Ailton Villanova

3 de maio de 2015

Aristolino, o suicida bizarro!

      Beiços pintados de um incrível vermelho e toda perfumada, Maria Raquel parou na porta, encarou o Aristolino e falou decidida e secamente:

      – Estou indo embora!

      Perplexo, Aristolino agarrou-se ao portão sobre o qual se achava debruçado e retrucou:

      – Você está louca, mulher?!

      E ela fria, impassível, cruel:

      – Não estou louca coisa nenhuma! Vou lhe deixar e pronto! Dá mais não, Ari…

      – Não dá mais por quê, meu amor?

      – Cansei. Só isso. Vou-me embora!

      – Pra onde?

      – Pra casa dos meus pais, na Ponta Grossa, ora! Não foi lá onde você me encontrou?

      O domingo estava cinzento, o céu cheio de nuvens carregadas. O sábado inteiro tinha sido de chuva… e deles dois. Raquel e Aristolino haviam gastado todo o dia anterior rolando na cama, fumado incontáveis cigarros, depois de reiterados goles de rum com refrigerante. Havia um ano viviam juntos, numa boa. Nenhuma briga, a menor discussão. Aquela atitude da Raquel era incompreensível.

      – Você endoideceu Quelzinha! Só pode ter sido! Sair de casa, assim, sem quê e nem pra quê!

     Cabeça baixa, soluço sufocado na garganta, o machão baqueou. As lágrimas rolaram pela cara abaixo.

      – Se você me largar eu morro! – desabafou Aristolino.

      – Morre nada! – duvidou a mulher.

      – Morro! Eu me mato!

      – Ah, Ari, drama pra cima de mim, não, tá legal?

      – Tô falando, Quelzinha. Eu me mato!

      Encostado no portão, Aristolino impedia a passagem da Raquel, que segurava uma valise. Poucas coisas dentro dela – algumas roupas, objetos de maquiagem… besteiras. Diante do portão parou um velho desdentado, carregando uma pequena cesta:

       – Vocês vão querer amendoim torradinho? – perguntou.

       Ninguém respondeu, ele insistu:

       – É amendoim de primeira, meu patrão. Vai querer?

       Aristolino decidiu:

       – Não! Agora se mande!

                                                          * ****

      Dentro de casa, a televisão ligada, todas as luzes acesas, um sabiá cantava. Plantada na soleira da porta, Raquel encarava o Aristolino:

      – Sai da frente que eu vou passar!

      E ele, lacrimoso:

      – Saio não, Quelzinha! Fica, pelo amor de Deus!

      – Fico não! Já disse que não fico? Não fico, pronto!

      Na gaiola, o sabiá firmou-se nas canelinhas, baixou a cabecinha, Ari gemeu:

      – Você quer me ver no caixão, não é?

      Sarcástica, Raquel respondeu:

      – Até que seria uma boa!

      – Ah, meu Deus! Como você é insensível!

      – Sai da frente pra eu passar, Ari. Daqui a pouco começa a chover de novo e eu vou me molhar toda, até o ponto do ônibus…

      – Saio não. Por aqui você só passa se for por cima do meu cadáver!

      – Além de dramático, você é cínico!

      – E você é uma bandida!

      – É a mãe! Bandida é a mãe!

      Nesse momento a loucura apossou-se do Aristolino. Ele pulou no terreiro, esticou o dedão em direção a Raquel e acusou:

      – Já sei! Você arrumou outro cara, sua puta!

      – Puta é o cu da sua mãe! Me respeite, seu cachorro!

     E ele, descontrolado, furioso, muito doido:

     – Pensa que não sei? Você arrumou outro! Pra você eu não passou de um… um…

     – … corno!

     – Corno?! Eu sou mesmo corno, Quelzinha?

     – Você é quem está dizendo!

     Aristolino aprumou-se e partiu pra cima da mulher. Pegou-a pelo pescoço, encostou-a na parede e berrou na venta dela:

      – Fala! Fala, Quelzinha! Eu sou corno?

                                             *****

 

                  O domingo cinzento empreteceu rapidinho. Então, a chuva desabou violenta. Cada pingo parecia uma flexada no chão.

                  Sufocada, cara arroxeada e com os olhos esbugalhados, Raquel balbuciou:

                  – É não, Ari. Você não é corno não, porque eu nunca fui puta!

                  Aristolino afrouxou a pressão e, patético, cara lavada de chuva, resfolegou:

                  – E então por que você está querendo me deixar, nojenta?

                  – Nojenta é a mãe!

                  – Responde, Quelzinha?

                  – O quê?

                  – Por que você está indo embora?

                  – Eu já lhe disse que cansei de você!

                  – Eu não vou deixar você ir!

                  – Vai! Vai, sim! Você não é meu dono!

                  – Sou! Sou seu dono, sim!

                  – Eu chamo a polícia!

                  – Pois chame a polícia!

                  Raquel abriu o bocão:

                  – Socooooorrrooo! Políííííciaaa!

                  Na casa ao lado assomou à porta um vizinho parrudão, que quis saber o que estava ocorrendo. Aristolino respondeu:

                  – Fique na sua, meu irmão! Aqui se trata de briga entre marido e mulher!

                  Raquel aproveitou o momento para reiterar o pedido de socorro:           

                  – Me acuda, seu Galileu! Esse monstro está querendo me matar!

       Num minuto a vizinhança inteira tomava conta da rua Santo Antônio, pedacinho acidentado do Vergel do Lago. E todos decidiram socorrer a Raquel.

       Quando ela dobrava a esquina da rua esburacada e lamacenta, enfim a caminho da liberdade, ouviu o grito desesperado do ex-amor:

       – Eu vou me matar, sua desgraçada! E a culpa será sua!!

       Determinadíssimo, Aristolino, então, se preparou para cumprir a promessa, à moda dos suicidas mais radicais: encheu um copo de água com veneno de rato e despejou dentro do dito cujo uma enorme quantidade de vidro ralado. Em seguida, bebeu a inusitada e corrosiva mistura. Depoís, correu até o banheiro, pegou uma lâmina de barbear, cortou os pulsos e, finalmente, deu um tiro de revólver na própria cabeça.

       Apesar de tudo isso o infeliz não morreu! Quem morreu foi a Raquel, quando atravessava a rua para pegar o ônibus que a levaria à casa dos pais. Foi atropelada por um trator da prefeitura.