Cidades

14 de dezembro de 2017 08:29

Hospital Psiquiátrico José Lopes deve fechar as portas até fim do ano

Informação é passada por funcionários do hospital; direção diz que divulgará posicionamento na próxima semana

↑ Funcionários do Hospital Psiquiátrico José Lopes, localizado no Mutange, já teriam recebido aviso prévio por conta do fechamento da unidade (Foto: Sandro Lima)

O Hospital Psiquiátrico José Lopes, localizado no Mutange, deve fechar as portas até o fim do ano. Esta foi a informação obtida pela reportagem da Tribuna Independente por funcionários do local. Apesar de não negar, a direção da casa de saúde afirma que o posicionamento só será divulgado na próxima semana.

A reportagem esteve no local e a informação inicial é de que os funcionários já teriam recebido aviso prévio por conta do fechamento do hospital. No entanto, nada é dito abertamente e não há detalhes sobre o número de pacientes ou funcionários que serão desassistidos.

Até mesmo a Secretaria de Estado da Saúde (Sesau) não soube informar a real situação do hospital, que por se tratar de uma instituição privada não possui vínculos com o órgão.

De acordo com o presidente do Sindicato dos Médicos de Alagoas (Sinmed), Wellington Galvão, a crise e iminência de fechamento vivenciada pelo José Lopes não é fato isolado.

“Eu sei por informações de colegas, não tenho detalhes da situação. Mas a situação de todas as casas de repouso, não só do Zé Lopes é típica. Desde que o Governo Federal decidiu acabar com os hospitais psiquiátricos, que foi uma atitude extremamente irresponsável, os pacientes psiquiátricos graves passaram a não ter assistência nenhuma. A família que tome conta. Hoje temos pacientes em casa, prisioneiros em suas casas, a família tem que construir celas nas suas próprias casas para manter esse paciente sem nenhuma condição de convívio com a sociedade. Esses pacientes tinham a casa de repouso como opção, hoje não têm”, ressalta o médico.

Galvão se refere ao entendimento da Organização Mundial de Saúde (OMS) e do Ministério da Saúde (MS) em dar fim à internação em hospitais psiquiátricos. O acompanhamento desses pacientes deve seguir modelos de acompanhamento psicossociais em moradias assistidas e/ou suporte nos Centros de Atenção Psicossocial (Caps).

“Existe um projeto de fechar esses hospitais e eles serem acompanhados em hospitais gerais, mas alguns pacientes não têm condições de convivência com a sociedade, mas a família não tem mais a quem recorrer. Os Caps não estão dando resolubilidade, isso é um problema. A situação deles [hospitais psiquiátricos] é difícil e vão acabar fechando todos porque não há mais recursos do Governo Federal para eles. Eles estão sem condições de se bancar. Não tem mais verba do SUS”, diz Wellington Galvão.

Uma profissional que trabalhava na instituição até o mês passado pediu demissão por conta da situação. A psiquiatra, que preferiu não se identificar, diz que o corte de recursos do Sistema Único de Saúde (SUS) fez com que a unidade deixasse de atender muitos pacientes.

“Eu saí de lá, mas o que sei é que está para fechar. Não sei ao certo quantos estão atendendo atualmente, mas na época que atendia pelo SUS eram muitos, uns 70 só no SUS. Mas aí o Ministério da Saúde começou a diminuir a diária e não tinha mais condições de manter o paciente. Não tem como sustentar”, reforça a psiquiatra.

O presidente do Sindicato dos Auxiliares e Técnicos de Enfermagem do Estado de Alagoas (Sateal), Mário Jorge, disse que é de conhecimento da entidade o fechamento do hospital. Ele, no entanto,  não soube informar a data do fechamento.

“Até onde soube, o hospital está sim para encerrar as atividades por conta que está passando por uma crise. Mas não sei precisar datas. Isto não foi passado pra mim ainda”, comenta Mário Jorge.

 

Hospital anunciou encerramento das atividades ainda em 2015

 

Em 2015, o Hospital Psiquiátrico José Lopes já havia anunciado o encerramento de suas atividades para aquele ano. O anúncio na época causou desespero nos familiares de pacientes que faziam tratamento no local. Na  época,  a direção da casa de saúde havia comunicado que estaria encerrando o atendimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e que na ala particular iria ser encerrado em alguns meses.

Em maio daquele ano, a direção havia feito uma reunião com familiares dos pacientes para solicitar que responsáveis pelos internos providenciassem a transferência para outras unidades. O que causou desespero aos familiares é que não havia vagas disponíveis em clínicas de repouso ou hospitais psiquiátricos, a exemplo do Portugal Ramalho, que atendesse pelo SUS na época.

Os familiares denunciaram a que existiam pacientes que foram deixados na clínica há anos e que não teriam para onde ir.

MPE

Os familiares dos pacientes decidiram procurar o Ministério Público do Estado de Alagoas (MPE/AL) para pedir intervenção no caso. E no dia 19 daquele mês programaram uma manifestação para chamar a atenção das autoridades e tentar evitar o fechamento da unidade.

A promotora de Defesa da Saúde Pública, Micheline Tenório, realizou uma reunião com a gestão da Secretaria Municipal de Saúde para obter informações sobre a situação exposta. Ouviu os relatos e pleito de comissões representativas de familiares e funcionários tanto da clínica José Lopes, como das outras citadas.

“Estamos ouvindo todos os envolvidos nessa situação, colhendo as informações necessárias para que possamos contribuir para solucioná-la, cumprindo a nossa missão de defender a saúde pública, por meio das providências cabíveis”, destacou a promotora.

A direção da unidade teria justificado aos familiares de pacientes que as diárias de um paciente atendido pelo SUS (cerca de R$ 30) seriam insuficientes para mantê-los vivendo no local e que a situação teria ficado insustentável.

A direção da clínica informou que desde já vinha trabalhando no vermelho e que a situação ficou insustentável. Parece que o fechamento agora é quase certo. A direção ainda não informou uma data oficial.

Fonte: Tribuna Independente / Evellyn Pimentel e Lucas França

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