou mais de falar. Teve de sair do bar na base do tapa e falando, falando…