Ailton Villanova

18 de abril de 2015

Cacá, o Verso e a Prosa

 

    A professora Cecy Dília é muito ligada no barato da cultura. Poesia, então, nem se fala! Volta e meia, está estimulando o interesse do alunado para esse lado. Numa de suas últimas aulas, a ilustre mestra explicava à garotada o que era prosa e o que era verso:

     – Prestem atenção, meninos… Verso é o conjunto de palavras que possuem rima, entenderam? Por exemplo: “minha terra tem palmeiras/ onde canta o sabiá/ as aves que aqui gorgeiam/ não gorgeiam como lá”. Viram? Sabiá rimou com lá.

     E os meninos:

     – Entendemos, professora!

     – Muito bem. Agora, vamos ver o que é prosa. Atenção! A prosa não exige rima. Vou dar também um exemplo: “Eu olho a lua e a lua me deixa apaixonada”. Será que os meus queridos alunos compreenderam direitinho?

     – Compreendemos. – responderam todos, em coro.

     Cecy Dília entusiasmou-se:

     – Fabinho, dê um exemplo de verso.

     O menino lascou lá:

     – Batatinha quando nasce/ se esparrama pelo chão/ o Fabinho quando acorda/ faz xixi pelo colchão…

     Os olhos da professora brilharam:

     – Muuuiiito bem, Fabinho! Estou muito orgulhosa de você! 

Chão rimou com colchão.

     A professora fez uma pausa e apontou para outro aluno:

     – Daví, me dê um exemplo de prosa.

     O garoto levantou-se e deu aquela puxada:

     – Eu amo a professora Cecy do fundo do meu coração!

     – Ai meu Deus! Que emoção! Daví, você foi ótimo! Sem rima, é prosa. Parabéns!

     Percebendo que o aluno Cacá estava completamente alheio ao assunto, a mestra chamou-o com rispidez:

     – Cacá!

     O fedelho levantou o rosto e encarou a professora:

     – A senhora quer prosa ou quer verso?

     – Verso.

     Então, ele chamou na grande:

     – Eu tenho uma professora/ que se chama Julieta/ ela tem …muito cabelo/ bem em cima da… – e parou, desafiando a mestra – verso ou prosa, professora?

     Tentando evitar o pior, Cecy Dília apressou-se em escolher:

     – Prosa, prosa…!

     E Cacá disparou, completando:

     – … do umbigo!

 

 

Segredo revelado

 

     Sidclay, primo do Cacá, é outro pentelho que dá um trabalho danado. Certo dia, ele pegou um coleguinha dando sopa no condomínio onde moram os dois, e disse:

     – Carlinhos, eu descobri um jeito muito fácil de ganhar dinheiro!

     – Descobriu? Me conta como é!

     – É simples. Você chega pro seu pai e fala: “paínho eu sei toda a verdade”. Aí, ele vai dar dinheiro pra você, na hora!

     O garoto animou-se todo e correu pro pai:

     – Eu sei toda a verdade!

     – Por favor, meu filho, não conte nada pra sua mãe. Tome aqui cinco reais.

     O menino saiu todo contente e decidiu ir mais além, fazendo a mesma jogada com a mãe:

     – Maínha, eu sei toda a verdade!  

     Madame quase desmaiou. Suando frio, ela pediu:

     – Pelo amor de Deus, não diga nada pro seu pai. Eu lhe dou dez reais… Tome aqui!

     Empolgado com o sucesso das suas chantagens, o pequeno discípulo do Sidclay achou de ir mais fundo:

     – Vou sair por aí fazendo a mesma coisa com todo mundo.

     Nessa hora, foi passando o síndico do prédio e ele não perdeu a oportunidade:

     – Ei, seu Agatenor! Eu sei toda a verdade, viu?

     O síndico reagiu surprêso:

     – É mesmo? Graças a Deus! Então venha me dar um abraço,  filhão!

 

 

Inconfidência à vista

 

     Num belo dia de feriado, três colegas de trabalho bebiam num barzinho praieiro. Depois de muitas rodadas de cerveja, um deles, pra lá de biritado, sugeriu:

     – Que tal a gente contar aqui um segredo que nunca contou pra ninguém?

     O segundo dos três alisou o bigode e falou com voz de trovão:

     – Legal! Eu nunca falei pra ninguém que sou gay!

     E o terceiro:

     – Eu estou tendo um caso quentíssimo com a mulher do nosso chefe!

     A palavra voltou para o primeiro, o dono da idéia das inconfidências, e ele ficou titubeando:

     – Olha… bem… eu não sei como dizer isso…

     Um dos amigos encorajou:

     – Ah, bicho, não fique sem jeito. Afinal, foi você quem inventou a brincadeira. Qual é o seu problema?

     – O caso é que eu não consigo guardar segredo!

 

 

Desculpa esfarrapada

 

     Todos os dias, seu Candinho, que era um dos fiscais do cáis do porto do Jaraguá, entrava num restaurantezinho modesto localizado no brega da saudosa zona do Duque de Caxias, pedia uma sopa, sorvia ela toda com invulgar satisfação e, no finalzinho, gritava pro garçom Jorjão:

     – Novamente, rapaz?! Outro pentelho na minha sopa! Todo dia tem um pentelho! Isso não é possível! Olhaqui! Esse de hoje é galego!

     E deixava o restaurante sem pagar a conta. O dono do restaurante, Nego Lula, já vivia com ar de doido com o velho Candinho.

      Um dia, depois de uma das broncas de seu Candinho, o proprietário do restaurante deu uma de detetive: seguiu-o com bastante cuidado, para não ser visto. E o que o Lula viu? Viu quando seu Candinho entrou num dos bordéis que infestavam o Duque de Caxias, e não contou conversa: entrou lá, também.

      Nego Lula esperou a hora exata e invadiu o quarto onde havia entrado o velho fiscal do cáis do posto. No que invadiu, flagrou seu Lula com a boca na botija, isto é, com a boca na xoxota de uma prostituta. Aí, deu o brado:

     – Aaarrrááá! Seu velhaco! Agora eu sei porque você não paga a minha sopa!

     Ao que o velho retrucou, sem perder o rebolado:

     – É, mas se eu encontrar um macarrão aqui, eu também não pago!

 

 

Nem todo mundo é muquirana!

 

     Melquizedeque Garrueira, sujeito previdente, casou-se com a morena Neozaldina que, apesar de muito da gostosa, aparentava ser bastante modesta. Pensando no futuro, o sujeito fez uma inusitada proposta à cara-metade:

     – É o seguinte, minha nega… toda vez que a gente transar, a gente coloca uma nota de 1 real neste cofrinho. É uma maneira divertida de fazermos uma poupança. No fim de cada ano a gente abre e vê quanto juntou, tá legal?

     A esposinha topou a parada e no final do ano, Melquizedeque abriu o cofrinho e encontrou além das notas de 1 real, notas de 5, de 10 e até de 50 reais.

     – Êpa! Peraí! O que é isso?! Aqui tem notas de cinco, dez e de cinquenta!!!

     Neozaldina:

     – E você tá pensando que todo mundo é pobre e pão-duro que nem você, é?

 

 

Ah! Coitadinha da noivinha!

 

     As irmãs septuagenárias Alzira e Zulmira resolveram curtir uma espécie de férias e escolheram a cidade de Maragogi para tal. Pegaram um daqueles hotéis bem bacanas à beira-mar e se instalaram, justo, no quarto anexo ao de um casalzinho em lua-de-mel. Numa certa hora, dona Zulmira escutou uns rumores estranhos no aposento ao lado e foi até a varanda para escutar melhor o que alí estava se passando. Nessa hora, o marido falava para a esposinha:

      – Dulcinha, meu amor, vou beijá-la como ninguém a beijou!

      Aí, dona Zulmira virou-se para a irmã:

      – Alzira, ele vai beijá-la!

      E o maridinhlo, cheio de amor:

      – Vou abraçá-la como ninguém a abraçou, minha doçura!

      E a velhora para a outra:

      – Iiihh! Agora, ele vai abraçá-la, Alzira!

      E o recém-casado para a amada:

      – Agora, vou fazer com você o que jamais alguém lhe fez antes!

      E Zulmira, desesperada:

      – Jesus Santissimo!!! Ele vai matar ela!!!