Ailton Villanova

10 de maio de 2015

Segura a barra, companheiro!

     Homem de bem, cidadão de conduta irretocável, o jornalista e delegado de polícia civil aposentado Valmari Vilela só tem medo de uma coisa na vida, segundo ele próprio confessa: dirigir veículo automotor, apesar de possuir pelo menos dois deles na garagem do condomínio onde reside.

     Cronista esportivo competentíssimo, quando pega um microfone de rádio para comentar uma partida de futebol ou para referir-se a qualquer tipo de atividade esportiva, ele o faz com elegância e categoria. Por isso, e pelo mais que já foi dito linhas acima, é respeitado e admirado. Só não conseguiu, ainda, uma única façanha: escapar da inveja dos medíocres.

     Valmari Vilela bem que tem tentado firmar-se ao volante de um carro. Já gastou uma nota preta com auto-escolas e estragou mais de vinte carros tentando aprumá-los na estrada, sem sucesso algum. É muito estrago!

     Quando Valmari quando comprou o seu primeiro automóvel – lá se vai um tempão -, ele ensaiou um pedido de ajuda ao jornalista Claudemir Araújo, velho companheiro de jornadas esportivas:

     – Tô com um probleminha, meu irmão…

     E o Claudemir, sempre solidário e solícito:

     – Pode dizer qual é o galho, companheiro.

     – É que ainda não sei tirar o carro da garagem. O resto, eu tiro de letra!

     Claudemir adivinhou a intenção do amigo:

     – Já sei qual é a jogada. Você quer que eu vá tirar o carro da garagem, não é?

     – Se der pra você…

     – Claro que dá. Vamos lá!

     Foram. Os dois sairam da emissora onde trabalhavam e se mandaram até a residência do Valmari, que, à época, ficava no bairro do Poço. Chegaram lá, Claudemir pegou o carrinho zerinho do Vilela e botou na rua:

     – Tá bom?

     Agadecido, Valmari Vilela confirmou:

     – Tá jóia! Mais um favorzinho só, Claudemir… Dá pra você levá-lo até a esquina? De lá em diante é comigo.

     Na tal esquina passa a Avenida Brasil. Claudemir entregou o volante ao colega justo aí, e sentou o banco do carona.

     Todo ancho, Vilela agarrou firme no volante e disse por cima do ombro:

     – Se segure!

     Dito isto, arrancou cantando pneus e começou a fazer ziguezague na pista. Com o coração quase saltando pela boca, Claudemir Araújo advertiu:

     – Cuidado, que aí atrás vem um ônibus!

     Ah, pra quê! Valmari enfincou o pé no freio com gosto de gás. O carro deu um cavalo-de-pau, subiu a calçada, passou por entre um poste e um muro residencial e foi de encontro a um caminhão que passava do outro lado da rua. Vabei!

     Ainda zonzo, refazendo-se do choque, Claudemir Araújo ouviu o Valmari Vilela dizer, lá da esquina:

     – Segure a barra aí, que eu vou me mandar!

     – Ei, rapaz! Espere aí! – respondeu Claudemir, assustado.

     E Valmari, marcando carreira:

     – Olha, quando a perícia do Detran chegar, diga que era você quem estava dirigindo, tá legal? Eu não tenho carteira de motorista!

     Claudemir só não foi preso porque é filho de coronel. Mas passou por maus bocados.

 

 

E o folião morreu mesmo!

 

     A época era carnavalesca. Equipes de locutores e repórteres de tudo quanto era emissora de rádio (ainda não tínhamos televisão) de Maceió se revezavam na Delegacia de Plantão, que ficava na rua Boa Vista, centro de Maceió. Num desses plantões se achava o baixinho Wellington Oliveira, irmão do Warner (repórter esportivo) atuando pela Rádio Gazeta.

     A concorrência era grande. Os radio-repórteres eram orientados no sentido de não levarem “furos” jornalísticos de jeito nenhum. Informar depois dos concorrentes, nem pensar.

     No domingo à noite, a frevança “comendo um galo” filho da mãe na Praça Moleque Namorador, eis que chega à Deplan a informação oficiosa dando conta de que dois foliões teriam se engalfinhado, cada um deles empunhando uma faca-peixeira de 12 polegadas. Acrescentava a notícia que, ao final da contenda, os desafetos estariam de canelas esticadas no asfalto e dentes virados pro ar.

     No afã de informar em primeira mão, Welington Oliveira não procurou checar se a comunicação era verdadeira, ou não. Ele pegou o microfone acoplado à “maleta-de-som” portátil, chamou o estúdio, recebeu o “passe livre” chamou na grande:

     – E atenção ouvintes! Informamos em primeira mão daqui da Deplan, que acaba de ocorrer um duplo assassinato no carnaval da Ponta Grossa, mais precisamente na Praça Moleque Namorador. As vítimas são os foliões Genésio Porciúncula e Oriolano Urubá. Seus corpos já estão sendo trasladados para o IML. Aguardem detalhes, porque voltaremos a informar “in loco”, daqui a instantes”…

    Familiares do citado Oriolano Urubá, que moravam no Vergel do  Lago, escutaram a notícia e se alvoroçaram. E haja meio mundo de gente a chorar na casa do folião. A mulher dele, dona Maria Tricolina, conhecida no bairro pelo seu destempêro verbal, amarrou o cabelo para trás, calçou as chinelas e se mandou para o IML. Chegou lá, foi informada pelo necropsista José Maria que o Urubá , jamais teria dado entrada alí:

     – O único cadáver que chegou da Ponta Grossa, foi o do finado  Genésio Porciúncula! – explicou o necropsista. – Ele tá lá na pedra, todo “pepinado” de faca!

      Enquanto isso, o Urubá era submetido a melindrosa cirurgia no Pronto Socorro.

      Revoltada com a “infundada” notícia, dona Odete deu meia-volta e rumou para a Deplan, a fim de tomar satisfações com o repórter. Na tábua da venta do Wellington ela despejou o que estava sentindo:

      – Incompetente! Irresponsável! Como é que você tem a capacidade de aterrorizar uma família inteira com uma notícia mentirosa dessa? Meu marido está vivo! Agora, seu safado, faça o favor de desmentir a notícia! 

     O baixinho Wellington, que sempre foi muito abusado, respondeu no mesmo tom: 

     – Tá vivo, mas vai morrer, se Deus quizer!

     Só foi ele fechar a boca para a notícia explodir, em “audição extraordinária”, através do rádio da caminhoneta de frequência modulada, que se achava estacionada na porta da Deplan:

      – Atenção, atenção ouvintes! Acaba de falecer no Pronto Socorro, o folião Oriolano Urubá, vítima de esfaqueamento na Praça Moleque Namorador!

     Ao escutar a notícia, Wellington Oliveira deu uma cambalhota no ar, encarou a mulher e berrou:

    – Eu não disse? O seu marido morreu! Ouviu? Ouviu, sua criatura desprezível? Agora, vá se lascar!

    A polícia teve um trabalho danado para segurar a mulher. Ela queria de todo jeito assassinar o repórter.

 

 

Cavalo selado apenas, não basta!

 

     A vida do Benevaldo Lucas, o Bené, e a de sua esposa Francineide, a Neidinha, bem que poderia ser contada em capítulos, numa coleção de livros de piadas.

     Na última viagem que fez a Dois Riachos, o Bené inventou de comprar um alazão. O radialista Arivaldo Maia, que lá se encontrava, gamou no animal.

      Bené comprou o cavalo, e agora? Não sabia montar. Foi o próprio Arivaldo quem indicou o instrutor que lhe deu as primeiras coordenadas:

      – Em primeiro lugar, é preciso selar o cavalo. O animal tem que estar bem selado para a cavalgada, entendeu?

      – Entendi. – respondeu o Bené, muito compenetrado.

      E o instrutor passou uns vinte minutos ensinando ao cara como era o babado. Depois disso, Bené pegou o belo exemplar cavalino, botou numa caminhoneta, trouxe para Maceió e soltou no sítio que possui no Tabuleiro do Martins.

      Dia seguinte, ele ligou para o instrutor:

      – Olha, meu amigo, comprei os selos no correio e selei o bicho todinho. Só que, mesmo assim, ele não quer sair do lugar!

      Aí, a Neidinha que escutava o telefonema do marido, achou de interferir:

      – Ô meu amor, como tu é burro! Selar o cavalo só, não basta! Se tu não botar o CEP e o remetente, o coitadinho não vai saber pra onde ir!…