Política

12 de Janeiro de 2018 07:44

Vizinhos podem ter encomendado crime que vitimou Nô Pedrosa

Polícia vai ouvir uma testemunha considerada importante que poderá esclarecer assassinato de militante anarquista

↑ Militante Nô Pedrosa foi covardemente assassinado antes do Natal na porta de sua residência (Foto: Reprodução)

A delegacia especializada em homicídios da Polícia Civil de Alagoas espera concluir até o fim da próxima semana o interrogatório das testemunhas e dos suspeitos do duplo assassinato ocorrido na antevéspera do Natal e que vitimou o militante anarquista Walfrido Pedrosa de Amorim, de 78 anos, conhecido como Nô Pedrosa, e um homem identificado como José Márcio dos Santos, de 38.

Ambos foram mortos a tiros na noite chuvosa de 23 de dezembro no interior de uma residência sem número da Rua Doutor Antônio Góis Barbosa, no bairro das Mangabeiras, próxima a uma tradicional revendedora de veículos.

No dia seguinte ao crime, surgiu a versão de que Nô teria sido morto por “efeito colateral”, já que o alvo do assassino seria José Márcio, um suposto assaltante abrigado provisoriamente na “Casa Aberta e Solidária” [propriedade de Nô], onde ele recebia moradores de rua e desvalidos sem teto que não tinham onde dormir.

Segundo o escrivão Edval Ferreira, responsável por tomar depoimentos dos envolvidos no caso, a polícia, que até a quinta feira (11) ouviu nove pessoas, aposta que o interrogatório de um morador de rua, que será inquirido na segunda-feira próxima (15), poderá esclarecer o crime.

“Essa pessoa já foi identificada, localizada e será ouvida. Há fortes indícios de que o crime possa ter sido encomendado por moradores próximos à casa de Nô, que se sentiam incomodados com a presença de possíveis drogados entre os hóspedes que ele abrigava”, revela o escrivão, acrescentando que isso só poderá ser confirmado após o fim do inquérito.

Edval Ferreira confirma que as cápsulas de balas recolhidas no local do crime são de calibre ponto 40, munição exclusiva das forças policiais estaduais. Mas ressalta que armas que utilizam este tipo de munição também estão em mãos de facções criminosas.

“Estamos aguardando o laudo da perícia que vai dizer se os projéteis encontrados nos corpos das vítimas são do mesmo calibre das capsulas localizadas na cena do homicídio”, informa Edval.

 

Mulher celebrou nas redes morte de anarquista

 

Entre as denúncias mais relevantes que chegaram à polícia está uma provável agressão que Nô Pedrosa teria sofrido por parte de um agente penitenciário duas semanas antes do crime por motivos ainda desconhecidos. Nesse mesmo contexto, ativistas dos direitos humanos pediram à polícia que uma mulher que se apresenta como servidora da Assembleia Legislativa do Estado (ALE) seja investigada, já que a mesma teria usado as redes sociais para comemorar efusivamente a morte de Nô, dando a entender que ela poderia ter participado da contratação de um presumido executor.

Nesse plano, uma professora, amiga de Nô, levanta a teoria de que o anarquista tenha sido vítima da pressão imobiliária na área onde ele morava.

“Há informações que incorporadoras estariam interessadas naquele quarteirão, mas que só construiriam ali depois de limpar a região dos indesejáveis, contando para isso com o apoio dos vizinhos incomodados com a ‘Casa Solidária’ que ele se recusava a vender aos especuladores”, escreveu a professora nas redes sociais.

Por último, especula-se que Nô e José Márcio podem ter sido executados por um grupo de extermínio que há anos mata moradores de rua em Maceió. “Todas essas hipóteses estão sendo investigadas”, enfatiza o escrivão de polícia, que prevê um desfecho breve para o caso.

QUEM ERA NÔ PEDROSA

O crime contra Nô Pedrosa ganhou repercussão estadual, principalmente porque ele era considerado uma figura histórica por militantes de esquerda e ativistas de lutas sociais.

Ao desenvolver um trabalho de conscientização política dos moradores de rua, incentivando-os a denunciar e combater as injustiças praticadas contra eles por autoridades públicas e grupos neofascistas, Nô se tornou um exemplo de lutador social a ser seguido.

“Ele fazia parte da paisagem urbana de Maceió ao discursar nas praças e ruas contra a safadeza dos políticos corruptos e ao cobrar mais ação da militância progressista diante do desmonte do estado brasileiro provocado pelo golpe de estado de 2016”, lembra Thyago Miranda, diretor de Formação Política do Sindicato dos Bancários de Alagoas e neto do jornalista Jayme Miranda, assassinado pela ditadura militar em 1975.

Filho de família abastada, Nô Pedrosa, ex-professor da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), trocou as benesses de uma existência que poderia ser tranquila por um modo de vida franciscano, acoplado ao alto risco de uma militância radical contra a direita. Preso e espancado inúmeras vezes ao longo de sua atribulada história por forças repressoras a serviço dos poderosos de plantão, pregava seu ideário político há 40 anos num palanque a céu aberto nas escadarias da Biblioteca Estadual da praça Pedro II, centro de Maceió, de onde conclamava o povo a lutar por uma revolução popular e libertária.

Sepultado em 26 de dezembro no cemitério Parque das Flores sob clima de intensa comoção, Nô foi saudado por discursos inflamados feitos por velhos amigos, moradores de rua e militantes de inúmeras partidos e correntes de esquerda, que se uniram na dor e na revolta contra o crime bárbaro. Ao som do hino da Internacional Socialista, coube ao ator Chico de Assis fazer a última homenagem ao veterano revolucionário, declamando, à beira do túmulo, o poema “Caminho Branco”, de Ledo Ivo, que na última frase diz: “… nem sequer levo nos meus olhos de menino a mancha rubra do sangue deixada pelo assassino naquela madrugada”.

 

Fonte: Tribuna Independente / João Marcos Carvalho, especial

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