Ailton Villanova

29 de março de 2015

Um ladrão bastante independente

      O delegado de polícia civil Antônio Rosalvo Cardoso, o Mamão, era titular da regional de Novo Lino quando eclodiu uma onda de arrombamentos em residências, lojas e mercadinhos em toda aquela circunscrição. Mamão quase enlouqueceu. A deia que se tinha era a de que uma quadrilha terrível estava querendo desmoralizar a polícia alagoana. Mamão bateu na mesa e berrou:

      – Desmoralização aqui, não admito! Eu pego esses bandidos ou não me chamo Mamão!

      Em meio as “incessantes diligências” para a captura da suposta quadrilha, policiais lotados na região de Novo Lino puseram a mão num ladrãozinho baixinho, amarelinho, barbinha rala, canelinhas finas, zambeta, olhinhos de macaco e o levaram a presença da autoridade. E tiveram uma bela surpresa!

      – Doutor, prendemos esse ladrãozinho fuleiro tentando arrombar uma casinha, ali na esquina… – falou o chefe dos policiais.

      Mamão olhou com desprezo pro marginalzinho e disse:

      – Não basta a perigosa e violenta quadrilha que anda me infernizando a paciência e ainda aparece você pra tirar onda com a nossa cara, seu moleque! O que era que você estava querendo levar da casa alheia, me diga, seu safado?

      E o larápio:

      – Nada não, autoridade. Eu tava só fazendo um “treinozinho” pro esquema pesado que bolei pra esta noite…

       – “Esquema pesado pra hoje à noite”, hein,?! Que “esquema” é esse, seu fiadaputa?

       – Era mais um arrombamentozinho que eu estava pretendendo fazer nesta cidade. O Local seria aquele armazém que fica por detrás da igreja…

       – Você e quantos mais?

       – Eu sozinho, doutor. E quem o senhor acha que vem fazendo esses arrombamentos por aqui?

       Aí, Mamão deu um pinote da cadeira e gritou:

       – Não brinque comigo, seu puto! Me diga quem são os seus parceiros!

       O meliante baixou a cabeça e respondeu com humildade:

       – Modéstia à parte, doutor, este seu criado aqui só trabalha sozinho…

       O delegado quase foi à loucura:

        – Não acredito. Vá logo me dando os nomes dos seus colegas da quadrilha, ou eu lhe quebro de pau! 

        – O senhor pode até me matar, tudo bem. Mas eu lhe garanto que sempre faço os meus roubos sozinho. Hoje em dia, doutor, a gente não pode confiar em ninguém. Tô certo ou tô errado?

       Mamão foi obrigado a concordar com o ladrão. E o jogou no xadrez.

 

Marido impaciente é a peste!

      Em face dos insistentes pedidos de dona Valdete, sua esposa, o contabilista James Vital entrou no carro e foi levá-la ao shopping, onde a madame pretendia “fazer umas rápidas comprinhas”, conforme lhe havia assegurado. Ao descer em frente a uma das entradas do shopping, Valdete falou pro marido:

      – Nego, me espere ali no estacionamento cinco minutinhos, tá?

      Era um sábado, e como todos os sábados, James Vital tinha compromisso com a patota de amigos de sempre: religiosamente às 16 horas começava o bate bola no campinho ao lado da casa do Neilton Lopes, no Farol. Valdete sabia disso.

      James havia parado no estacionamento do shopping cerca das 13 horas e ficou lá, aguardando pela boa vontade da Valdete. Calor danado, e ele transpirando por todos os poros, dentro do carro. Depois de hora e meia nesse suplício, James desceu do carro e foi lá dentro do shopping à procura da esposa. Não a encontrou em loja nenhuma.  Retornou ao estacionamento e danou-se a buzinar. Até que o pessoal da segurança resolveu interferir no sentido de que ele parasse com aquele escândalo todo.

      Perto das 19 horas, eis que surgiu na porta do shopping, toda feliz e sorridente, dona Valdete carregando uma montanha de pacotes. Logo atrás, um rapazinho especialmente contratado por ela, empurrava um carro de mão, contendo outra montanha de embrulhos.

      Madame Valdete parou junto de um dos seguranças, olhou para os lados e indagou com a cara mais inocente do mundo:

      – Por acaso o senhor não viu um homem zangado, num Gol azul, passar por aqui um monte de vezes?

      – É um gordinho de barba? – quis saber o segurança.

      – É! É, sim, senhor. Viu pra que lado ele foi?

      – Bom… a polícia levou ele preso, depois do escândalo que aprontou no estacionamento!

 

A perna doente era a outra!

      Doutor Dioclério de Lima era um médico antigão que clinicava na região litorânea, entre Porto Calvo e Matriz do Camaragibe, lá se vão milhares de anos. Com o tempo, ele foi ficando surdo e sua miopia se acentuando cada vez mais.

      Doutor Dió tinha mais de 90 anos quando faleceu. Até então vinha trabalhando duro, sem descanso, sem nunca ter se aposentado.

      Certa vez a atendeu a um paciente conhecido como Oséas do Rádio (um eletrotécnico residente em Porto Calvo), que havia sido atropelado por um caminhão canavieiro, perto de Matriz do Camaragibe. Nesse dia, doutor Dió estava clinicando lá. De modo que levaram a vítima até ele.

      – Então, meu caro Oséas, dói quando eu apalpo aqui? – perguntou o velho esculápio ao acidentado.

      – Dói não, doutor. Nadinha!

      – E aqui?

      – Também não!

      Depois de examinar a perna do paciente durante mais de meia hora, doutor Dió respirou fundo e concluiu categórico:

      – Se você não sente nada nesta perna, com certeza ela gangrenou! Vou ter que cortá-la imediatamente!

      Oséas do Rádio apavorou-se:

      – Cortar a minha perna, doutor?!

      – Mas é claro! Você sofre um acidente danado de grave, quebra a perna em vários lugares e ela não dói! Só pode estar com gangrena!

      – Mas o senhor está examinando a perna errada, doutor! A que está quebrada é a outra!

 

Ordem é ordem!

      Natural de São Miguel dos Campos, Pedro Santana, que na adolescência ganhou o apelido de Pedro Doido, achou de ingressar na Polícia Militar, quando o processo de seleção para praças da corporação não exigia muita coisa do candidato. E Pedro Doido já chegou na PM complicando! Não fazia nem um mês que fora incorporado e já pegou oito dias de xadrez, por “desobediência hierárquica”.

      A primeira coisa que se aprende no quartel é cumprir ordens sem questioná-las. Digo isso com a autoridade de quem lecionou na Academia da PM durante quase 20 anos. E Pedro Doido começou a entender de obediência hierárquica depois daquela cadeia. Entregou os pontos definitivamente quando o comandante da companhia onde servia, o despachou para trabalhar durante quinze dias na limpeza dos banheiros e sanitários do quartel. Depois daí, ao designá-lo para tarefas mais leves, o tal comandante chamou ele num canto e indagou:

      – Aprendeu agora, soldado?

      – Aprendi, meu capitão!

      Uma semana depois, olha o cara de volta à limpeza dos sanitários! Um dos cabos da companhia surpreendeu-se:

      – De novo, soldado? Pensei que você tivesse tomado jeito! O que houve dessa vez?

      – Não houve nada, cabo? Fiz tudo certinho como o sargento Pereira mandou. Não estou entendendo mais nada!

      – E o que foi que o sargento lhe mandou fazer?

      – Bom… segundo o sargento, o capitão me designou para trabalhar na oficina mecânica, com a recomendação específica de retocar a pintura do jipe que estava à disposição do comando da companhia. Aí, eu perguntei pra ele: “qual a parte que eu devo pintar, meu chefe?”. Então, o sargento gritou no meu ouvido: “é pra pintar todas as partes! Todas!”

      O sargento não mandou? Então, o soldado Pedro Doido pegou um pincel e uma lata de tinta e mandou brasa. Pintou a carroceria, os para-choques, os paralamas, os pneus, o volante, os assentos, os faróis e, naturalmente, todos os vidros, incluído o para-brisas.