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Saúde

08 Janeiro de 2017 - 11:30

Psiquiatra Audenis Peixoto explica como identificar e tratar transtorno bipolar

Doença pode resultar em relacionamentos prejudicados, desempenho insatisfatório profissional e até suicídio
Agência Alagoas
O transtorno bipolar não tem cura, mas pode ser controlado, diz especialista (Foto: Carla Cleto/Agência Alagoas ) O transtorno bipolar não tem cura, mas pode ser controlado, diz especialista (Foto: Carla Cleto/Agência Alagoas )

Imagine que você está dando uma volta emocionante numa montanha-russa que tem duração de dois minutos, com uma subida lenta de 62 metros, seguida de uma queda livre de 4 segundos, com velocidade máxima de 120 km/h. Ao fim do percurso, você ainda deve estar com um turbilhão de sentimentos confusos que nem mesmo consegue entender, devido ao sobe e desce e infindáveis curvas provocadas pelo brinquedo.

Pois é exatamente a mesma coisa que acontece com alguém que sofre de transtorno do humor bipolar (THB), uma doença caracterizada por variações ligeiras de humor, com fases de depressão e euforia, intercaladas com períodos de normalidade.

Segundo o psiquiatra Audenis Peixoto, um indivíduo para ser considerado com transtorno bipolar (TB), obrigatoriamente tem que apresentar a mania, cujo quadro clínico afeta o humor e as funções vegetativas como o sono, a cognição, a psicomotricidade e o nível de energia.

O pensamento torna-se mais rápido, podendo evoluir para a fuga de ideias. O discurso é caracterizado por prolixidade, pressão para falar e irrelevância. As ideias costumam ser de grandeza, podendo ser delirantes. Geralmente a crítica está prejudicada e os ajuizamentos emitidos se afastam da realidade do paciente.

“Esses prejuízos são causados pelo pensamento acelerado e do humor eufórico que o paciente passa a demonstrar, uma vez que ele não tem como mensurar as consequências dos seus atos. Nos casos mais graves, principalmente, é necessário hospitalização”, explicou Peixoto.

Embora não seja obrigatório no quadro clínico do transtorno bipolar, a depressão pode trazer consequências graves à saúde do portador da doença, porque o paciente deprimido tem como base o humor em seu nível mais baixo. Segundo Peixoto, o sintoma inicial da bipolaridade é a depressão, mas também há casos da mania isolada, em que o paciente tem o episódio maníaco e já é diagnosticado com a enfermidade psiquiátrica.

“Quando o paciente apresenta os sintomas da mania ou hipomania, a consideração para o diagnóstico é a bipolaridade. A depressão geralmente passa despercebida, porque, para a maioria das pessoas o quadro clínico varia de leve a moderado, comprometendo menos a capacidade da pessoa. Geralmente a depressão é sentida quando aparece angústia, sofrimento psíquico e muita ansiedade. É importante saber que a irritabilidade é um sintoma muito comum e nunca representa uma característica de personalidade”, alerta.

Por outro lado, a existência de um caso de transtorno bipolar numa família aumenta a possibilidade de que a enfermidade se manifeste em outros membros. O transtorno bipolar pode aparecer pela primeira vez em qualquer idade: seja ela na criança, no adolescente, no adulto ou no idoso.

Não se pode deixar de considerar também que, além da predisposição e vulnerabilidade geneticamente determinadas, certas situações contribuem para a eclosão ou precipitação do problema, tais como a carga maior de estresse, a má qualidade do sono e o consumo de substâncias lícitas e ilícitas que interferem no humor.

Na opinião do psiquiatra, uma das maiores dificuldades para se enfrentar o transtorno bipolar é o fato de o paciente não aceitar a doença e recusar-se a buscar tratamentos. Se aceitasse que tem um problema psicológico e se dispusesse a entendê-lo e tratá-lo, alcançaria uma solução rápida e segura.

“Quando há uma boa relação médico-paciente, conseguimos ‘abrir seus olhos’, fazendo com que ele perceba isso e queira realizar o tratamento mais adequado”’, afirma, informando que o paciente bipolar tem uma grande vantagem quando comparado ao paciente com transtorno bipolar, pois compreende de forma repentina e intuitiva de que está acometido da doença mental.

As pessoas portadoras de patologias do humor, como transtornos bipolares e depressivos, estão mais vulneráveis a outros problemas de saúde. Entre estes, é de particular importância o uso problemático de substâncias como álcool, cocaína, crack, maconha, anfetaminas e muitas outras drogas, incluindo o tabaco, que podem ser ingeridas nestes padrões.

Para o psiquiatra, o chamado uso problemático pode trazer “prejuízos objetivos à pessoa, como dependência, abuso nocivo, contaminação pelo HIV, agravamento de outras doenças já existentes na pessoa. Além disso, os indivíduos que ingerem álcool em excesso ou consomem drogas, os sintomas depressivos e maníacos tornam-se mais graves e menos responsivos ao tratamento com medicamentos, especialmente ao lítio, importante estabilizador de humor”.

De acordo com Peixoto, a dependência de álcool aumenta significativamente as tentativas de suicídio, bem como as internações hospitalares passam a ser mais frequentes.

Tratamentos

O transtorno bipolar não tem cura, mas pode ser controlado. O tratamento inclui o uso de medicamentos, psicoterapia com o paciente e a família, e mudanças no estilo de vida, tais como o fim do consumo de substâncias psicoativas (cafeína, anfetaminas, álcool e cocaína) e adoção de hábitos alimentares saudáveis.

Segundo o psiquiatra, os estabilizadores de humor, especialmente o carbonato de lítio, tem-se mostrado útil para reverter os quadros agudos de euforia e evitar a ocorrência das crises, sobretudo na fase maníaca. No entanto, os antidepressivos devem ser utilizados com cuidado, porque podem provocar uma guinada rápida da depressão para a euforia, ou acelerar a incidência das crises.

“Quando acontece o episódio maníaco, o tratamento medicamentoso é para a vida toda. Neste caso, a única escolha é a alteração da dosagem. Mas, de um modo geral, o tratamento traz uma boa resposta aos pacientes. Muitos chegam a melhorar em uma semana. Dessa forma, o cuidado e a manutenção vão depender não só dos remédios, mas também do cuidado da família, que é imprescindível”, explica. “Quanto mais episódios o paciente tem, maior a gravidade da doença.”

Manter uma rotina de exercícios físicos aeróbicos é fundamental para os portadores de transtorno bipolar. A recomendação é fazer, pelo menos, meia hora por dia, três vezes por semana.

O ideal é a prática ao ar livre, pois o sol estimula a produção de serotonina, substância que ajuda a regular o humor. Durante o exercício, o cérebro recebe maior irrigação sanguínea. A região do hipocampo, responsável pelas reações emocionais, é estimulada a liberar mais desse neurotransmissor, o que causa a reação de bem-estar.

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